Quer uma boa indicação para leitura? Leia “O idiota”, de Dostoiévski! A obra da literatura russa publicada pela Editora Martin Claret, com a tradução de José Geraldo Vieira, possui linguagem coloquial, fazendo com que a leitura seja
agradável e fluida. São quase mil páginas de um romance surpreendente. Nele o autor revela as belezas e as mazelas da sociedade russa do século XIX.
Dostoiévski pode ser considerado o principal representante do realismo (corrente literária) russo do século XIX, marcante pela exploração psicológica dos seus personagens e pela retratação da miséria social. Nesse romance
ele aborda temas como fé, niilismo, ateísmo, bem, mal, amor, traição, ódio etc.
O protagonista no romance é o príncipe Liév N. Míchkin, o último descendente de uma família nobre, mas pobre, que volta para a Rússia da Suíça, onde se tratou de uma doença por vários anos. A obra atrai e prende o leitor com vários
personagens que se entrelaçam em tramas diversas.
O espírito idealista do personagem Liév lembra Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, porém, sem espada, escudo ou cavalo. O príncipe Liév é considerado um idiota pela sociedade russa de São Petersburgo, por ser bom, verdadeiro e empático.
No decorrer do romance, de pobre ele se torna rico, ao receber uma herança. E quando se tem dinheiro, “abutres aparecem”. A postura ética e sincera do príncipe Liév é notável, contagiando para, e com o bem, até os personagens
malévolos, seus inimigos.
A fé é objeto de discussão no romance: Liév tem viés cético e questionador do catolicismo, sendo mais adepto ao ateísmo (pg. 881). Dostoiévski, autor do romance, era cristão ortodoxo.
O narrador do romance é onisciente. A filosofia tem altos momentos na obra, em especial nas páginas 896/897, onde existem falas do personagem protagonista, Liév, como: “…Ao meu ver, às vezes, ser absurdo não deixa de ser bom … Para atingirmos a perfeição, devemos começar por uma grande ignorância bem difusa! Tudo que é compreendido depressa carece de compreensão eficiente …”.
A relação psicológica entre os personagens é extraordinária, fruto da genialidade do autor. Este costuma deixar aberto ao leitor para decidir sobre os temas polêmicos de suas obras.
O idiota é um romance polifônico, ou seja, de pluralidades de vozes, com longos discursos dos personagens. Dostoiévski fala “dele mesmo” num trecho da obra (pg. 107), ao se referir a uma pessoa condenada à morte por fuzilamento, cuja pena foi convertida em degredo (exílio), pouco antes da sua execução (isso ocorreu com Dostoiévski, que foi condenado à morte em 1849, por criticar o governo czarista e a servidão na Rússia).
O protagonista do romance, Liév, com o seu modo de agir e pensar, faz o leitor lembrar de Jesus Cristo, por ser essencialmente bom, grato e sincero, mesmo diante de ataques, conspirações e insultos dos inimigos.
O final da trama é surpreendente, a exemplo de outros romances de Dostoiévski, como Crime e Castigo e Os
Irmãos Karamazov. Se já vale a pena ler, pela leitura, em si, mais, ainda, tratando-se de um clássico literário. Fica, pois, a dica!



