A desinformação não nasceu com o WhatsApp nem com o Facebook. Ela acompanha a história humana há séculos, mudando de forma conforme a tecnologia disponível em cada época.
No século VI, o historiador bizantino Procópio escreveu um texto chamado “Anedokta” com o único propósito de destruir a reputação do imperador Justiniano. No século VIII, surgiu a chamada Doação de Constantino, um documento forjado que atribuía ao imperador romano a transferência de poder sobre Roma ao Papa, farsa que só foi desmascarada séculos depois. Às vésperas da Revolução Francesa, panfletos com informações contraditórias circulavam por Paris para atacar a credibilidade do governo. No Brasil, a Revolta da Vacina, no início do século XX, também foi alimentada por boatos e informações distorcidas sobre a vacinação obrigatória.
Já nos anos 1980, em plena Guerra Fria, a KGB soviética promoveu uma das campanhas de desinformação mais eficientes já registradas, espalhando a falsa informação de que o vírus da Aids havia sido criado em laboratórios americanos. A história começou em um veículo obscuro na Índia e ganhou força quando cientistas da Alemanha Oriental deram a ela verniz científico. Levou anos para ser desmentida, e ainda hoje sobrevive em versões atualizadas.
O que mudou, portanto, não foi a existência da mentira organizada, mas a velocidade com que ela se espalha. Antes, uma notícia falsa levava meses ou anos para atravessar fronteiras. Hoje, basta um clique. As redes sociais encurtaram distâncias e, ao mesmo tempo, tornaram cada usuário um potencial multiplicador de conteúdo que nunca checou.
O Brasil já viveu um episódio trágico que mostra bem esse poder de destruição. Em 2014, um boato espalhado numa página de Facebook em Guarujá, no litoral paulista, alertava sobre uma suposta sequestradora de crianças para rituais de magia negra e trazia um retrato falado da criminosa. Moradores confundiram a dona de casa Fabiane Maria de Jesus com a imagem divulgada e a espancaram até a morte, mesmo sem qualquer prova de que ela tivesse relação com os supostos sequestros, que a própria polícia nunca confirmou ter acontecido. O retrato falado, descobriu-se depois, nem sequer era de Guarujá, tinha sido feito anos antes pela polícia do Rio de Janeiro para outro caso. Uma informação falsa, compartilhada sem verificação, custou a vida de uma mulher inocente.
Esse cenário se torna mais delicado em anos eleitorais. Levantamento da Agência Lupa mostrou que a proporção de conteúdos de desinformação produzidos com apoio de inteligência artificial no Brasil saltou de 4,65% em 2024 para 25,77% em 2025, e cerca de 45% desse material tem viés político, muitas vezes combinando vídeos manipulados com textos que reforçam a mentira. São peças cada vez mais sofisticadas, difíceis de identificar a olho nu, feitas para circular dentro de bolhas que já pensam de um jeito só e reforçam aquilo em que já acreditam.
Diante desse quadro, o Tribunal Superior Eleitoral tem reforçado parcerias com as principais plataformas digitais. Os acordos preveem canais de denúncia, divulgação de informações oficiais e medidas para conter conteúdos falsos durante a campanha, com vigência a partir de 16 de agosto, início oficial do período eleitoral. O tribunal também lançou a websérie “V de Verdade”, voltada a ensinar o eleitor a diferenciar notícias falsas de informações verídicas por meio de passos didáticos.
Para não cair nessas armadilhas, alguns cuidados simples fazem diferença. Antes de acreditar ou compartilhar qualquer conteúdo, vale a pena parar e observar alguns pontos.
- Verifique quem publicou a informação e se o veículo tem histórico de apuração reconhecido, e não apenas uma página anônima ou um perfil sem identificação.
- Desconfie de manchetes com forte apelo emocional, cheias de exclamações ou que pedem compartilhamento imediato “antes que apaguem”.
- Procure a mesma informação em outros veículos de imprensa. Se nenhum órgão sério estiver noticiando o fato, é sinal de alerta.
- Preste atenção à data das imagens e vídeos. Muitas fake news reaproveitam material antigo, tirado de contexto, para ilustrar um fato atual.
- Recorra a agências de checagem como Aos Fatos, Agência Lupa e Comprova, que já verificaram boa parte dos boatos que circulam nas redes.
- Fique atento às suas próprias bolhas. Se um conteúdo confirma exatamente aquilo que você já pensa, sem trazer nenhum contraponto, o cuidado deve ser redobrado, não reduzido.
Nenhuma dessas parcerias institucionais, porém, substitui o papel do próprio eleitor. Com a votação marcada para o dia 4 de outubro, cabe a cada pessoa desconfiar de conteúdos sensacionalistas, verificar a fonte antes de compartilhar e buscar veículos de comunicação com histórico de apuração e responsabilidade editorial. Um print de rede social, um áudio sem identificação de quem fala ou uma manchete fora de contexto não substituem o trabalho de checagem que o jornalismo profissional ainda oferece.
A desinformação sempre existiu porque sempre houve interesse em manipular a opinião pública. A diferença, hoje, é que ela chega mais rápido, parece mais convincente e encontra terreno fértil em bolhas que já filtram o mundo antes mesmo de a notícia chegar. Cabe à sociedade reagir a essa velocidade com mais critério, não com mais pressa.

