O tempo é o senhor da razão. Muito se fala que
com o passar dos anos o ser humano vai envelhecendo e morrendo aos
poucos. Mas, será que isso é um fim ou recomeço? Os ponteiros do
relógio vão se estendendo como um oceano cheio de histórias e
feições. A velhice é um marco e ao mesmo tempo é a soma de uma
longa caminhada. Iremos adentrar a contos reais e, além de tudo,
vamos falar de histórias humanas, de gente como a gente. Vidas que,
de alguma maneira, foram esquecidas ao longo dos anos.
Um
desses lugares é a Vila Vicentina Júlia Freire, uma instituição
de longa permanência para idosos sem fins lucrativos e que funciona
no bairro da Torre, em João Pessoa-PB. Surgiu em 1944, pela vontade
de uma fazendeira chamada Júlia Freire, que doou dois mil e duzentos
metros quadrados de sua propriedade, em regime de comodato, para os
pobres de São Vicente. Foi fundada pela Sociedade de São Vicente de
Paulo, junto com a doação do terreno de Júlia Freire. Atualmente,
a Vila abriga mais de 61 idosos, com mais de 50 voluntários, sendo
15 fixos.
Maria Dulce, 99 anos
Entre
idas e vindas, a vida nos traz ao longo do tempo novas experiências
e ensinamentos. Dona Maria Dulce, de 99 anos, é a prova de como a
vida trouxe coisas boas. O sorriso estampado em seu rosto e uma
alegria singular são as marcas dessa jovem senhora. Maria Dulce, em
2018, completará 100 anos de idade. Anos esses bem vividos com
intensidade e um coração cheio de saudade.
Dona Dulce, como é
conhecida no Vila Vicentina, é a idosa com mais idade. “Eu sou
muito feliz. Aqui é um paraíso. Prefiro estar aqui, pois vejo
pessoas, converso, dou risadas. Se eu estivesse em casa, estaria em
frente a televisão sem fazer nada”, ressaltou.
Maria Dulce nasceu
no município de Alagoa Grande, em João Pessoa, no dia 14 de maio de
1918. Os pais dela eram agricultores. Filha caçula de 20 filhos. A
idosa tem um filho que mora em João Pessoa, mas ela preferiu em 2015
ir morar no Vila Vicentina Júlia Freire por conta própria. A
criança mais crescida – como ela gosta de ser chamada – não
conheceu o pai. Ela conta que ele faleceu quando tinha três meses
de idade. A mãe dela cuidou sozinha de todos os filhos.
Andando
mais nos corredores da instituição, se percebe um ambiente alegre e
com uma energia diferente. O vento da saudade e das boas lembranças
são fatores que envolvem aquele lugar. Memórias estas que Maria
Alice Celani, de 87 anos, traz em seu semblante. Ela é neta de
italianos. Nasceu na cidade de Santa Rita, em João Pessoa.
Maria
Alice é vice-presidente da Vila Vicentina Júlia Freire e é
considerada a única idosa a ter um cargo em um asilo. “O que eu
faço é uma missão de vida, ajudar o próximo é um dever de todos
nós. Meu coração enche de alegria em ver todos os idosos aqui bem
cuidados e com dignidade”, comentou. Costureira de mão cheia e com
habilidades em comandar, Dulce é a prova que idade não quer dizer
invalidez. Em 2017, ela faz 10 anos morando na instituição. “Não
gosto de ficar parada, sou bem agitada, ficar dentro de um quarto não
é meu forte”, destacou.
Professora e enfermeira Lenilde Ramalho e Vice-Presidente da Vila Vicentina Júlia Freire Maria Alice
O
trabalho voluntário é uma das forças desse lugar. A
professora e enfermeira Lenile Ramalho doa o seu tempo e seus
conhecimentos desde 2005. Ela programa passeios e garante a
diversão dos idosos. “Tenho muito orgulho em trabalhar aqui, eu
era contadora, mas me apaixonei pela área da saúde. Eu gosto de
gente e, principalmente, dos idosos”, disse.
Amor
e dedicação são palavras que a fisioterapeuta Maeve Braga, de 38
anos, expressa com muito orgulho em trabalhar em uma instituição de
idosos. “Eu pensava em desistir da minha profissão, estava tão
desacreditada de tudo, mas quando conheci a história da Vila
Vicentina me encantei. Hoje faz nove anos que trabalho. E cada dia é
um aprendizado. Eu ganho muito carinho e muito afeto. E isso não há
dinheiro que pague.”, falou.
Fisioterapeuta Maeve Braga e moradora da Vila Vicentina Alcinda de Lucena, 82 anos
Estilo
e alegria
Unhas
pitadas, cabelo escovado e um óculos de sol bem estiloso são a
marca de Dona Alcinda de Lucena, de 82 anos. Nasceu em Recife,
capital de Pernambuco, tem quatro filhos, seis netos e três
bisnetos. “Eu adoro ler. Sugeri este ano para os administradores da
casa de ter uma biblioteca. Gosto muito de palavras-cruzadas. Eu
viajo nas leituras. Temos que exercitar a mente. Toda tarde eu leio”,
disse.
Idoso mais velho da instituição, Antônio Pereira, 109 anos
Idoso
mais velho
Você
sabe o que é ter 109 anos de idade? É isso mesmo, Antônio Pereira
tem 109 e é o morador mais velho do Vila Vicentina. Seu Lourinho,
como é conhecido, nasceu em Rio Tinto. Mora no asilo há 10 anos.
Ele foi encaminhado pela Promotoria do Idoso por vulnerabilidade e
maus tratos. Antônio Pereira é lucido e ainda gosta bastante de
futebol e comer um bom feijão com arroz.
“O milagre acontece a cada dia”
Washington Cardoso, presidente da Casa Vicentina Júlia Freire
Presidente do Vila Vicentina, Washington Cardoso e vice-presidente da Vila Vicentina, Maria Aline, 87 anos
“É
com muito prazer que trabalho como voluntário aqui nessa casa,
apesar das dificuldades por sermos uma instituição filantrópica.
Eu vejo o milagre acontecer a cada dia”, disse Cardoso. Washington
Cardoso é o presidente do abrigo há 10 meses e fala que o local
sobrevive com doações. Segundo o presidente, eles realizam
captações de donativos, e ressalta que a instituição precisa
muito da ajuda da sociedade. No ano passado recebeu o prêmio da
Organização das Nações Unidas (ONU) por ser a melhor instituição
de longa permanência da Paraíba. A esposa de Washington, Conceição
Cardoso, é voluntária há 20 anos no asilo. “Os idosos são como
uma família para mim, meu sentimento é de alegria e gratidão”,
relatou Conceição.
População Idosa – De
acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
a população de idosos representa um contingente de quase 15 milhões
de pessoas (8,6% da população brasileira). As mulheres são
maioria: 8,9 milhões (62,4%) dos idosos são responsáveis pelos
domicílios e têm, em média, 69 anos de idade e 3,4 anos de estudo.
Com um rendimento médio de R$ 657,00, o idoso ocupa, cada vez mais,
um papel de destaque na sociedade brasileira.
Nos
próximos 20 anos, a população idosa do Brasil poderá ultrapassar
os 30 milhões de pessoas e deverá representar quase 13% da
população ao final deste período. Em 2000, segundo o Censo, a
população de 60 anos ou mais de idade era de 14.536.029 de pessoas,
contra 10.722.705 em 1991. O peso relativo da população idosa no
início da década representava 7,3%, enquanto, em 2000, essa
proporção atingia 8,6%.
A
proporção de idosos vem crescendo mais rapidamente que a proporção
de crianças. Em 1980, existiam cerca de 16 idosos para cada 100
crianças; em 2000, essa relação praticamente dobrou, passando para
quase 30 idosos por 100 crianças. A queda da taxa de fecundidade
ainda é a principal responsável pela redução do número de
crianças, mas a longevidade vem contribuindo progressivamente para o
aumento de idosos na população. Um exemplo é o grupo das pessoas
de 75 anos ou mais de idade que teve o maior crescimento relativo
(49,3%) nos últimos dez anos, em relação ao total da população
idosa.

