Pixinguinha: mestre do Choro e arquiteto da música instrumental

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Alfredo da Rocha Vianna Filho, universalmente conhecido como Pixinguinha, é considerado o pai fundador da música instrumental brasileira moderna e um dos maiores gênios criativos da história da cultura nacional.

Nascido no Rio de Janeiro no final do século XIX, filho de um flautista apaixonado pela música popular, Pixinguinha cresceu em um ambiente onde o Choro — o primeiro gênero de música urbana tipicamente brasileiro — estava em plena formação. Flautista prodígio, saxofonista genial, compositor inspirado e arranjador visionário, ele foi o responsável por dar ao Choro a estrutura harmônica, a sofisticação contrapontística e o contorno estético que o consagraram como a grande escola da música instrumental do país.

Como compositor, Pixinguinha criou obras que são pilares do repertório brasileiro. Sua composição mais famosa, “Carinhoso”, escrita entre 1916 e 1917 como um choro lento instrumental, recebeu letra de João de Barro (o Braguinha) duas décadas depois e se transformou em uma espécie de hino afetivo não oficial do Brasil.

Ouça abaixo “Carinhoso” abaixo:

Outras composições antológicas, como “Lamentos”, “Rosa”, “1 x 0” (Um a Zero) e “Vou Vivendo”, revelam um domínio melódico incomparável, onde a vivacidade do ritmo africano se une à elegância da tradição europeia. Pixinguinha tinha a capacidade única de criar melodias de extrema complexidade técnica que soavam aos ouvidos do povo como cantarolas simples e inesquecíveis.

Além de sua genialidade como instrumentista, a contribuição de Pixinguinha como arranjador e orquestrador mudou para sempre a indústria fonográfica brasileira nas décadas de 1920 e 1930. Contratado pelas maiores gravadoras da época, como a RCA Victor, ele foi o responsável pelos arranjos de centenas de gravações históricas de grandes cantores como Carmen Miranda, Francisco Alves e Mário Reis.

Pixinguinha introduziu os bordões de saxofone contrabalançando a melodia principal da flauta, criou contra-cantos brilhantes e organizou os naipes de sopro e percussão com uma intuição harmônica que influenciou todos os arranjadores que vieram depois dele na MPB, de Radamés Gnattali a Tom Jobim.

A liderança de Pixinguinha à frente do lendário grupo Os Oito Batutas, formado em 1919, representou um marco no pioneirismo da música negra brasileira. O grupo, composto majoritariamente por músicos negros e mestiços, fez um sucesso estrondoso nas salas de elite do Rio de Janeiro e, em 1922, embarcou para uma turnê histórica em Paris.

Na capital francesa, Pixinguinha e seus companheiros impressionaram a crítica europeia, os intelectuais e os músicos locais com a autenticidade, o virtuosismo e a energia do som brasileiro. Essa viagem não apenas internacionalizou o Choro, mas também permitiu a Pixinguinha travar contato com o jazz norte-americano, assimilando o saxofone tenor à sua instrumentação de forma definitiva.

A figura de Pixinguinha é a própria imagem da generosidade, da modéstia e do amor à arte. Apesar de sua importância monumental para a cultura do Brasil, ele manteve ao longo de toda a vida a simplicidade de um boêmio que preferia as mesas de bar e as reuniões de amigos às pompas da fama.

Sua morte, em 1973, dentro da Igreja de Nossa Senhora da Candelária, no Rio de Janeiro, onde seria padrinho de batismo de uma criança, selou de forma poética a trajetória de um homem que viveu integralmente cercado de afeto e música. Pixinguinha deixou uma herança técnica e espiritual que continua a alimentar gerações de instrumentistas, sendo o farol que ilumina a identidade da música instrumental brasileira.

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