Coleta de lixo expõe trabalhadores a riscos que vão além das ruas

Acidentes fatais e episódios de violência em diferentes cidades revelam os riscos enfrentados diariamente por trabalhadores responsáveis pela coleta de resíduos.

Saulo Astini
Saulo Astini
Radialista, cinegrafista, editor audiovisual, YouTube manager e estrategista digital, com experiência em distribuição digital, streaming, produção de conteúdo e jornalista. Participação em produções e transmissões ao vivo broadcast. Atuei na direção de imagem e fotografia de produções musicais. Formação técnica em Cinema, Fotografia, Administração e Gestão de Pessoas, além de certificações em Marketing Digital, Jornalismo Digital pela Reuters Digital Journalism, Literacia em Inteligência Artificial e gestão Google Business.

A coleta de lixo é um serviço essencial para o funcionamento das cidades, mas também coloca trabalhadores diariamente diante de situações de risco. Em poucos dias, ocorrências registradas em diferentes regiões do Brasil expuseram uma realidade que muitas vezes passa despercebida: por trás de cada caminhão que percorre as ruas existe uma equipe submetida a acidentes, trânsito, condições climáticas adversas e, em alguns casos, violência.

Em Jundiaí, no interior de São Paulo, um coletor de apenas 19 anos morreu depois de cair de um caminhão durante o serviço e ser atropelado pelo próprio veículo. O acidente foi registrado por uma câmera de monitoramento.

Já em João Pessoa, um trabalhador que atuava na coleta de resíduos foi agredido enquanto a equipe realizava o serviço na região de Mandacaru. O homem precisou ser encaminhado ao Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena. Até a última atualização, as circunstâncias da agressão ainda estavam sendo investigadas.

Os episódios, embora tenham ocorrido em contextos diferentes, colocam em evidência a vulnerabilidade de uma categoria que trabalha diariamente em contato direto com ruas, veículos, resíduos e diferentes situações urbanas.

O risco começa no próprio movimento da coleta

O trabalho de um coletor exige deslocamento constante. Durante uma única jornada, os profissionais podem precisar subir e descer repetidamente do caminhão, caminhar pelas vias públicas e transportar sacos e outros materiais até o veículo.

Em Jundiaí, essa dinâmica terminou em uma tragédia. Conforme as informações apuradas sobre o acidente, o caminhão trafegava de ré em uma rua íngreme e molhada pela chuva quando o trabalhador perdeu o equilíbrio ao subir no veículo.

A motorista não teria percebido a queda e continuou a manobra. Um colega percebeu o acidente e alertou a condutora, mas o jovem não resistiu aos ferimentos. A área foi isolada para a realização da perícia, enquanto as circunstâncias da ocorrência passaram a ser investigadas.

O caso demonstra como uma tarefa aparentemente rotineira pode se transformar em uma ocorrência fatal em questão de segundos.

Chuva, trânsito e condições das ruas aumentam a exposição dos coletores

Além do movimento do caminhão, fatores externos também podem aumentar os riscos. Ruas inclinadas, piso molhado, baixa visibilidade e circulação de outros veículos fazem parte do ambiente em que os profissionais executam suas atividades.

Nesse sentido, a coleta de resíduos não acontece em um ambiente controlado. Ao contrário de atividades realizadas em locais delimitados, os trabalhadores estão permanentemente expostos às condições encontradas nas vias públicas.

Violência também faz parte da realidade de alguns trabalhadores

Os riscos não se restringem aos acidentes de trabalho.

Em João Pessoa, um funcionário que participava de uma equipe de coleta foi agredido por um grupo de homens na região de Mandacaru. De acordo com as informações preliminares, colegas perceberam a situação e acionaram policiais militares que estavam nas proximidades.

O trabalhador foi socorrido e levado ao Hospital de Trauma. Até a atualização disponível, não havia boletim médico oficial detalhando a gravidade dos ferimentos ou o diagnóstico.

A dinâmica da agressão ainda precisava ser esclarecida pelas autoridades. Também não havia confirmação pública de prisão dos suspeitos.

O trabalhador fica exposto ao ambiente urbano

A ocorrência evidencia outro aspecto da profissão: o coletor precisa entrar em diferentes ruas e regiões para cumprir uma atividade essencial à população.

Por consequência, esses profissionais podem se deparar com conflitos locais, áreas de difícil acesso, trânsito intenso e situações de insegurança. Entretanto, mesmo diante dessas circunstâncias, a coleta precisa continuar sendo realizada para evitar o acúmulo de resíduos nas cidades.

Um serviço essencial que costuma ser invisível

Apesar dos riscos, o trabalho dos coletores frequentemente só chama atenção quando ocorre uma tragédia.

Todos os dias, equipes percorrem bairros antes mesmo de grande parte da população iniciar a rotina. Enquanto isso, os trabalhadores recolhem toneladas de resíduos, sob diferentes condições de temperatura, chuva, trânsito e pressão operacional.

Além disso, o contato direto com resíduos pode representar outros tipos de perigo, principalmente quando materiais cortantes, produtos químicos ou objetos inadequadamente descartados estão misturados ao lixo comum.

Dessa forma, a segurança desses profissionais depende não apenas das condições oferecidas pelas empresas e pelos órgãos responsáveis pela coleta, mas também do comportamento da população.

Descartar corretamente também é uma questão de segurança

Objetos como vidros quebrados, lâminas, seringas e outros materiais potencialmente perigosos não devem ser colocados de maneira inadequada junto ao lixo doméstico.

Quando isso acontece, o risco deixa de atingir somente quem produz ou manipula o resíduo e passa diretamente para quem fará a coleta.

Nesse sentido, a responsabilidade pela segurança também envolve atitudes simples da população, como acondicionar corretamente materiais cortantes e seguir as orientações locais para o descarte de resíduos especiais.

A rotina que não pode ser tratada como comum

Os casos de Jundiaí e João Pessoa mostram diferentes dimensões de uma mesma realidade: os trabalhadores da limpeza urbana exercem uma atividade indispensável em ambientes que apresentam riscos constantes.

No primeiro caso, um acidente durante a operação do caminhão terminou com a morte de um jovem de 19 anos. No segundo, um trabalhador precisou de atendimento hospitalar após sofrer uma agressão durante a jornada.

São situações distintas, portanto, mas que ajudam a dimensionar a vulnerabilidade de profissionais que precisam continuar trabalhando enquanto a cidade segue sua rotina.

Assim, mais do que observar o caminhão passando pelas ruas, é importante compreender o trabalho realizado por quem está na parte mais exposta dessa operação.

A coleta de lixo mantém as cidades funcionando. No entanto, para que esse serviço seja realizado, milhares de trabalhadores enfrentam diariamente riscos que vão muito além do simples ato de recolher resíduos.

David Serafim: uma vida interrompida durante o trabalho

Outro caso trágico reforça os riscos enfrentados pelos coletores. David Serafim, de 40 anos, morreu em agosto de 2026, em Matão, no interior de São Paulo, após ser atropelado pelo caminhão de coleta durante o trabalho. O acidente aconteceu enquanto a equipe realizava o serviço. As circunstâncias da ocorrência passaram a ser investigadas pelas autoridades.

David era conhecido pela dedicação à profissão e compartilhava nas redes sociais registros da rotina dos coletores. Meses antes da morte, ele também havia sido atacado por um cachorro durante uma coleta.

A morte do trabalhador deixa, portanto, um alerta sobre uma profissão essencial, mas marcada por riscos diários. Entre caminhões, trânsito, resíduos, animais e situações de violência, os coletores seguem trabalhando para manter as cidades limpas — muitas vezes colocando a própria vida em risco.

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