Minha Melhor Amiga: o amor ao lado

Fabrício Correia
Fabrício Correia
Fabrício Correia é jornalista, escritor, professor universitário, especialista em Acessibilidade, Diversidade e Inclusão. É crítico de cinema, membro da Academia Brasileira de Cinema e apresenta o programa “Vale Night” na TV Thathi SBT.
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O filme Minha Melhor Amiga, em cartaz nos cinemas, encontra sua melhor razão de ser quando esquece por alguns minutos que precisa fazer rir e deixa Ingrid Guimarães e Mônica Martelli simplesmente ocuparem a tela, porque entre as duas circula uma intimidade que não depende do roteiro, uma cumplicidade feita de tempo, escuta, pequenas crueldades, proteção e daquele conhecimento quase indecente que só adquirimos sobre alguém depois de muitos anos.

Susana Garcia parte de uma estrutura conhecida, colocando Clara e Júlia numa viagem pela Europa em momento de revisão da vida, com os cinquenta anos trazendo perguntas sobre desejo, maternidade, envelhecimento, solidão e escolhas, mas encontra algo mais interessante quando percebe que o verdadeiro romance do filme nunca esteve nos homens que cruzam o caminho das protagonistas, e sim naquela amizade que sobreviveu às versões anteriores de cada uma.

Ingrid conhece como poucas atrizes brasileiras o mecanismo da comédia popular e sabe transformar constrangimento em ritmo, enquanto Mônica possui uma inquietação mais nervosa, verbal, quase confessional, e desse contraste nasce uma dupla que frequentemente consegue ser melhor do que o material que recebeu.

O problema aparece justamente quando o filme desconfia dessa força e acrescenta situações, piadas e conflitos que chegam com destino conhecido, como se fosse necessário produzir acontecimentos para sustentar aquilo que já estava vivo diante da câmera, enquanto Portugal e Espanha, lindamente fotografados, às vezes se aproximam demais da função de cartão-postal.

Seria fácil exigir sofisticação de uma comédia que jamais esconde sua vocação popular, mas simplicidade não precisa significar previsibilidade, e alguns momentos pediam menos explicação, menos preparação para a piada e maior confiança no silêncio dessas mulheres.

Mesmo assim, existe alguma coisa bonita acontecendo ali, especialmente porque o cinema brasileiro ainda oferece pouco espaço para mulheres de cinquenta anos serem engraçadas, desejantes, inconvenientes, inseguras, sexualmente vivas e contraditórias sem transformá-las numa discussão ambulante sobre envelhecimento.

No fim, Minha Melhor Amiga não alcança tudo o que poderia, mas encontra algo que vale mais do que várias de suas piadas: a percepção de que passamos boa parte da vida procurando o grande amor enquanto certas pessoas, discretamente, já estavam ficando.

E algumas ficam.

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