É frequente que pessoas com doença de Parkinson, após anos de bom controle com comprimidos, passem a notar que o efeito do remédio dura menos ou se torna imprevisível. Essa sensação costuma gerar a mesma dúvida no consultório: afinal, a medicação “parou de funcionar”?
O neurologista Marcelo Zalli afirma que, na maior parte das vezes, a resposta é não. “A levodopa não deixa simplesmente de funcionar. O que muda é a capacidade do cérebro de armazenar e usar a dopamina de forma regular”, explica. Com a progressão da doença, o organismo passa a depender mais do nível do medicamento circulando no sangue naquele momento.
Esse cenário favorece o surgimento das chamadas flutuações motoras, alternando períodos em que a pessoa está mais bem controlada (“on”) com fases em que os sintomas retornam (“off”). Rigidez, lentidão, tremor e dificuldade para caminhar podem reaparecer antes da próxima dose. Também podem surgir discinesias, movimentos involuntários associados às variações do efeito do remédio.
Por que os sintomas passam a oscilar ao longo do dia
A levodopa segue como a principal medicação para controlar os sintomas motores do Parkinson. No início do tratamento, o cérebro ainda consegue transformar e “regular” melhor essa reposição, mantendo um efeito mais estável.
Com o avanço da doença e a perda progressiva de neurônios produtores de dopamina, essa reserva diminui. Além disso, a absorção dos comprimidos pode variar por fatores do dia a dia, como o funcionamento do estômago, os horários das refeições e a presença de proteínas na alimentação.
Na prática, isso pode levar a picos e quedas da concentração do medicamento: o paciente pode precisar de tomadas mais frequentes, acordar já em período “off” ou perceber que o efeito termina antes da dose seguinte.
Nessa etapa, aumentar simplesmente a quantidade de comprimidos nem sempre resolve e pode piorar efeitos indesejados, como as discinesias. “É por isso que a medicina buscou formas de oferecer uma estimulação dopaminérgica mais contínua”, destaca Zalli.
O que a medicina oferece quando os comprimidos não bastam
Nos últimos anos, diferentes estratégias avançadas passaram a ser usadas para reduzir as oscilações e aumentar o tempo em que a pessoa permanece bem controlada, especialmente quando as flutuações persistem apesar de ajustes no tratamento oral.
Entre as novidades, uma combinação de foslevodopa e foscarbidopa administrada por uma bomba portátil, com infusão subcutânea contínua por 24 horas, foi aprovada pela Anvisa em maio de 2026 para casos de Parkinson avançado com flutuações motoras importantes. Segundo o especialista, a proposta é
manter níveis mais estáveis do medicamento no organismo, reduzindo períodos “off” e as variações que impactam a qualidade de vida. A terapia ainda depende de etapas como precificação e disponibilização comercial no Brasil.
Estudos clínicos apontaram aumento do tempo “on” sem discinesias incapacitantes, oferecendo uma alternativa para pacientes que seguem com oscilações mesmo com tratamento oral otimizado.
Além dessa modalidade, outras opções já conhecidas fazem parte do grupo de terapias avançadas:
· Infusão intestinal de levodopa, em que o medicamento é administrado continuamente diretamente no intestino por meio de bomba conectada a uma sonda;
· Estimulação cerebral profunda (DBS), procedimento em que eletrodos são implantados em regiões específicas do cérebro e conectados a um dispositivo semelhante a um marcapasso, modulando circuitos relacionados ao controle dos movimentos.
Embora usem técnicas diferentes, essas abordagens têm objetivos semelhantes: reduzir oscilações, diminuir períodos “off” e tornar o controle dos sintomas mais estável.
Tratamento é individual e depende do momento de cada paciente
Nem todo paciente com Parkinson avançado precisa das mesmas estratégias. A escolha do caminho depende de fatores como idade, tempo de doença, intensidade das flutuações, autonomia, estado cognitivo, presença de outras condições de saúde e resposta às medicações.
Algumas pessoas conseguem boa estabilidade com ajustes na terapia oral. Outras podem se beneficiar de infusões contínuas ou de procedimentos como a DBS, desde que sejam elegíveis após avaliação especializada.
Para Zalli, o ponto central é entender que as oscilações não significam necessariamente o fim das possibilidades de tratamento. “Na maioria das vezes, o tratamento apenas entra em uma nova fase”, afirma.
Com a ampliação das opções, a tendência é aumentar a personalização do cuidado, buscando mais estabilidade dos sintomas, preservação de autonomia e melhor qualidade de vida.


