A ideia de que um atendimento médico só é “completo” quando inclui muitos exames ainda é comum, especialmente em unidades de pronto atendimento. Para o pediatra Paulo Taufi Maluf, essa percepção pode gerar um efeito indesejado: pedidos de testes e uso de antibióticos sem real necessidade, o que nem sempre melhora o cuidado e pode até trazer prejuízos.
Na prática, explica o médico, a base do diagnóstico costuma estar na conversa detalhada sobre os sintomas e no exame físico bem-feito. “Converse detidamente com seu paciente, ele lhe revelará o diagnóstico”, lembra Maluf, citando um princípio clássico da medicina para reforçar que nem todo caso exige laboratório ou exames de imagem.
O problema, segundo ele, é quando exames são solicitados sem uma hipótese clínica clara. Nesses casos, podem aparecer alterações que não têm relação com o que a criança apresenta, desviando a conduta para tratar números e laudos, e não o paciente.
Quando menos pode ser mais no pronto atendimento
Doenças respiratórias estão entre as causas mais frequentes de atendimento infantil, e a maioria tem origem viral. Isso significa que, em muitos quadros, antibióticos não trazem benefício. Maluf destaca que sintomas como febre e dor de garganta, por exemplo, muitas vezes estão ligados a infecções que se resolvem sem antimicrobianos, e que o uso dessas medicações deve ficar restrito aos casos em que sinais clínicos indiquem maior chance de infecção bacteriana.
Nesse contexto, exames como hemograma e testes de inflamação, a exemplo da proteína C reativa, podem não acrescentar informação relevante quando o quadro clínico não sugere bactéria. A orientação, afirma o especialista, é que o pedido de exames seja objetivo: para confirmar uma suspeita construída a partir da avaliação médica, e não como rotina.
Em doenças pulmonares agudas, que aumentam em determinadas épocas do ano, diretrizes de entidades pediátricas internacionais também apontam que radiografias e exames laboratoriais podem ser dispensados quando o estado geral da criança e a ausculta do pulmão já oferecem elementos suficientes para a decisão clínica.
Além de reduzir custos e filas, a cautela tem impacto direto no bem-estar infantil. “Não submeter crianças a irradiação desnecessária, bem como ao desconforto de punções venosas para exames sem o critério adequado, deve ser preocupação do médico”, alerta Maluf.
O uso injustificado de antibióticos também entra na lista de riscos. Mesmo quando efeitos colaterais são pouco frequentes, eles podem ocorrer. E há um problema maior, reforça o pediatra: o aumento da resistência bacteriana, considerado uma preocupação global de saúde, favorecido pelo uso inadequado desses medicamentos.


