A preparação para a Marcha das Margaridas de 2027 já começou na Paraíba, estado onde nasceu a líder sindical que deu nome a uma das principais mobilizações nacionais de mulheres do campo. Centenas de trabalhadoras rurais de diferentes municípios participaram, em Alagoa Grande, de uma caminhada que marcou o início da organização para a próxima edição e colocou novamente no centro do debate os impactos da expansão dos parques eólicos sobre comunidades rurais.
A mobilização saiu da casa onde viveu Margarida Maria Alves e seguiu até o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Alagoa Grande, no Brejo paraibano.
Além de reivindicações históricas relacionadas ao acesso à terra, água, educação, previdência e direitos das mulheres do campo, a implantação de empreendimentos de energia renovável em territórios rurais aparece atualmente entre as principais discussões do movimento na Paraíba.
O tema ganhou peso também no Legislativo estadual. Um projeto aprovado pela Assembleia Legislativa estabelece distância mínima de 1,5 quilômetro entre novos aerogeradores e edificações como residências, escolas, unidades de saúde e igrejas. Até a última atualização pública localizada, porém, a proposta ainda aguardava sanção do Governo da Paraíba.
Mobilização começa onde nasceu Margarida
A escolha de Alagoa Grande para iniciar a preparação tem caráter histórico.
Margarida Maria Alves foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município e atuou na defesa de direitos trabalhistas e sociais de trabalhadores do campo. Ela foi assassinada em 12 de agosto de 1983, aos 50 anos, e sua trajetória se tornou referência nacional para movimentos de mulheres rurais.
A primeira Marcha das Margaridas foi realizada em Brasília em 2000, reunindo cerca de 20 mil mulheres. Desde então, a mobilização passou a ser organizada periodicamente com participação de trabalhadoras do campo, das florestas e das águas de diferentes regiões do país.
O nome da marcha é uma homenagem à sindicalista paraibana.
A edição de 2027 será a próxima mobilização nacional e já começa a ter sua pauta construída nos estados.
Parques eólicos entram na agenda das mulheres rurais
Na Paraíba, a expansão da energia eólica passou a ocupar espaço crescente nas mobilizações de organizações ligadas à agricultura familiar.
Segundo agricultoras ouvidas pela reportagem da Marco Zero/Giro19, integrantes de comunidades do Brejo e da Borborema passaram a acompanhar com maior atenção a chegada de empreendimentos eólicos a partir da instalação de equipamentos para medição dos ventos em áreas rurais.
Representantes desses movimentos relatam problemas como ruído, alterações na rotina das famílias, impactos sobre atividades produtivas e conflitos relacionados à ocupação dos territórios.
Essas declarações representam a avaliação das comunidades e organizações envolvidas na mobilização. A intensidade e a relação entre a proximidade de aerogeradores e diferentes efeitos sobre a saúde e o ambiente são objeto de estudos, licenciamentos e debate técnico.
O Ministério Público Federal na Paraíba também entrou na discussão. Em julho, o órgão encaminhou uma nota técnica ao Governo do Estado defendendo a sanção integral de uma proposta que cria distância mínima entre aerogeradores e áreas ocupadas. O MPF afirmou ter considerado evidências científicas sobre exposição a ruídos, vibrações e outros impactos associados à proximidade dos equipamentos.
Projeto prevê distância mínima de 1,5 km
O Projeto de Lei nº 2.061/2024, de autoria da deputada estadual Cida Ramos, foi aprovado pela Assembleia Legislativa em 18 de junho.
A versão encaminhada ao Governo por meio do Autógrafo nº 2.388/2026 estabelece que novos aerogeradores devem manter distância mínima de 1.500 metros de edificações de uso público, coletivo ou privado.
Isso inclui, por exemplo:
- residências;
- escolas;
- unidades de saúde;
- igrejas;
- estabelecimentos comerciais;
- outras edificações abrangidas pelo texto.
Há uma diferença em relação à proposta discutida inicialmente na Assembleia. O projeto original previa 2 quilômetros de afastamento, distância ainda mencionada pela própria ALPB durante audiência pública realizada em 2025 e em publicação sobre a aprovação em junho. O texto final encaminhado ao Executivo, entretanto, estabelece 1,5 quilômetro, conforme confirmado posteriormente pelo MPF e pelas organizações que acompanham a tramitação.
Até a reportagem publicada pela Marco Zero no sábado (26), a proposta ainda não havia sido sancionada.
MPF também defendeu aprovação da regra
A discussão deixou de ficar restrita aos movimentos sociais.
Em nota técnica enviada ao Governo da Paraíba, o MPF defendeu a distância mínima de 1,5 km e argumentou que a expansão da energia eólica precisa considerar, além da geração de energia, os efeitos sobre as populações instaladas próximas aos empreendimentos.
Movimentos ligados à agricultura familiar também realizaram, em agosto, um ato em João Pessoa cobrando a sanção integral do projeto.
As entidades afirmam que não são contrárias à produção de energia renovável, mas defendem mudanças na forma de instalação dos empreendimentos eólicos e maior proteção às comunidades rurais.
Paraíba tem 42 parques eólicos em operação
O debate ocorre enquanto a geração eólica avança no estado.
Dados divulgados pelo próprio Governo da Paraíba, com base no Atlas Eólico estadual e em informações da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), apontam 42 parques eólicos em operação, somando aproximadamente 1,1 gigawatt de capacidade instalada.
O mesmo levantamento indicava 22 parques em construção, com 615,9 MW, além de outros 40 empreendimentos cuja construção ainda seria iniciada.
A geração renovável também representa investimentos e ampliação da capacidade energética. Um dos principais exemplos é o complexo instalado nos municípios de Santa Luzia, Areia de Baraúnas, São José do Sabugi e São Mamede, que integra geração eólica e solar e recebeu investimento estimado em R$ 3 bilhões.
É nesse cenário que se estabelece a disputa em torno das regras: de um lado, a expansão de uma fonte renovável de geração elétrica; de outro, reivindicações de moradores e movimentos sociais por critérios de distância, participação das comunidades e redução de impactos locais.
Marcha deve levar pautas estaduais para discussão nacional
A organização da Marcha das Margaridas ocorre de forma descentralizada. Demandas levantadas nos estados ajudam a formar a plataforma política levada posteriormente à mobilização nacional.
Historicamente, a marcha reúne reivindicações relacionadas a agricultura familiar, reforma agrária, combate à violência contra as mulheres, igualdade, autonomia econômica, saúde, educação e proteção dos territórios.
Na Paraíba, o debate sobre energia renovável passou a integrar essa agenda.
A relação é especialmente simbólica porque a mobilização nacional carrega o nome de uma paraibana e agora inicia parte de sua preparação justamente em Alagoa Grande, onde Margarida Maria Alves construiu sua atuação sindical e foi assassinada há mais de quatro décadas.
Para as organizações rurais envolvidas, a discussão que deverá chegar a 2027 não é sobre abandonar fontes renováveis de energia, mas sobre quais regras devem orientar a instalação dos empreendimentos e como as comunidades que vivem nos territórios participarão das decisões.


