A realização de uma festa com temática adulta, classificada como erótica e fetichista, na sede da Associação dos Artistas Teatrais da Região de Araçatuba (Associata), instalada em um prédio público cedido pelo município, gerou forte indignação na classe política e na sociedade local. O evento “Sangria Profana”, promovido na Sexta-Feira Santa (3 de abril), motivou o prefeito Lucas Zanatta (PL) a anunciar, nesta segunda-feira (6), a retomada imediata do imóvel pelo município, além de gerar questionamentos no Ministério Público e na Câmara Municipal.
O que mais provocou reações negativas foi a escolha da data, a Sexta-Feira Santa, momento central do calendário cristão, que relembra a crucificação e morte de Jesus Cristo, e o uso de elementos simbólicos do cristianismo de forma classificada como jocosa durante a festa, o que foi considerado por muitos como um profundo desrespeito à fé alheia.
A Associata funciona em uma das casas da Vila Ferroviária, na rua XV de Novembro, espaço que havia sido cedido pela Prefeitura de Araçatuba em 2023, durante a gestão anterior, para fins culturais.
Retomada do prédio
O prefeito Lucas Zanatta (PL) utilizou suas redes sociais, nesta segunda-feira (6), para manifestar sua indignação e anunciar a retomada do espaço. O chefe do Executivo afirmou ter tomado ciência da realização do evento “horrível” e, após consultar os secretários jurídico, de Administração e Governo, além da Procuradoria Municipal, decidiu pela retomada do prédio.
“Decidimos que vamos retomar o prédio, um imóvel público que foi cedido à Associação de Artistas em 2023, na gestão passada, com a finalidade de promover a arte da cidade, não o que nós vimos na sexta-feira”, declarou Zanatta.
O prefeito justificou a decisão com base na defesa dos valores locais. “Isso fere a moralidade, fere as famílias, fere os valores de Araçatuba. Estamos tomando as medidas cabíveis, que é retomar o imóvel. Nós estamos sempre prezando pela liberdade de todos e para que todos tenham espaço, mas há limites e limites foram ultrapassados”, prosseguiu.
Câmara Municipal e Ministério Público
A indignação se estendeu ao Legislativo Municipal. O vereador Fernando Fabris (PL) protocolou uma representação no Ministério Público pedindo a instauração de um procedimento investigatório. O documento aponta possíveis irregularidades na utilização do bem público, sugerindo desvio de finalidade em afronta aos princípios da legalidade, moralidade e interesse público.
A representação de Fabris levanta, ainda, a hipótese de crimes como peculato-desvio (art. 312 do Código Penal) e prática de atos obscenos em local público (art. 233 do Código Penal), solicitando a apuração sobre o consumo de bebidas alcoólicas e eventual uso de substâncias ilícitas no local.
Outros parlamentares endossaram as críticas. Ícaro Morales (MDB) questionou os limites da liberdade de expressão frente à intolerância religiosa. Em suas redes sociais, o vereador afirmou ter se sentido atingido como cristão ao ver “Jesus como um cabo de chicote”, classificando o ato como um profundo desrespeito.
João Pedro Pugina (PL) traçou um paralelo com um episódio anterior, no qual foi denunciado ao Ministério Público por realizar uma oração em um espaço escolar. “Será que o mesmo critério adotado nas escolas será aplicado aos prédios públicos? Ou está liberado ofender e vilipendiar a fé cristã? Estamos diante de um caso de justiça seletiva?”, indagou o vereador, pedindo respostas e medidas cabíveis.
A presidente da Câmara de Araçatuba, vereadora Edna Flor (Podemos) também se manifestou. “Respeito à fé não é favor. É princípio básico de convivência, de democracia e de humanidade. O que aconteceu nesse evento realizado em espaço público não pode ser tratado com normalidade. Quando a fé cristã é alvo de deboche, vilipêndio e ofensa, não estamos falando apenas de opinião, mas de desrespeito a milhões de pessoas que encontram na sua crença força para viver, superar dores e construir o bem”, afirmou, em suas redes sociais.
Critérios
O presidente municipal do PSOL, professor Matheus Lemes, que havia denunciado o vereador João Pedro Pugina por possíveis práticas religiosas em uma escola da cidade, também criticou a festa realizada pela Associata. “Da mesma forma que a imposição de determinada religião por meio de cultos em instituições de ensino é passível de investigação, a utilização de um espaço público para a realização de eventos que ofendam a fé de qualquer grupo religioso configura um equívoco de igual gravidade”.
Para ele, a festa ultrapassou a finalidade para a qual um espaço público deve ser destinado, especialmente quando envolve desrespeito a manifestações de fé. Ele, no entanto, frisou a relevância do Centro Cultural Associata e sugeriu que Câmara e Prefeitura apurem os fatos e adotem medidas cabíveis, estabelecendo critérios mais claros para a utilização de espaços públicos, “sempre pautados na liberdade de expressão, mas também no respeito, na responsabilidade e no bom senso”.
Requerimento de informações
Além da representação no MP, um grupo de nove vereadores protocolou um requerimento de informações na Câmara Municipal. O documento questiona a Prefeitura sobre a existência de processo administrativo autorizando a festa, a justificativa de interesse público para o evento, a possível cobrança de taxas e a identidade dos organizadores e órgãos responsáveis pela fiscalização.
O requerimento é assinado pelos vereadores Fernando Fabris, João Pedro Pugina, Rodrigo Atayde (PRTB), Hideto Honda (PSD), Arlindo Araújo (Solidariedade), Sol do Autismo (PL) e Carlinhos do Terceiro (Republicanos).
Outro lado
O presidente da Associata, Caíque Teruel, foi procurado e enviou a seguinte nota sobre o ocorrido:
“O Centro Cultural Associata vem a público esclarecer e reafirmar a importância do uso de seu espaço como equipamento público dedicado à promoção da cultura, da convivência e do acesso democrático às artes. Desde sua inauguração, já foram atendidas mais de 10 mil pessoas, com a realização de cerca de 900 eventos, entre cursos, oficinas, ensaios, apresentações culturais, dentre outras ações.
O Centro Cultural Associata foi concebido como um ambiente plural, aberto à diversidade de expressões culturais, sociais e artísticas, respeitando os princípios de inclusão, diálogo, participação da comunidade e do interesse público.
Diante de questionamentos recentes, destacamos que o uso do espaço está alinhado com sua função social e com o compromisso de fomentar iniciativas que contribuam para o desenvolvimento cultural e cidadão, de forma plural e democrática. Sendo assim, expressamos, publicamente, nossas mais singelas desculpas a parcela da sociedade que foi impactada negativamente pela ação ocorrida.
Embora entendamos que o evento realizado na última sexta-feira tenha gerado indignação, é triste, que, em 2026, agentes políticos façam uso da desinformação para obter engajamento em suas redes sociais, em uma tentativa de garantir capital político oriundo de fake news e mentiras. Há um tempo para ficar calado, entender o que houve e um tempo para falar.
Acusar o Espaço Cultural de uma festa satanista em um vídeo repleto de efeitos visuais e frases de efeito é um sintoma claro de politicagem barata e feita apenas para mexer com a emoção de seus seguidores. O que poderia ser uma pauta seria de debate, se tornou um circo de horrores usado, ao final, como tentativa, para tomar o prédio do Centro Cultural Associata, que como dito, é realizado tantas atividades benéficas para a sociedade.
A prefeitura do município corrobora tais práticas ao tomar atitudes precipitadas e mal apuradas. Trata-se de um triste momento da política araçatubense.
O Estado é laico e a desinformação é crime.
Reforçamos nosso compromisso com a transparência, o respeito à comunidade e a valorização da cultura como direito fundamental. E, parafraseando o poeta Mario Quintana: “Eles passarão; nós, a cultura e o povo de Araçatuba, passarinho.”
Seguimos à disposição para diálogo e esclarecimentos.
Vamos todos defender o Centro Cultural Associata.”


