Nem todo contato vira conexão. Nem toda conexão precisa virar amizade.

Cárla Falcão
Cárla Falcãohttps://www.instagram.com/carlafalcao_
Empreendedora, especialista em LinkedIn, mentora e comunicadora. Há mais de 20 anos trabalha com marketing, pessoas e negócios e já treinou mais de 5 mil profissionais. Em sua trajetória, comportamento e conexões sempre estiveram presentes, primeiro nas histórias sobre maternidade e vida real e, hoje, também no universo profissional. Em seus conteúdos, conecta carreira, empreendedorismo, relações e negócios a partir de uma convicção: por trás de toda oportunidade existem pessoas e rede grande não é conexão.

No meu primeiro texto aqui, comecei nossa conversa com uma frase que carrega muito do que acredito: rede grande não é conexão. Desde então, fiquei pensando sobre o que, de fato, faz uma pessoa deixar de ser apenas um nome na nossa rede e passar a ocupar um lugar na nossa memória.

Trabalho há muitos anos com conexões profissionais e observo que os relacionamentos que permanecem raramente são construídos apenas pela troca de cartões, por um convite no LinkedIn ou por aquilo que uma pessoa pode oferecer à outra. Existe algum tipo de vínculo. Uma conversa que foi além do protocolo, um interesse verdadeiro, uma experiência compartilhada, confiança construída com o tempo ou simplesmente a sensação de que aquela pessoa realmente estava presente enquanto conversávamos.

É aí que entramos em um território interessante: qual é o espaço da conexão emocional dentro de uma relação profissional?

Durante muito tempo, o mundo corporativo pareceu nos ensinar a separar muito bem as coisas. De um lado estavam os negócios; do outro, os sentimentos. Profissionalismo era frequentemente associado a certo distanciamento. Só que empresas são formadas por pessoas, negociações acontecem entre pessoas e confiança também é uma percepção humana. Podemos tomar decisões com dados, processos e contratos, mas continuamos avaliando se acreditamos em quem está sentado do outro lado da mesa.

Conexão emocional, nesse contexto, não significa transformar clientes em amigos, compartilhar intimidades ou ultrapassar limites. Ela aparece quando conseguimos enxergar a pessoa antes da função que ela ocupa. Quando existe escuta, interesse, respeito, identificação e espaço para uma conversa que não esteja baseada exclusivamente na pergunta: “O que essa pessoa pode fazer por mim?”

Essa diferença é importante porque também existe um risco no discurso sobre networking. Quando começamos a enxergar todas as relações como oportunidades, podemos tornar os encontros excessivamente utilitários. A conversa deixa de ser uma conversa e passa a ser prospecção. O café vira estratégia. A aproximação tem sempre uma segunda intenção. E as pessoas percebem quando estão sendo tratadas como caminho para chegar a algum lugar.

Nem toda conexão precisa virar amizade

Também precisamos reconhecer o movimento contrário. Uma relação profissional pode ser excelente, próxima, respeitosa e produtiva sem ultrapassar essa fronteira. Não precisamos transformar todos os clientes em amigos, nem compartilhar nossa vida pessoal com todas as pessoas com quem trabalhamos.

Algumas conexões profissionais atravessam essa primeira fronteira naturalmente. Projetos aproximam pessoas, valores semelhantes criam identificação, anos de convivência constroem confiança e, em determinados casos, a relação continua mesmo quando o trabalho termina. Tenho relações na minha própria trajetória que começaram nos negócios e permaneceram na minha vida muito além deles.

Outras relações cumprem muito bem seu papel dentro do espaço profissional. Existe admiração, confiança, reciprocidade e até afeto, mas os limites permanecem claros. Uma forma não é necessariamente melhor do que a outra.

Clareza também é uma maneira de cuidar das relações.

Quando confundimos proximidade com disponibilidade irrestrita, amizade com obrigação profissional ou vínculo emocional com ausência de limites, aquilo que aproximava pode começar a produzir desconforto. Relações saudáveis, inclusive no trabalho, precisam permitir que um “não” continue sendo um “não”, que acordos sejam respeitados e que expectativas possam ser conversadas.

E onde entram as oportunidades?

Uma boa conexão profissional não deveria existir apenas para gerar oportunidades. Curiosamente, são justamente as relações em que não estamos o tempo inteiro tentando extrair alguma coisa que frequentemente se tornam mais férteis ao longo do tempo.

Quando conhecemos verdadeiramente o trabalho de alguém, lembramos dessa pessoa quando encontramos uma oportunidade compatível com ela. Indicamos porque confiamos. Fazemos uma apresentação porque enxergamos uma possibilidade real entre duas pessoas. Somos lembrados pelo mesmo motivo.

É diferente de manter uma relação apenas esperando o momento de pedir alguma coisa.

E o LinkedIn torna esse fenômeno ainda mais interessante. A rede permite que relações iniciadas em uma empresa, evento, projeto ou reunião continuem existindo mesmo quando a convivência presencial termina. Acompanhamos mudanças, conquistas, ideias e novos momentos profissionais. Mas a tecnologia apenas mantém a porta aberta. O vínculo continua dependendo da maneira como nos relacionamos.

No final, construir uma rede profissional saudável exige duas capacidades que parecem opostas, mas não são: aproximar-se genuinamente e respeitar limites.

Podemos nos interessar pelas pessoas sem invadir sua intimidade. Podemos criar afeto sem perder profissionalismo. Podemos fazer negócios sem transformar toda relação em uma transação. E podemos permitir que algumas conexões atravessem a fronteira profissional quando isso acontecer de forma natural para os dois lados.

Acredito cada vez mais que as melhores redes são aquelas em que existe espaço para confiança, reciprocidade e humanidade, mas também clareza sobre o lugar que cada relação ocupa.

Porque rede grande não é conexão.

E conexão verdadeira não se mede pelo quanto sabemos da vida de alguém, mas pela qualidade do vínculo que conseguimos construir.

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