Com a captura neste sábado (3) do ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, e o ataque sem precedentes dos Estados Unidos contra o país, o governo Donald Trump abriu um novo capítulo na história das intervenções de Washington na América Latina. Mesmo com o sucesso da operação, entretanto, a decisão de Trump de agir e sua declaração de que os EUA vão governar a Venezuela suscitam mais perguntas do que respostas e deixam várias pontas soltas sobre o futuro do país vizinho.
Como justificativa para o ataque, que deve ser questionado na Justiça dos EUA e no Congresso, o governo Trump apresentou uma série de racionalizações diferentes. O secretário de Estado, Marco Rubio, frisou o fato de que Washington e vários outros países consideravam Maduro um governante ilegítimo, tendo fraudado as eleições presidenciais de 2024.
Ao mesmo tempo, o chefe da diplomacia americana disse que a operação do sábado não foi um ato de guerra, dispensando, assim, a necessidade de que a Casa Branca consultasse o Congresso. Tampouco teria sido um ataque com o objetivo principal de derrubar o regime chavista. “Tratou-se, essencialmente, de uma ação para prender dois fugitivos da Justiça americana, e o departamento de Guerra apoiou o departamento de Justiça nessa tarefa”, disse Rubio.
Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram indiciados em Nova York pelo governo Trump por crimes como narcoterrorismo e tráfico, reforçando a retórica de guerras às drogas que vinha balizando os ataques americanos contra embarcações no Caribe até aqui. Afirmando ter como alvo barcos que levavam cocaína aos EUA, os americanos mataram mais de 100 pessoas em bombardeios ao longo de quatro meses.
Mas a motivação é frágil: a Venezuela não é um grande produtor de cocaína, e as rotas de tráfico que passam pelo país costumam ter como destino portos europeus, não americanos. O envolvimento direto de Maduro com narcotraficantes também carece de evidências concretas e o chamado “cartel dos sóis” citado por Trump e seu governo como sendo comandado pelo ditador não é uma organização real.
“Se o objetivo principal fosse combater o tráfico de drogas, a Guarda Costeira dos EUA é muito competente nisso, mas os recursos necessários não foram mobilizados”, diz Douglas Farah, presidente da IBI Consultants, uma empresa de pesquisa em segurança com sede em Washington. “Mas o que Trump deixou claro ontem é que ele quer petróleo. E, se esse for o objetivo, realmente não há outra maneira de obtê-lo senão fazendo o que ele fez.”
A Venezuela possui as maiores reservas do mundo, superando até mesmo a Arábia Saudita. Trump já disse que Caracas teria “roubado” petróleo que pertenceria a Washington, outro argumento pouco desenvolvido que parece estar relacionado a investimentos feitos por petroleiras americanas na Venezuela. Segundo Trump, essas empresas agora devem assumir o controle da indústria petrolífera do país.
“Mas isso é extremamente difícil”, prossegue Farah. “Seriam necessários bilhões de dólares e pelo menos uma década para tornar as instalações petrolíferas da Venezuela operacionais novamente. O petróleo venezuelano é extremamente pesado e difícil de processar, e não há escassez de petróleo no mercado global neste momento. Então, mesmo sob esse ponto de vista, a justificativa não se sustenta.”
Para controlar o petróleo venezuelano, o republicano pretende que Washington governe o país, mas não deu detalhes sobre como isso aconteceria. Ele mencionou a possibilidade de uma ocupação militar direta, aos moldes de como os EUA administraram o Iraque depois de derrubar Saddam Hussein uma experiência amplamente considerada um fracasso.
Outro cenário foi aventado por Rubio, que disse estar em contato com Delcy Rodríguez, vice de Maduro que aparentemente consolidou o poder na Venezuela neste domingo (4), o Exército venezuelano disse reconhecê-la como presidente interina. Segundo o secretário de Estado, Washington está disposto a trabalhar com os líderes venezuelanos que permanecem no controle do país, desde que tomem “boas decisões”.
Nesse caso, os EUA tolerariam chavistas no poder desde que submissos a Washington, arranjo que lembraria os protetorados do século 19 e que descarta por completo a instalação de líderes opositores mais simpáticos aos americanos. O próprio Trump sinalizou isso quando disse no sábado que María Corina Machado, principal nome antichavista hoje, não tem o apoio ou o respeito do povo.
Por enquanto, Delcy não demonstrou estar aberta a cooperar com o país invasor. Em pronunciamento, a vice de Maduro exigiu sua libertação imediata e disse que a Venezuela “jamais será colônia”.
Por fim, a natureza da ação que capturou Maduro também está pouco clara e suscita questionamentos sobre a posição das Forças Armadas venezuelanas na crise. Segundo os EUA, nenhum soldado americano foi ferido na operação, que envolveu bombardeios a bases militares e helicópteros sobrevoando pontos críticos de Caracas. A imprensa americana fala em pelo menos 40 venezuelanos mortos.
Na hipótese, ainda sem evidências concretas, de que a captura de Maduro foi tolerada pelos militares, resta saber se houve negociações nos bastidores para que a cúpula do chavismo permanecesse intacta após a ação ou se os generais venezuelanos calcularam que a maneira mais segura de manter sua influência seria abrir mão do próprio comandante em chefe.
“É possível que a própria Delcy Rodríguez estivesse negociando uma transição política com os EUA”, diz Carolina da Silva Pedroso, professora de Relações Internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e especialista em Venezuela. “Ela é uma figura muito poderosa, e existem vários elementos que corroboram para a possibilidade de uma traição contra Maduro.”
VICTOR LACOMBE E ISABELLA MENON / Folhapress



