Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes criam juntos “Vice-Versa”, 1º álbum da dupla que chegou nas plataformas digitais

O cuidado primoroso no trato com as palavras foi algo que sempre aproximou Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes. Ao longo dos últimos 30 anos, inclusive, as carreiras de ambos se cruzaram diversas vezes, mas, somente agora, eles fazem dessa conexão algo maior. “Vice-Versa” (2026, Universal Music Brasil) é a materialização do encontro dos seus universos artísticos em um novo disco de parcerias inéditas.

O trabalho chegou hoje nas plataformas de streaming de áudio (ouça aqui). A turnê, que estreia em março de 2027, passará por seis cidades brasileiras. Confira abaixo o release do disco, escrito por Noemi Jaffe.

Os nomes de Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes são tão afinados um ao outro, que fica difícil acreditar que, até agora, eles nunca tivessem gravado um disco juntos. São mais de trinta anos de parcerias que, mesmo esporádicas, revelam uma simpatia profunda – no sentido de partilha de uma linguagem, uma estética e uma ética semelhantes. Inúmeras participações de ambos em shows, festivais, livros e conferências um do outro e o espanto de constatar uma única canção conjunta: “Pra Lá”, de 2006, indicada ao Latin GRAMMY® de Melhor Canção em Língua Portuguesa.

Esse “lá” do título, aliás, reaparece no disco “Vice-Versa”, sua produção mais recente, quase inteiramente composta pelos dois artistas. Na canção “Por ti, por mim, por nós”, Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes cantam em uníssono: “todos os campos, prados, jardins/ trouxe pra ti de lá/(…)/ de lá do fim do mundo eu vim/ só pra te ver sorrir”.

Pode-se mesmo dizer que, desde aquele “lá”, em “a montanha insiste em ficar lá, parada”, de 2006, até esse último, em “Vice-Versa”, a estrela que guia os dois artistas é uma espécie de utopia. Uma utopia da canção – seja balada, rock, MPB, samba, o que for – como força transformadora. Pela alegria, revolta, consciência e simpatia. Canções sofisticadamente simples, tornando pop a elegância, a precisão e a generosidade.

Em 2024, finalmente, os dois apresentaram seu primeiro show conjunto, no Coala Festival, em São Paulo. Veio então a vontade de prolongar aquele encontro em uma turnê. Mas não apenas com os sucessos que cada um já trazia consigo: quiseram também novas canções, compostas em parceria. E foi desse desejo que nasceu Vice-Versa.

Foto: Divulgação.

Vice-versa: duas palavras sonoras, quase rimadas, sintéticas, com sentido oposto e complementar. Vice-versa, segundo o dicionário, são inversos mútuos, numa contradição apenas aparente. Isso se traduz perfeitamente, aliás, na única canção do disco não cantada em uníssono, “Agora Juntos”: “ lento e rápido”, “cais e caos”, “lixas e veludos”, “graves e agudos”, “claro e escuro”. Como pensar em um sem o outro?

Em canções que, reunidas, manifestam um ethos de insubmissão, ouvem-se, mesmo que em uníssono, a lixa e o veludo se raspando, assim criando uma sonoridade simultaneamente tranquila e inquieta. “Todo mundo tá falando o que é melhor pra mim/ (…) /palpitando e dando ideia do que vai rolar/ (…) só eu sei o que eu tô pensando/ quer estar no meu lugar/ vem entrar aqui na minha carne viva/ pra saber o que é melhor pra minha vida”. De certa forma, é como se essa afirmação de autonomia se repetisse no apelo à introspecção em “Também Capaz”; na queixa contra a violência em “As Bancas de Jornais”; no desejo de transbordamento de “Contemplando a Folia” ou nas reivindicações de “Não Me Dão”. Como se, cantando juntos, Adriana e Arnaldo dessem voz a um sujeito que perpassa o disco inteiro e que aparece também nos arranjos equilibrados, variando do samba ao rock e à timbalada. Um sujeito que, mesmo se insatisfeito com o estado geral das coisas, não deixa de amar, de se encantar e de provocar encanto: “toda a água quer desaguar/ toda onda quer requebrar/ todo corpo quer transbordar” ou “para o cais/ deixando a maré nos levar/ para o caos/ sem medo de não mais voltar”.

Em canções como “Na Minha Carne Viva”, “Também Capaz”, “As Bancas de Jornais”, “Não Me Dão” e “Não Me Deu”, as muitas enumerações e repetições expressam o choque do excesso: de informações, de opiniões, de violência e de coisas. Como se os artistas afirmassem e mesmo nos invocassem para um tempo de mais introspecção, como em “Também Capaz”, em que se convida um “você” a “olhar pra dentro/ por um momento só/ estar consigo a sós/ fechar os olhos/ e respirar / experimentar a paz”. Uma paz que, não por ser solitária e introspectiva, remete ao isolamento. Ao contrário, uma paz que vem da consciência de ser um sujeito ativo e autônomo. Um sujeito capaz.

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