Marília Mendonça ganha livro que revisita sua trajetória a partir de dez músicas

A Editora Vestígio prepara, para outubro, o lançamento de O rastro da rainha – Para entender o fenômeno Marília Mendonça. Escrito pela jornalista Carol Prado, criadora e apresentadora do podcast Marília – O outro lado da sofrência, o livro é uma espécie de biografia da cantora sertaneja a partir de suas composições.

A obra parte de dez canções, de “Minha Herança”, escrita por Marília aos 12 anos, à póstuma “Tudo Vai Ficar Bem”, para reconstruir a trajetória da artista e sua influência na reinvenção do sertanejo. Cada música serve como fio condutor de uma etapa dessa história: da menina de Goiás cujos versos surpreendiam pela maturidade à compositora contratada que desenvolveu um estilo tão particular que passou a ser chamado, nos bastidores, de jeito “mariliônico” de compor.

O livro mapeia também a ruptura temática promovida por Marília no gênero: a substituição dos arquétipos tradicionais do sertanejo por mulheres traídas, amantes, mulheres que bebem, desejam, erram e revidam. Ao lado de Maiara & Maraísa, a cantora transformou o que era uma exceção isolada no primeiro movimento coletivo de mulheres na história do sertanejo.

Carol Prado. Foto: Divulgação.

Cinco anos após sua morte, Marília Mendonça segue sendo uma referência central e, ao mesmo tempo, uma ausência ainda pouco dimensionada na música brasileira. O rastro da rainha se propõe a preencher essa lacuna: é uma reportagem construída a partir das canções, de dados e de depoimentos de quem esteve próximo da artista, com o objetivo de situar sua dimensão como compositora e o alcance da mudança que ela provocou no gênero.

Uma das passagens contadas no livro é a respeito da reação da cantora Marília à polêmica envolvendo seu posicionamento contra Bolsonaro, em 2018. Nesse episódio, depois de ser muito atacada na internet, Marília prometeu que nunca mais se envolveria com política e chegou a recusar um convite da Unesco.

Às vésperas do primeiro turno daquele ano, pesquisas mostravam uma diferença inédita entre o apoio de homens e mulheres a Bolsonaro, o que impulsionou a mobilização feminina contra o candidato, simbolizada pela hashtag #EleNão. Convidada pela cantora Maria Gadú a aderir ao movimento, Marília gravou, sem

consultar sua equipe, um vídeo em que declarava apoio à causa. A repercussão negativa entre o público conservador, que incluía ataques a ela e à família, levou a cantora a apagar a publicação horas depois e a se retratar publicamente, pedindo desculpas e anunciando silêncio definitivo sobre política.

O episódio, descrito no livro como um dos momentos mais desestabilizadores da carreira da cantora, teve um desdobramento posterior: ao receber, algum tempo depois, um convite da Unesco para se tornar embaixadora da entidade (honraria já concedida a nomes como Gilberto Gil e Vik Muniz), Marília perguntou se o cargo envolvia algum viés político e, diante da resposta afirmativa, recusou a proposta.

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