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Bebê doado em caixa de sapato vira juiz na Paraíba

Quando veio morar em Pernambuco, tinha 34 anos e já estava casado com Maria de Lurdes Ferreira, com quem teve três filhos, dois advogados e uma médica.

Quando veio morar em Pernambuco, tinha 34 anos e já estava casado com Maria de Lurdes Ferreira, com quem teve três filhos, dois advogados e uma médica. Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

Era
uma pequena caixa de sapato
. Dentro, havia um menino com poucos dias
de vida. A mãe segurava firme a acomodação improvisada e oferecia
a criança a quem passava. Aquele foi o último encontro entre ela e
o filho. No mesmo dia, o bebê foi entregue a uma desconhecida. A
doação aconteceu em uma praça, no centro de João Pessoa, na
Paraíba.

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Daquele dia em diante, o bebê recebeu abrigo, alimento,
educação e amor de uma outra família. José Fernando Souza gosta
de contar essa história em suas andanças. Ele é a criança da tal
caixa de sapato. Está hoje com 58 anos. Tornou-se juiz.
José
Fernando foi o único filho de uma dona de casa e de um policial
militar, hoje falecidos. Não teve fartura material em casa. Mas
lembra da dedicação e do carinho dos pais que lhe abrigaram. E isso
faz toda a diferença para qualquer criança, defende. O juiz costuma
ser chamado pelo Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE)para contar sua trajetória nas palestras do Programa Eleitor do
Futuro, uma iniciativa cujo objetivo é abordar junto a estudantes de
escolas públicas temas como a história do voto no Brasil, a
participação cidadã e a formação de um jovem crítico.

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Na
palestra, coloco a história da caixa de sapato como se não fosse a
minha história. Relato o caso de uma senhora que vem do interior da
Paraíba e vai morar na capital. Ela, muito pobre e sem o marido, que
tinha ido para São Paulo, engravidou de um homem casado. No final,
conto que eu sou a criança entregue para adoção
.”

 A
ideia de José Fernando é propagar o que ele chama de estímulo a
jovens sem muita perspectiva de futuro diante das dificuldades
impostas pela pobreza. “Se eu, que fui pego em uma caixa de sapato
na rua, consegui superar os obstáculos da vida e cheguei a juiz,
muitos jovens também conseguem se tiverem um objetivo. Tudo o que
meus pais me dedicaram foi fundamental. Mesmo pobres, oportunizaram
para mim tudo o que estava ao alcance deles. Sempre senti muito amor
deles.”

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Antes de tornar-se
juiz da Infância e Juventude de Caruaru, onde mora hoje, José
Fernando foi juiz da Vara da Fazenda, na mesma cidade, e analista
judiciário no Tribunal Regional do Trabalho da Paraíba. Quando veio
morar em Pernambuco, tinha 34 anos e já estava casado com Maria de
Lurdes Ferreira, com quem teve três filhos, dois advogados e uma
médica.
José Fernando não voltou a encontrar a mãe
biológica. Nunca sentiu vontade. Nem mesmo mágoa. “Como ter raiva
de alguém que não te matou, não te jogou no rio, ficou ali nove
meses contigo na barriga, teve as dores do parto, pariu e deu para
alguém criar? Ela se viu grávida de um homem casado, não podia
voltar para o interior naquelas condições. Era década de 1960. Seria apedrejada em praça pública.”

Hoje, as mães
que, por algum motivo, não desejam exercer a maternidade de uma
criança podem entregar o bebê nas Varas da Infância dos municípios
onde moram sem serem criminalizadas pelo ato. O abandono em via
pública, no entanto, é crime
. Onde atua, José Fernando encontra
histórias parecidas com a sua.

Na semana passada, participou de mais
uma audiência envolvendo uma mulher que entregou o filho para
adoção. “Se a pessoa nos procura espontaneamente, é recebida. A
única coisa que posso esperar é que apareça alguém bem
intencionado para levar a criança para casa. Eu sou um grande
incentivador da adoção.

José Fernando ainda tem três
anos de magistratura pela frente. Diz que deseja continuar fazendo
algo valioso para o próximo. A Vara da Infância e Juventude, diz
ele, tem sido o canal para atingir seu objetivo. “É uma porta que
Deus me oportunizou. Como juiz da Fazenda, vivia confortável, sem
enfrentar qualquer tipo de problema social. De repente, tudo mudou
”,
lembra. Porque a felicidade e a realização nem sempre fazem morada
onde parece óbvio.


Com informações de Correio Brasiliense

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