O Dia do Amigo é celebrado nesta segunda-feira (20) em todo o Brasil, uma data dedicada a reconhecer a importância das amizades e valorizar os vínculos que fazem parte da vida das pessoas. A comemoração teve origem na Argentina e está ligada à chegada do homem à Lua.
A data foi idealizada pelo professor de psicologia e filósofo argentino Enrique Ernesto Febbraro, que viu na chegada do homem à Lua, em 20 de julho de 1969, um símbolo de união entre os povos. Oficializada em 1979, a celebração se popularizou em países como Uruguai, Peru, México e Brasil. Já a Organização das Nações Unidas (ONU) comemora o Dia Internacional da Amizade em 30 de julho, data instituída em 2011 para incentivar a amizade entre povos, culturas e indivíduos como instrumento de promoção da paz.
Se antes as amizades eram construídas, em sua maioria, no convívio presencial, hoje a internet também se tornou um espaço para criar vínculos que ultrapassam as telas. Em muitos casos, conversas iniciadas em redes sociais, como o Facebook e Whatsapp, se transformam em relações duradouras. É nesse cenário que esta história começa.
Amizades que nasceram online
Em 2013, a paixão pelo RBD, grupo musical derivado da novela mexicana Rebelde, uniu Beatriz Klann e Cathling Araya, então moradoras de Guarulhos (SP), Rayany Melo, Simone Eliz e Yasmim Pessoa (sim, esta que vos escreve), de João Pessoa (PB), e Tamires Pereira, de Sapé (PB). Na época, a reprise da trama no SBT reacendeu o entusiasmo de milhares de fãs e as seis meninas recorreram ao Facebook em busca de outros admiradores do sexteto. Em um grupo na rede social, elas se conectaram pela primeira vez.
Do Facebook, o grupo migrou para o Whatsapp, rede social que começa a se popularizar no país como ferramenta de comunicação instantânea. No início, eram dezenas de pessoas que conversavam sobre os mais variados assuntos.

Beatriz conta que ela e Cathling, sua prima, encontraram o grupo de forma despretensiosa enquanto navegavam pelas redes sociais. Até hoje, elas não sabem ao certo como chegaram ali, já que a proposta inicial era reunir fãs do RBD na Paraíba. Mesmo morando em São Paulo, permaneceram. Com o passar do tempo, alguns integrantes foram saindo do grupo, que foi se tornando cada vez mais seleto. Ao final, restaram apenas seis.
Com os anos, a rotina e os compromissos fizeram com que as conversas diminuíssem. Até que a descoberta inesperada da gravidez de uma das integrantes, no ano de 2017, aproximou novamente as seis amigas. Além de oferecerem apoio naquele momento, elas fizeram questão de estar presentes para além das telas, acolhendo a futura mãe mesmo à distância.
“Foi uma turbulência na minha vida, e as meninas se fizeram presentes em toda essa fase. Elas fizeram algumas cartinhas para mim, se juntaram e me enviaram mimos. Sempre fui e serei muito grata por elas terem vivido isso comigo, por estarem presentes na minha vida nessa fase difícil, mesmo de longe. Muitas pessoas que consideramos amigas não fizeram nem metade do que as meninas fizeram por mim”, relembra Cathling, mãe da Alícia, de 8 anos.
Em mais de uma década de amizade, muitas fases da vida foram compartilhadas por meio das telas. Casamentos, nascimentos, formaturas, oportunidades profissionais e até as tradicionais fofocas fizeram parte da história construída entre nós. Aqui, peço licença para me incluir na história já que também sou personagem dela. Conversar com elas se tornou um fato natural da minha rotina. É curioso que, toda vez que me acontece algo, uma das primeiras reações é pensar: “preciso contar isso no grupo”. E elas sempre têm algo a dizer, nem que seja enviar uma figurinha engraçada. Entre mensagens diárias e videochamadas, seguimos presentes na vida umas das outras. O grupo se transformou em uma forte rede de apoio.

“Sou mãe de duas crianças, e a vida materna é corrida, nos doamos muito pelos filhos, e às vezes eu estou cansada, então eu mando um áudio para desestressar. Na loucura do dia a dia, é um lugar que eu posso desabafar, falar, conversar sobre a vida, contar uma piada, ver memes, ou até mesmo escutar palavras de apoio”, declarou Beatriz, mãe da Giovanna, de 7 anos, e do Gustavo, de 2 anos.
Além das conversas por aplicativos de mensagens, nós, integrantes de João Pessoa, também costumamos nos reunir, principalmente em datas comemorativas. Simone, que costuma ser mais reservada nas interações do grupo, também participa desses momentos, reforçando que a amizade construída pelas telas ultrapassa o ambiente virtual.
Da tela para o abraço
Em 2023, o RBD anunciou a turnê de reencontro, a Soy Rebelde Tour. Com shows marcados para São Paulo, enxergamos ali a oportunidade perfeita para que o nosso primeiro encontro presencial acontecesse. O detalhe especial é que, naquele mesmo ano, completávamos 10 anos de amizade.
O tão esperado encontro aconteceu no Parque Ibirapuera. No gramado, fizemos um piquenique e conhecemos de perto aquelas que, mesmo à distância, já conhecíamos tão bem há anos. Vimos as crianças que acompanhamos crescer pelas fotos e confirmamos, no abraço, uma conexão que já existia muito antes daquele momento.
Entre nós, Tamires era uma das mais ansiosas para a reunião. “O primeiro sentimento foi de ansiedade, porque, além de ansiosa, sou tímida. Mas, depois de quebrar essa barreira inicial, foi maravilhoso poder abraçar as pessoas as quais ainda não tinha visto pessoalmente. O sentimento foi de gratidão por todos os anos de união, apoio e amor, porque, para aturar umas às outras durante todos esses anos, tem que amar muito”, disse.

No dia seguinte, vivemos juntas a emoção de curtir o show do RBD. Apenas Beatriz não esteve presente no estádio, pois estava com o Gustavo recém-nascido. Por um bom motivo, o sonho de assistir ao show com todas reunidas precisou ser adiado.
Depois do encontro cara a cara, nossa conexão só se fortaleceu e permanece viva até hoje. A promessa agora é que as integrantes de São Paulo venham a João Pessoa para criarmos mais memórias juntas. Afinal, para além das telas, nossa amizade já está gravada em nossos corações.
“O grupo está ali. As meninas não estão presentes em minha casa, no meu trabalho ou no meu dia a dia pessoalmente, mas estão ali comigo onde quer que eu vá”, refletiu Rayany.
A força da conexão virtual
O RBD ainda me trouxe outros amigos, que também perduram há mais de uma década. Entre eles Bianca de Paula, de São Paulo (SP) e Tales Santos, de Franca (SP). Ao conversar com a Bianca, ela me contou que a amizade virtual, iniciada quando ela tinha apenas 14 anos, foi importante em uma época em ela sofria bullying na escola e passava por dificuldades familiares. “O laço que criei era a única coisa boa que eu tinha no meu dia, e foi isso que me salvou de fazer muitas burradas sem que eu nem percebesse. Vocês eram um refúgio para mim, porque me faziam rir quando ninguém mais fazia”, contou.
Já para o Tales, a distância, seja física ou virtual, não enfraqueceu o elo criado pela internet. Pelo contrário, as diferenças ajudaram a fortalecer uma amizade que já faz parte da sua história. “Temos personalidades, vivências, realidades e criações muito diferentes e, por mais que o nosso gosto em comum nos unisse, eram essas diferenças que faziam com que a amizade se renovasse o tempo todo, porque não havia monotonia. Era sempre tudo muito novo, com muitas novidades e divergências que instigavam o nosso ciclo a ficar cada vez mais forte”, ressaltou.
Ainda falta conhecer os dois pessoalmente, algo que espero realizar em breve. Visto que eles também fazem parte da minha história e representam um vínculo que o tempo e a distância não conseguiram quebrar.
Outra amizade que começou na internet
A psicóloga Dielly Araújo, de Cabedelo (PB), e a nutricionista Thaís Moraes, de Recife (PE), também construíram uma amizade a partir das redes sociais. Em 2012, as duas se conheceram em um grupo de fãs de um ator e descobriram que, além da admiração pelo artista, compartilhavam a paixão pela mesma banda. Com o passar do tempo, encontraram ainda outros interesses em comum, como o vôlei, fortalecendo a conexão criada pela internet.
Após quase uma década de amizade, o encontro presencial entre as duas ocorreu em 2020, quando Thaís veio até João Pessoa. Ele lembra que Dielly foi buscá-la na rodoviária da cidade.
“Foi um momento muito feliz porque era um desejo de anos, ela foi me buscar na rodoviária e quando a encontrei foi tipo ‘que bom que tu realmente existe, amiga’”, brincou a nutricionista.

A amizade é definida pelas duas como uma “conexão muito boa”. Dielly conta que, no ano passado, enfrentou um período delicado e de grande sobrecarga emocional. Mesmo à distância, Thaís esteve presente, acompanhando a situação e oferecendo apoio. Até que, em um determinado momento, enviou uma mensagem simples: “Vem passar o fim de semana aqui em casa e descansar”. O convite foi aceito, e Dielly foi ao encontro da amiga.
“Senti o acolhimento, carinho e cuidado que tanto precisava naquele momento, através dela e de sua família. Minha tia, infelizmente, veio a falecer umas semanas depois e da mesma maneira Thaís se fez presente ao meu lado. É uma atitude normal e esperada dentro de uma amizade, mas bateu diferente e com um sentido de “ainda bem que a gente se tem e não precisa passar por coisas sozinhas’”, pontuou a psicológa.
Para Dielly Araújo, o período da pandemia de Covid-19 fortaleceu o ambiente virtual, quando a internet se tornou uma das principais formas de manter a comunicação e os vínculos entre as pessoas. Nesse espaço, as amizades foram crescendo e se multiplicando, inicialmente por ser um ambiente em que muitos se sentiam mais livres de pré-julgamentos.
“O virtual traz consigo um espaço de acolhimento e coragem para que o outro possa ser quem se é de verdade, sem o medo do julgamento, seja com seu físico, sua timidez ou alguma dificuldade de fala. Ele possibilita o espaço e encontros para que sua voz e sentimentos sejam ouvidos e validados”, explicou.
Por fim, a psicóloga ressalta que, embora as relações construídas no ambiente virtual possam ser importantes fontes de apoio e conexão, o contato exclusivamente online não substitui completamente a interação social presencial.
“Nós somos seres preparados para a convivência, para trocas que são além das palavras, como o toque, as expressões faciais, gesticulações e o próprio tom de voz. É válido que, dependendo do contexto em que a pessoa está inserida, algumas relações poderão ser construídas, em sua maior parte, de maneira online, mas isso não poderá suprir completamente a convivência presencial”, concluiu.
Tanto as relações virtuais quanto as presenciais podem ser grandes pontos de apoio para a vida humana. São vínculos capazes de fortalecer, acolher, encorajar, fazer rir ou simplesmente oferecer uma escuta. A amizade está entre os relacionamentos mais duradouros que construímos ao longo da vida e, independentemente da forma como nasce, merece ser cuidada e valorizada.
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