Ninguém acredita que o ministro vá renunciar. Seria um fato inédito na história recente da República do Brasil. O cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal é o alvo de juízes, desembargadores, membros do Ministério Público, advogados e… políticos. Assim, quem vive o dia a dia dos tribunais e escaninhos da política sabe da importância de portar uma toga que lembra os tempos imperiais. O poder nas mãos de um conjunto de pessoas não é do conhecimento da população em geral, que não sabe o que eles representam, nem que pagam os salários e as mordomias de suas excelências. É a instância suprema do Poder Judiciário e que tem o dever de fazer cumprir a Constituição do país. Para muitos, os ministros são seres desconhecidos, que vestem uma toga preta e falam em “juridiquês”, um idioma desconhecido.
Para onde vai o Brasil sem a atuação do Supremo? Os ministros estão temerosos de suas decisões depois de constantes choques com a presidência da República e o Congresso Nacional. São cobrados por advogados militantes, partidos políticos e parte da mídia para que falem francamente e ponham em pratos limpos de onde se origina a crise que afeta o mais importante tribunal do país. Não é uma crise provocada pelos salários que recebem, pelos carros oficiais que usam, pelas mordomias no palácio, pelas nomeações sem concurso público de parentes e conhecidos. Vai além. Está em jogo a credibilidade de uma instituição que representa um terço do poder da República. Existe em todos os países democráticos do
mundo. Mas o Brasil vive um momento especial. Está não só no meio de uma crise institucional, mas política, econômica e financeira. O brasileiro médio está mais preocupado com o feijão no prato do que com um ataque a um togado.
Os jornalistas esperam uma nova decisão do tribunal. Este, mais de uma vez, se apequena e faz acordos com os que mandam no país. Vários ministros optam sempre em abrandar os atos autoritários do governo e não se perturbam com a censura que sofrem os meios de comunicação. Não há mais liberdade de expressão no país decide a ditadura militar em 1969. Um ano depois da imposição do Ato Institucional número 5 pelo ditador Costa e Silva, o Brasil está sob uma ditadura.
O ato fecha o Congresso, cassa mandatos, suspende direitos políticos e restringe liberdades. A exceção deixa de ser exceção. Um golpe dentro do golpe. Um ministro, durante reunião do Pleno do STF, se revolta contra a interferência no Judiciário e renuncia. Adauto Lúcio Cardoso tira a toga, joga-a na bancada para surpresa do público e de seus colegas ministros. Adauto recusa a homenagem que os seus pares quiseram lhe fazer quando se aposentou. De cabeça erguida deixa o prédio do STF em Brasília. Jornalistas imediatamente escrevem que sua renúncia é um dos episódios mais emblemáticos e simbólicos da resistência institucional e em defesa da liberdade de expressão do tribunal.





