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Afinal, com a chegada de 2020 se inicia também uma nova década?

Foto: Reprodução/Internet

É
natural que, com a aproximação do ano de 2020, os mais afoitos já
estejam montando
listas dos
principais fatos/séries/músicas “da década que está
terminando”. Tecnicamente, porém, só teremos o começo de uma
nova década em 2021, assim como o século 21 e o terceiro milênio
só começaram em 2001, e não em 2000.

A
culpa por essa estranheza matemática é de um monge que não sabia
usar o número zero. Dionísio Exíguo (470-544), religioso e erudito
da Europa Oriental que trabalhou em Roma durante boa parte de sua
carreira, foi o responsável por estabelecer o sistema de contagem de
anos a partir do nascimento de Cristo (inicialmente para calcular
a data
da Páscoa,
principal festa religiosa cristã, e não para estabelecer a época
de eventos históricos).

Em
seu sistema “anno Domini” (“no ano do Senhor”, em
latim), Dionísio estabeleceu o nascimento de Jesus como o ano 1, e
não o “ano zero”. Isso significa que uma década depois do
ano 1 só ficaria completa no ano 11; um século inteiro só teria
transcorrido no ano 101; e assim por diante.

É
claro que é injusto atribuir essa peculiaridade apenas ao monge: os
europeus daquele tempo ainda não tinham criado um tipo de aritmética
que incorporasse o zero como elemento independente ou indicador de
dezenas em números como 20 ou 50, por exemplo.

Quando
operações matemáticas exigiam algo parecido, o máximo que se
fazia era escrever palavras como “nulla” ou “nihil”
(“nada”, em latim), coisa que Dionísio já fazia.

O
uso do zero como o conhecemos hoje foi desenvolvido gradualmente por
matemáticos da Índia, alguns dos quais ativos durante a vida do
monge. O contato entre o Islã e a matemática indiana fez com que o
conhecimento sobre o tema fosse adotado e transmitido pelos árabes
durante a Idade Média, finalmente chegando à Europa por volta do
século 11. É por isso que os números que usamos hoje são
conhecidos como arábicos.

Um
dos possíveis introdutores da nova aritmética no Ocidente foi o
clérigo francês Gerbert de Aurillac (946-1003), que mais tarde se
tornou papa com o nome de Silvestre 2º. Nas Américas, os maias do
México e da América Central chegaram a usar um sistema parecido de
forma independente.

Séculos
mais tarde, pioneiros da astronomia como o alemão Johannes Kepler
(1571-1630) formularam contagens de anos que também tomavam o
nascimento de Jesus Cristo como ponto de partida, mas o consideravam
como “ano zero”, e não ano 1, o que elimina a estranheza
da datação convencional.

Esse
sistema, no entanto, só é usado para datar eventos astronômicos,
como eclipses ou conjunções de planetas, os quais, por sua vez,
podem ser úteis para determinar o tempo em que certos eventos
históricos ocorreram.

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Folha de São Paulo 

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