Dia do Teatro: conheça os palcos que fizeram e ainda fazem história em João Pessoa

Da Rua da Areia ao Centro de Convenções, palcos inaugurados em diferentes épocas ajudam a contar quase dois séculos de cultura e transformação urbana na Capital paraibana.

Carlos Rocha
Carlos Rocha
Nascido em 1988, em Guarulhos (SP), Carlos Rocha é filho de paraibanos e vive em João Pessoa desde o início dos anos 2000. Graduado em Administração de Empresas pela Faculdade Paraibana, ingressou posteriormente no curso de Jornalismo na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).Atua no jornalismo digital desde 2013, com passagens por importantes veículos de comunicação da Paraíba. Na TH+ SBT Tambaú, trabalhou nas áreas de Marketing, Reportagem e Produção de Conteúdo Multimídia.Sua atuação é voltada principalmente para política, cidades e temas de interesse público, sempre com foco na apuração rigorosa e na produção de conteúdo de qualidade. Além do jornalismo, é apaixonado por leitura, cinema, séries e cultura pop.

Antes de a cidade se chamar João Pessoa, antes do cinema e muito antes de televisão, streaming ou redes sociais, moradores da antiga Parahyba já se reuniam diante de um palco.

Um registro de 1831 aponta para a existência do Coliseu Paraibano, uma iniciativa particular instalada na Rua da Areia e considerada uma das primeiras casas de espetáculo conhecidas da Capital. Quase dois séculos depois, a cidade tem desde um teatro de 100 lugares ligado à Universidade Federal da Paraíba até uma sala com quase 3 mil poltronas capaz de receber grandes produções.

Entre um extremo e outro estão teatros que atravessaram mudanças políticas, reformas urbanas, períodos de abandono e transformações nos hábitos do público. Alguns sobreviveram. Outros existem hoje apenas em fotografias, documentos e na memória de quem chegou a ocupar suas cadeiras.

Neste sábado, 19 de setembro, quando o país celebra oficialmente o Dia Nacional do Teatro Acessível: Arte, Prazer e Direitos, a trajetória desses espaços ajuda a contar também uma parte da própria história de João Pessoa. A data foi instituída pela Lei nº 13.442, de 2017, com atenção especial à inclusão e à acessibilidade nas atividades cênicas.

Muito antes do Santa Roza

O levantamento histórico mostra que o teatro pessoense não começou no prédio que hoje domina parte da paisagem da Praça Pedro Américo.

Pesquisa acadêmica sobre a arquitetura da antiga Parahyba registra que, em 1831, funcionava na Rua da Areia o chamado Coliseu Paraibano, de iniciativa privada. Trinta anos depois, em 1861, surgiria o Ginásio Paraibano, associado ao ator e empresário teatral José de Lima Penante.

O nome de Lima Penante atravessaria mais de um século. Uma dissertação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) confirma que, antes mesmo da construção do Santa Roza, o artista já mantinha o Ginásio Paraibano e desempenhava papel central na movimentação teatral da cidade.

O desejo por uma casa de espetáculos de maior porte levaria, em 1873, à construção de outro teatro pela Sociedade Dramática Santa Cruz. Problemas financeiros interromperam as obras. O empreendimento acabaria incorporado pelo poder público e daria origem ao edifício que se tornaria o principal símbolo teatral da Capital.

Santa Roza atravessou três séculos

O Theatro Santa Roza foi inaugurado em 3 de novembro de 1889, apenas 12 dias antes da Proclamação da República. Na primeira noite, o palco recebeu o drama O Jesuíta ou O Ladrão de Honra, de Henrique Peixoto.

Hoje com 412 assentos, o prédio de características neoclássicas conserva camarotes e revestimentos internos de madeira e está entre os equipamentos culturais mais antigos de João Pessoa ainda destinados à função para a qual foram construídos.

Sua história extrapolou as artes cênicas. Nas primeiras décadas do século XX, o Santa Roza também funcionou como cineteatro. O edifício recebeu ainda acontecimentos políticos que entraram para a história paraibana, entre eles a sessão de 4 de setembro de 1930 na qual foi aprovada a mudança do nome da Capital de Parahyba para João Pessoa.

Há uma curiosidade importante em torno da antiguidade da casa. Documentos institucionais da Funesc ainda apresentam o Santa Roza como o teatro mais antigo da Paraíba. Registros históricos mais recentes, porém, apontam o Teatro Minerva, em Areia, inaugurado em 1859, como mais antigo. Por isso, a definição mais segura para o Santa Roza é a de teatro mais antigo de João Pessoa e um dos mais antigos do país ainda em atividade.

Em agosto de 2025, o prédio foi reaberto depois de uma intervenção de restauro e manutenção que durou cerca de 18 meses. A Funesc voltou a disponibilizar a casa para apresentações e mantém agenda de reserva de pauta para 2026, confirmando a continuidade de sua atividade cultural.

Lima Penante transformou uma pequena sala em laboratório teatral

Se o Santa Roza representa a tradição dos grandes teatros do século XIX, o Teatro Lima Penante, no Centro, está ligado a outra etapa da cena pessoense: a aproximação entre teatro, universidade, pesquisa e formação de artistas.

A casa foi inaugurada em 8 de fevereiro de 1980, na Avenida João Machado, nº 67, resultado de um convênio entre a UFPB e o então Serviço Nacional de Teatro. Dois anos depois seria formalizado o Núcleo de Teatro Universitário (NTU).

A sala tem perfil intimista. Pesquisa de Sanzia Marcia Pessoa, apresentada ao mestrado profissional do Iphan, registra capacidade em torno de 100 espectadores, dois camarins e palco com pouco mais de 74 metros quadrados. A peça que inaugurou o espaço foi A Noite de Matias Flores, escrita por Marcos Tavares e dirigida por Fernando Teixeira.

Ao longo das décadas, o Lima Penante se consolidou não apenas como local de apresentação, mas como espaço de ensaio, formação, documentação e encontro da comunidade artística. O estudo do Iphan caracteriza o NTU como equipamento de atuação relevante na formação teatral de João Pessoa e na preservação da memória das artes cênicas locais.

Espaço Cultural criou dois novos palcos nos anos 1980

Outro ponto de transformação ocorreu em 1982, com a inauguração do Espaço Cultural José Lins do Rego, em Tambauzinho.

Dentro do complexo funcionam dois palcos com propostas diferentes: o Teatro Paulo Pontes e o Teatro de Arena Leonardo Nóbrega.

O Paulo Pontes tem 660 lugares e palco do tipo italiano. Depois de uma grande reforma iniciada em 2013, recebeu novas poltronas, equipamentos de som e iluminação e adaptações de acessibilidade. A estrutura atual dispõe de 14 espaços destinados a cadeirantes e seis poltronas para pessoas com necessidades específicas. Em 2026, segue recebendo teatro, dança, música, festivais e outros eventos.

Já o Teatro de Arena Leonardo Nóbrega rompe com o modelo de palco fechado. Com área de 689 metros quadrados e capacidade declarada para 1.000 pessoas, o espaço utiliza placas acústicas móveis e aproxima público e artistas. Também foi inaugurado em 1982.

Os nomes dos dois equipamentos homenageiam dramaturgos paraibanos: Paulo Pontes, autor e diretor ligado à renovação do teatro brasileiro, e Leonardo Nóbrega, que atuou como ator, diretor e dramaturgo.

Um teatro construído por um homem de teatro

Em Manaíra, outra história foge do modelo dos grandes equipamentos públicos.

O Teatro Ednaldo do Egypto nasceu do projeto pessoal do ator, autor e teatrólogo que lhe dá nome. Com a ajuda de amigos, Ednaldo construiu a própria casa de espetáculos na Avenida Maria Rosa. O espaço foi inaugurado em 27 de março de 1995, data em que se celebra o Dia Mundial do Teatro.

Pesquisa acadêmica da UFPB registrou uma plateia com capacidade para cerca de 170 pessoas, característica que ajudou a manter uma relação mais próxima entre palco e público.

A sobrevivência da casa chegou a ser motivo de mobilização do setor cultural. Em 2023, o imóvel foi reconhecido oficialmente como Patrimônio Cultural de João Pessoa. Em janeiro deste ano, a Prefeitura anunciou a conclusão da compra do teatro, incorporando definitivamente o imóvel ao patrimônio municipal.

O espaço continua sendo utilizado. Em junho de 2026, por exemplo, recebeu uma cerimônia promovida pela rede municipal de ensino.

Pedra do Reino mudou a escala dos espetáculos

A mudança mais radical em termos de tamanho veio em 5 de agosto de 2015.

Naquela data, foi inaugurado o Teatro Pedra do Reino, última grande estrutura entregue dentro do Centro de Convenções de João Pessoa. O nome é uma referência à obra de Ariano Suassuna, escritor e dramaturgo nascido na Capital.

A estrutura atual possui 2.924 lugares, distribuídos entre plateia e balcão. São mais de 11 mil metros quadrados de área construída e cerca de 840 metros quadrados destinados ao palco e às coxias. A dimensão permite receber montagens, concertos e eventos que dificilmente caberiam nas salas tradicionais da cidade.

O contraste ajuda a mostrar a diversidade da estrutura teatral pessoense: dentro da mesma cidade, o espectador pode assistir a uma montagem para uma centena de pessoas no Lima Penante ou integrar uma plateia quase 30 vezes maior no Pedra do Reino.

A cena não cabe apenas nos grandes teatros

A rede de espaços cênicos de João Pessoa não se limita às seis casas mais conhecidas.

O Teatro Sesc, no Centro de Cultura, Arte e Esporte, segue recebendo programação em 2026. Nesta semana, por exemplo, foi utilizado pelo Ministério da Cultura para atividades da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura.

No bairro do Roger, o Centro Cultural Piollin ocupa outro lugar fundamental nessa história. Sua origem remonta a 1977, quando artistas ligados a Luiz Carlos Vasconcelos, Everaldo Pontes e Buda Lira criaram uma experiência que associava produção teatral, experimentação artística e formação de crianças e adolescentes. Uma dissertação da UFPB dedicada à instituição registra sua importância como experiência de educação não formal e produção cultural durante os últimos anos da ditadura militar e o início da redemocratização.

O Centro Cultural Piollin continua aparecendo em registros oficiais de atividades culturais de João Pessoa em 2026, embora sua trajetória tenha alternado períodos de maior e menor utilização de sua sala teatral.

Há ainda espaços multifuncionais capazes de receber artes cênicas. O Centro Cultural Ariano Suassuna, mantido pelo Tribunal de Contas do Estado em Jaguaribe, possui auditório com mais de 400 lugares e infraestrutura para encenações. E, em abril deste ano, o Cemapi, equipamento da rede municipal de ensino, ganhou um teatro com capacidade para 200 pessoas.

Cine-Teatro Plaza: quando cinema e palco dividiam o mesmo endereço

Entre os teatros que desapareceram da paisagem urbana está um dos espaços de entretenimento mais importantes da João Pessoa do século XX.

O Cine-Teatro Plaza foi inaugurado em 11 de setembro de 1937, no antigo Ponto de Cem Réis. Documentos do próprio jornal A União publicados naquela época registram uma casa com 1.125 lugares, além de palco preparado para receber espetáculos — uma escala considerável para a cidade da década de 1930. (A União – Jornal, Editora e Gráfica)

O local recebeu não apenas filmes. Em 29 de maio de 1946, por exemplo, foi palco do concerto inaugural da formação que daria origem à Orquestra Sinfônica da Paraíba, reunindo 50 instrumentistas.

O Plaza desapareceu, mas permaneceu na memória de gerações que frequentaram o Centro quando cinema, música e teatro dividiam as mesmas grandes salas.

Juteca levou o palco para o bairro

Se Santa Roza e Plaza estavam associados ao Centro, a Juventude Teatral de Cruz das Armas, a Juteca, mostrou que a produção teatral também podia nascer distante dos equipamentos tradicionais.

Criada nos anos 1960, a Juteca é apontada em registros históricos como o primeiro teatro de bairro de João Pessoa. O espaço foi construído com participação de moradores e esteve associado a nomes como Geraldo Jorge, Ednaldo do Egypto e Zezita Matos. (A União – Jornal, Editora e Gráfica)

A história teve um desfecho diferente da do Santa Roza. Depois de décadas de abandono e sucessivas tentativas de recuperar o prédio, uma reportagem de A União publicada em 2024 constatou que a antiga sede havia sido reformada e transformada em residência. O palco deixou de existir fisicamente, mas sua experiência permanece como referência de descentralização cultural na cidade.

Cilaio Ribeiro também saiu de cena

Outro nome que marcou a segunda metade do século XX foi o Teatro Cilaio Ribeiro, instalado no antigo Grupo Escolar Thomas Mindello, na Avenida General Osório, no Centro.

O antigo auditório do prédio foi adaptado para receber o teatro, inaugurado em dezembro de 1987 por iniciativa ligada à Federação Paraibana de Teatro Amador. O espaço recebeu festivais, espetáculos e apresentações musicais.

Com cerca de 60 lugares em uma das configurações registradas, a sala deixou de funcionar como teatro em 2005 e passou a integrar a estrutura do Centro Cultural Thomas Mindello.

Sua história mostra uma característica recorrente dos palcos pessoenses: nem sempre o desaparecimento de um teatro ocorre com a demolição do prédio. Às vezes, o edifício permanece, mas a função que deu identidade ao lugar deixa de existir.

Uma história feita também de resistência

O conjunto desses espaços revela que a história teatral de João Pessoa nunca foi uma linha contínua de inaugurações.

Houve prédios abertos e fechados, teatros transformados, campanhas para impedir demolições, longos períodos de reforma e grupos que passaram a encenar em escolas, igrejas, galpões e até na rua quando ficaram sem uma sala disponível.

A própria trajetória do Teatro Lima Penante registra diferentes reformas e momentos de ameaça à continuidade do equipamento. A pesquisa desenvolvida no Iphan identifica o espaço não apenas como um prédio destinado a espetáculos, mas como um lugar de memória, associado à formação de artistas e à construção da identidade da comunidade teatral pessoense.

É uma definição que também ajuda a compreender os outros palcos da cidade.

Do desaparecido Coliseu Paraibano da Rua da Areia ao quase tricentenário Centro Histórico — onde o Santa Roza permanece de portas abertas —, da experiência comunitária da Juteca aos 2.924 lugares do Pedra do Reino, os teatros de João Pessoa guardam mais do que cenários, cortinas e poltronas.

Guardam diferentes momentos da cidade e das pessoas que decidiram subir a um palco para contar uma história — e das que se sentaram diante dele para assistir.

Neste 19 de setembro, a própria denominação oficial da data acrescenta um desafio a essa memória: fazer com que esses palcos não apenas sobrevivam, mas sejam espaços aos quais diferentes públicos possam efetivamente ter acesso.

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS