Com risco de menos chuva e calor acima da média, Paraíba cria estrutura para monitorar El Niño

Decreto assinado nesta sexta-feira (18) cria um comitê estadual, uma câmara técnica e uma sala de situação para integrar informações e orientar decisões de diferentes órgãos públicos.

Carlos Rocha
Carlos Rocha
Nascido em 1988, em Guarulhos (SP), Carlos Rocha é filho de paraibanos e vive em João Pessoa desde o início dos anos 2000. Graduado em Administração de Empresas pela Faculdade Paraibana, ingressou posteriormente no curso de Jornalismo na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).Atua no jornalismo digital desde 2013, com passagens por importantes veículos de comunicação da Paraíba. Na TH+ SBT Tambaú, trabalhou nas áreas de Marketing, Reportagem e Produção de Conteúdo Multimídia.Sua atuação é voltada principalmente para política, cidades e temas de interesse público, sempre com foco na apuração rigorosa e na produção de conteúdo de qualidade. Além do jornalismo, é apaixonado por leitura, cinema, séries e cultura pop.
Segundo o levantamento, 38% do estado apresentou o nível mais grave do fenômeno, condição que não era observada desde fevereiro de 2019
(Foto: Agência Brasil)

A Paraíba terá uma estrutura permanente para monitorar eventos climáticos extremos e coordenar ações diante dos possíveis impactos do El Niño 2026–2027. Decreto assinado nesta sexta-feira (18) cria um comitê estadual, uma câmara técnica e uma sala de situação para integrar informações e orientar decisões de diferentes órgãos públicos.

A medida ocorre em um momento de fortalecimento do fenômeno no Oceano Pacífico. A atualização mais recente da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), divulgada em 10 de setembro, aponta mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o inverno 2026–2027 do Hemisfério Norte.

Para o Nordeste, as projeções atuais indicam maior risco de temperaturas acima da média e redução das chuvas, cenário que pode aumentar a pressão sobre reservatórios, agricultura e abastecimento de água, principalmente se o fenômeno interferir no próximo período chuvoso.

O que o decreto cria

O decreto organiza a atuação estadual em três estruturas.

O Comitê Estadual de Monitoramento, Preparação e Resposta aos Eventos Climáticos Extremos será responsável pela coordenação estratégica e pela articulação entre os diferentes órgãos do Estado.

A Câmara Técnica Permanente de Monitoramento, Prognóstico e Avaliação de Riscos Climáticos terá caráter técnico. Caberá ao grupo reunir e analisar informações oficiais sobre clima, riscos e possíveis impactos.

Já a Sala Estadual de Situação funcionará como ambiente permanente de monitoramento integrado e apoio às decisões diante de eventos extremos.

Na prática, a intenção é reunir dados de áreas como recursos hídricos, meio ambiente, Defesa Civil e infraestrutura para permitir que o Estado acompanhe a evolução das condições climáticas e defina respostas de forma conjunta.

El Niño já está estabelecido

O El Niño 2026 não é mais apenas uma possibilidade.

O fenômeno foi confirmado em junho e vem ganhando intensidade nos últimos meses. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) considera que o evento está firmemente estabelecido e deve continuar se fortalecendo, com probabilidade próxima de 100% de persistir até fevereiro de 2027.

Na atualização de 10 de setembro, a NOAA estimou mais de 90% de chance de um episódio muito forte.

A agência também calculou em 75% a probabilidade de que, entre outubro e dezembro, o índice usado para medir a intensidade do fenômeno ultrapasse os registros anteriores desde 1950.

Isso é diferente de afirmar que existe 90% de chance de este ser “o El Niño mais severo da história”.

A intensidade do fenômeno é medida principalmente pelas alterações na temperatura do Pacífico e pela resposta da atmosfera. Um El Niño mais intenso aumenta a probabilidade de determinados impactos climáticos, mas não determina sozinho a intensidade de secas, enchentes ou ondas de calor em cada região. A própria NOAA ressalta que impactos fortes não são garantidos apenas pela intensidade do fenômeno.

O que pode acontecer na Paraíba?

No Nordeste, o sinal climático mais consistente associado ao atual El Niño é de redução das chuvas e elevação das temperaturas.

O boletim mais recente do Painel El Niño 2026–2027, elaborado por órgãos como INPE, Inmet, ANA e Cemaden, indica tendência de chuvas abaixo da média nas regiões Norte e Nordeste entre setembro e novembro. As temperaturas devem ficar acima da média em praticamente todo o país.

Para a Paraíba, o principal ponto de atenção no médio prazo está na disponibilidade de água.

Uma nota técnica do Cemaden alerta que o atraso ou a redução do período chuvoso no interior do Nordeste pode afetar a gestão hídrica, principalmente em municípios dependentes de reservatórios que precisam das chuvas sazonais para recompor seus volumes.

O Inmet também aponta que episódios de El Niño costumam aumentar o risco de estiagem no Nordeste, com possíveis efeitos sobre agricultura, pastagens e disponibilidade hídrica.

Menos chuva na média não elimina temporais

A previsão de um período mais seco não significa ausência de chuvas fortes.

Eventos extremos podem ocorrer de forma localizada mesmo em meses que terminem com precipitação total abaixo da média histórica.

Boletim climático regional coordenado pela Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba (Aesa) já havia destacado essa possibilidade para o leste do Nordeste: sistemas meteorológicos específicos podem provocar episódios de chuva intensa mesmo durante um período predominantemente mais seco.

Por isso, o decreto estadual também prevê preparação e resposta para diferentes tipos de eventos extremos, e não apenas para estiagens.

Recursos hídricos entram no centro da preocupação

O cenário climático é acompanhado também em nível nacional.

A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) lançou neste mês um plano específico de preparação para os impactos do El Niño 2026–2027 sobre os recursos hídricos, com ações previstas até março do próximo ano.

Na Paraíba, o acompanhamento dos reservatórios ficará entre os dados relevantes para avaliar os efeitos do fenômeno, principalmente à medida que se aproxima o período em que diferentes regiões do Estado dependem das chuvas para recompor os mananciais.

A AESA já realiza monitoramento meteorológico e hídrico no Estado e deverá fornecer informações técnicas para as decisões relacionadas ao enfrentamento de eventos extremos.

O que ainda falta saber

O decreto define como o Estado pretende organizar o monitoramento e a tomada de decisões, mas a criação das estruturas, por si só, não representa a execução de obras ou medidas emergenciais.

Os efeitos concretos dependerão da evolução do El Niño e das decisões tomadas a partir dos dados produzidos nos próximos meses.

Entre os pontos que deverão ser acompanhados estão a situação dos reservatórios, os prognósticos para a próxima estação chuvosa, eventuais medidas para abastecimento de municípios, ações de Defesa Civil e possíveis impactos sobre a agricultura.

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