João Pessoa é mesmo a segunda cidade mais verde do mundo? O que os dados mostram no Dia da Árvore

No indicador atual de arborização das vias do IBGE, João Pessoa está em 17º lugar entre as capitais, com 53,2%.

Carlos Rocha
Carlos Rocha
Nascido em 1988, em Guarulhos (SP), Carlos Rocha é filho de paraibanos e vive em João Pessoa desde o início dos anos 2000. Graduado em Administração de Empresas pela Faculdade Paraibana, ingressou posteriormente no curso de Jornalismo na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).Atua no jornalismo digital desde 2013, com passagens por importantes veículos de comunicação da Paraíba. Na TH+ SBT Tambaú, trabalhou nas áreas de Marketing, Reportagem e Produção de Conteúdo Multimídia.Sua atuação é voltada principalmente para política, cidades e temas de interesse público, sempre com foco na apuração rigorosa e na produção de conteúdo de qualidade. Além do jornalismo, é apaixonado por leitura, cinema, séries e cultura pop.

Quem vive em João Pessoa há algumas décadas provavelmente já ouviu que a capital paraibana seria a segunda cidade mais verde — ou mais arborizada — do mundo, atrás apenas de Paris. A afirmação atravessou gerações, apareceu em materiais turísticos e acabou incorporada à própria imagem da cidade.

Neste 21 de setembro, Dia da Árvore, os dados disponíveis ajudam a separar duas questões diferentes. A primeira é a existência de um patrimônio ambiental relevante em João Pessoa, que inclui grandes fragmentos de Mata Atlântica em plena área urbana. A segunda é o antigo título internacional: não há registro de um ranking oficial da Organização das Nações Unidas que tenha colocado João Pessoa como a segunda cidade mais verde do planeta.

A origem conhecida da afirmação remonta a 1992, ano da Eco-92. Décadas depois, levantamentos oficiais colocam a capital longe das primeiras posições brasileiras quando o critério utilizado é a arborização das vias: no Censo 2022, João Pessoa aparece em 17º lugar entre as capitais, com 53,2% dos trechos de via avaliados apresentando arborização.

Ao mesmo tempo, a cidade abriga uma área de mais de 500 hectares de Mata Atlântica protegida na Mata do Buraquinho, além de manguezais, parques e outros remanescentes vegetais.

De onde saiu a história da “segunda cidade mais verde do mundo”?

Em janeiro de 1992, meses antes da Eco-92, uma reportagem da revista Marie Claire, assinada pela jornalista Maria Emília Kubrusly, apresentou João Pessoa como a segunda cidade mais arborizada do mundo, atrás de Paris, e atribuiu a classificação a “técnicos da Eco-92”.

A publicação não indicava quem eram esses técnicos, qual metodologia teria sido adotada ou onde estaria o estudo que fundamentava a comparação.

A frase ganhou força nos meses seguintes. Materiais promocionais da Prefeitura passaram a explorar a imagem de João Pessoa como “cidade verde”, reproduzindo também a referência à suposta avaliação de técnicos da conferência ambiental.

A repetição fez a afirmação adquirir aparência de reconhecimento oficial. Não há, porém, documentação conhecida de que a Eco-92, a ONU ou algum organismo ligado à conferência tenha produzido um ranking mundial de cidades no qual João Pessoa aparecesse em segundo lugar.

Relatos posteriores do período também apontam que a classificação não nasceu de um levantamento científico internacional reconhecido.

O que o IBGE mostra atualmente?

O retrato oficial mais recente está no Censo Demográfico 2022 – Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios, divulgado pelo IBGE.

João Pessoa registrou 53,2% dos trechos de vias com pelo menos uma árvore, resultado que coloca a cidade na 17ª posição entre as capitais brasileiras.

Campo Grande lidera, com 91,4%, seguida por Goiânia, com 89,6%; Palmas, com 88,7%; Curitiba, com 85,2%; e Brasília, com 84,2%. João Pessoa aparece logo depois de Natal, que registra 55,2%, e antes do Recife, com 51,1%.

O indicador, contudo, mede uma dimensão específica do verde urbano: a presença de árvores nos trechos das vias.

Ele não representa toda a vegetação existente dentro dos limites da cidade. Uma grande unidade de conservação, por exemplo, pode ocupar centenas de hectares e prestar serviços ambientais importantes sem aumentar diretamente o percentual de ruas arborizadas.

O Censo de 2010 registrou 78,4% para o indicador de arborização em João Pessoa. À primeira vista, comparar esse número com os 53,2% de 2022 poderia sugerir uma forte perda de árvores.

O próprio IBGE, porém, alerta que essa comparação não deve ser feita diretamente.

Em 2010, bastava haver alguma arborização na face da quadra percorrida, na face oposta ou no canteiro central. Para 2022, houve mudanças conceituais e na forma de coleta.

Por causa dessas diferenças, o instituto afirma expressamente que os resultados de arborização dos dois Censos não são diretamente comparáveis.

Assim, os 53,2% permitem posicionar João Pessoa no levantamento de 2022, mas não permitem afirmar que a cidade perdeu exatamente 25,2 pontos percentuais de arborização desde 2010.

Outro levantamento ajuda a enxergar uma dimensão diferente.

Dados do MapBiomas sobre vegetação nas áreas urbanizadas apontaram que, em 2023, 17,1% da área urbana de João Pessoa apresentava vegetação, colocando a capital na 15ª posição entre as 27 capitais nesse indicador.

O método não é equivalente ao do IBGE.

O MapBiomas utiliza imagens de satélite e identifica vegetação inserida na área urbana, como parques, praças, áreas privadas vegetadas e fragmentos incorporados pela expansão da cidade. A metodologia atualmente disponível também diferencia a vegetação intraurbana de grandes maciços vegetais e áreas periurbanas.

Por isso, não existe contradição em uma cidade possuir grandes fragmentos florestais e, ao mesmo tempo, apresentar uma parcela relativamente menor de ruas com árvores.

Os levantamentos respondem a perguntas diferentes.

Mata do Buraquinho: mais de 500 hectares cercados pela cidade

Se o antigo ranking não encontra comprovação, a Mata do Buraquinho é um patrimônio ambiental mensurável.

Atualmente, a área integra o Refúgio de Vida Silvestre Mata do Buraquinho, unidade de conservação de proteção integral com aproximadamente 512,933 hectares, segundo a Superintendência de Administração do Meio Ambiente da Paraíba (Sudema).

Dentro da área está o Jardim Botânico Benjamin Maranhão. A Sudema classifica o conjunto como um dos remanescentes de Mata Atlântica mais relevantes existentes em área urbana no Brasil.

A proteção formal é antiga.

Em 1989, o Decreto Federal nº 98.181 declarou de preservação permanente 472 hectares da Mata do Buraquinho. O texto cita expressamente como objetivos a proteção dos mananciais e a conservação de uma amostra da fauna e da flora da Mata Atlântica da região.

Em 2014, o Governo da Paraíba criou o Refúgio de Vida Silvestre Mata do Buraquinho. A delimitação foi posteriormente ajustada, e atualmente a Sudema trabalha com a área aproximada de 512,933 hectares.

A floresta também é atravessada pelo Rio Jaguaribe e constitui um dos maiores blocos de vegetação existentes dentro da malha urbana de João Pessoa.

João Pessoa tem reconhecimento internacional, mas não é ranking

Há hoje um reconhecimento internacional real relacionado à arborização de João Pessoa.

A cidade faz parte do Tree Cities of the World, programa mantido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em parceria com a Arbor Day Foundation.

Na edição mais recente, referente a 2025, João Pessoa aparece entre as 51 cidades brasileiras reconhecidas. Campina Grande, Cabedelo, Patos, Santa Rita e São Bento também constam da relação da Paraíba.

O programa, entretanto, não estabelece um ranking das cidades mais verdes do mundo.

Para receber o reconhecimento, o município precisa cumprir cinco padrões relacionados à gestão da arborização: ter uma autoridade responsável pelas árvores, possuir normas de manejo, manter avaliação atualizada dos recursos arbóreos, destinar recursos financeiros à gestão e promover uma celebração anual relacionada às árvores.

Portanto, João Pessoa integra uma rede internacional de municípios reconhecidos pela gestão de suas árvores urbanas, mas isso não significa primeiro, segundo ou qualquer outro lugar em quantidade de verde.

Cidade ganhou Plano Municipal de Arborização em agosto

O debate sobre as árvores urbanas ganhou uma nova ferramenta neste ano.

Em 24 de agosto de 2026, foi sancionada a Lei Municipal nº 15.923, que instituiu o Plano Municipal de Arborização Urbana de João Pessoa.

A legislação estabelece diretrizes para planejamento, promoção e preservação da arborização da cidade.

Paralelamente, o programa João Pessoa + Verde prevê arborização de ruas, praças e parques, recuperação de áreas degradadas e implantação de corredores verdes. A meta anunciada pelo Município é chegar a 500 mil árvores plantadas até 2030.

A existência dessas políticas também permite que a arborização passe a ser acompanhada por metas e indicadores, em vez de depender apenas de uma reputação construída décadas atrás.

O que é possível afirmar sobre João Pessoa

Os dados disponíveis não sustentam que João Pessoa seja — ou tenha sido oficialmente reconhecida pela ONU como — a segunda cidade mais verde do mundo.

A documentação histórica disponível mostra que a frase ganhou força em 1992 a partir de uma publicação jornalística e de materiais promocionais, sem que apareça um ranking internacional, metodologia ou estudo da ONU que tenha estabelecido essa posição.

No indicador atual de arborização das vias do IBGE, João Pessoa está em 17º lugar entre as capitais, com 53,2%. No levantamento de vegetação urbana divulgado a partir dos dados do MapBiomas, aparece em 15º, com 17,1% da área urbanizada coberta por vegetação em 2023.

Ao mesmo tempo, a cidade conserva remanescentes ambientais relevantes, entre eles os mais de 500 hectares da Mata do Buraquinho, e possui atualmente políticas específicas de arborização e reconhecimento internacional por critérios de gestão de árvores urbanas.

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