A avalanche de conteúdos sobre saúde nas redes sociais mudou a forma como muita gente chega ao consultório: com suspeitas fechadas, pedidos de exames já definidos e, às vezes, até um “tratamento” escolhido com base em vídeos curtos. O clínico geral Alfredo Salim Helito afirma que o problema vai além das fake news. “Mais difícil do que combater uma mentira é lidar com uma informação verdadeira transformada em regra universal”, alerta.
Hoje, em poucos segundos, é possível encontrar explicações sobre colesterol, hormônios, alimentação, vitaminas, medicamentos e doenças de todos os tipos. A ideia de que mais informação levaria automaticamente a uma população mais saudável, porém, não se confirma na prática. Parte do tempo da consulta tem sido usada para recolocar o conteúdo no lugar certo: o contexto de cada pessoa.
Isso acontece porque a medicina trabalha com probabilidade, dúvida e revisão constante, enquanto as redes sociais tendem a premiar certezas e frases categóricas. Como resultado, recomendações que deveriam vir acompanhadas de “depende” ou “quando indicado” circulam como se fossem soluções universais.
Quando uma meia verdade vira promessa
Um exemplo comum é a creatina. O suplemento é bastante estudado, tem benefícios reconhecidos em situações específicas e um perfil de segurança conhecido quando usado de forma adequada. Ainda assim, isso não significa que todos precisem tomar. “É muito diferente dizer que existe benefício em determinados casos e concluir que todo mundo precisa usar”, explica Helito.
O mesmo raciocínio vale para vitaminas e minerais. Deficiências devem ser tratadas, mas suplementar sem necessidade pode trazer problemas e não garante melhora de sintomas inespecíficos. A correção de vitamina D baixa pode ser necessária em alguns pacientes; já doses elevadas sem indicação não significam, automaticamente, mais proteção. Ferro é essencial quando há deficiência, mas o uso indiscriminado pode ser inadequado.
Entre as recomendações que mais preocupam, o médico destaca o uso de gotas de iodo para “acelerar o metabolismo”, aumentar disposição ou “melhorar a tireoide” sem comprovação de deficiência. “O excesso de iodo pode provocar alterações justamente na glândula que se pretende proteger”, afirma.
Outra promessa frequente envolve versões chamadas de “sal saudável”, como sal rosa, marinho ou “integral”, vendidas com a ideia de que poderiam ser consumidas com mais liberdade. Na prática, o ponto principal para a saúde cardiovascular permanece o mesmo: a quantidade. Independentemente da origem, o componente predominante continua sendo o cloreto de sódio, e o excesso está associado a aumento da pressão arterial e do risco cardiovascular.
Também entram nessa lógica a retirada indiscriminada do glúten por quem não tem doença celíaca ou outra indicação clínica, o uso de hormônios como atalho para rejuvenescimento e a profusão de suplementos com promessas amplas — de “turbinar” imunidade e memória a melhorar sono, músculos e longevidade. O padrão, segundo Helito, costuma se repetir: uma evidência limitada é ampliada até virar uma promessa que a ciência nunca fez.

O algoritmo reforça certezas
Além do volume de conteúdo, há um fator novo: o algoritmo. Quem assiste a um vídeo relacionando um sintoma à falta de determinada vitamina tende a receber outros semelhantes. Com o tempo, a hipótese apresentada passa a parecer certeza — mesmo quando existem muitas outras explicações possíveis.
Na prática, sintomas comuns, como cansaço, podem ter dezenas de causas. Uma alteração em exame pode ser importante para uma pessoa e pouco relevante para outra. E um medicamento que funciona muito bem para um paciente pode ser inadequado para outro. “Medicina não funciona com soluções simples para todo mundo”, resume o especialista.
Como avaliar dicas de saúde antes de seguir
Buscar informação, por si só, não é o problema. Um paciente bem-informado tende a participar melhor das decisões e a fazer perguntas mais objetivas. O desafio é aprender a filtrar e checar o que aparece na tela — especialmente quando o conteúdo parece “científico”.
Na avaliação do médico, algumas perguntas ajudam a reduzir o risco de cair em orientações fora de contexto:
- · Quem está fazendo a afirmação? É um profissional qualificado na área?
- · Existe evidência científica consistente? Ou é apenas relato individual?
- · Há consenso entre especialistas? Ou é uma opinião isolada?
- · Existe interesse comercial? Estão vendendo produto, curso ou “protocolo”?
- · Serve para todo mundo? Ou depende de diagnóstico, exames e histórico?
- · Quais são os riscos? Eles estão sendo mencionados com clareza?
Depois de décadas tentando ampliar o acesso à informação médica, o desafio agora é ensinar a navegar com segurança por um volume praticamente infinito de conteúdos. “Informação é fundamental, mas informação sem contexto pode virar desinformação”, destaca Helito.


