Foto: Reprodução / AFP
Ex-diretores
da montadora Ford na Argentina começaram a ser julgados nesta
terça-feira (19) por permitir o sequestro de 24 funcionários de uma
fábrica da empresa americana em Buenos Aires durante a ditadura
(1976-1983).
Trata-se de um julgamento emblemático pela
cumplicidade do âmbito empresarial nos crimes da ditadura argentina,
e que condenou centenas de militares, policiais e civis.
As
vítimas eram operários da fábrica da Ford localizada em Pacheco,
um subúrbio ao norte de Buenos Aires, alguns deles líderes
sindicais.
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Os
funcionários foram presos por forças militares enquanto faziam seu
trabalho dentro da fábrica entre 24 de março de 1976, data do golpe
de Estado, e agosto desse ano.
Foram retidos em um local
de descanso para os operários, onde as vítimas apanharam e foram
torturadas por 12 horas, segundo testemunhas que do caso.
Depois
foram levados a delegacias e, mais tarde, alojados em prisões à
disposição do Poder Executivo.
Os acusados são o
ex-gerente de Manufatura da Ford Pedro Müller, o ex-chefe de
Segurança da fábrica em General Pacheco Héctor Francisco Sibilla,
e o ex-chefe do Corpo IV do Exército Santiago Omar Riveros.
O
presidente da empresa na época, Nicolás Enrique Courard, e o
gerente de Relações Trabalhistas, Guillermo Galarraga, já
faleceram.
Os acusados estão presentes na primeira
audiência, realizada em um tribunal federal de San Martín, na
periferia norte da capital argentina, e o processo deve durar
meses.
Alguns dos 24 sequestrados eram líderes sindicais.
Dois
anos preso
“Militares
uniformizados me sequestraram no meu ponto de trabalho. Eu estava
pintando. Me torturaram durante 12 horas, das 11h00 às 23h00”,
conta à AFP Carlos Propato, de 69 anos, que trabalhou na fábrica de
1970 a 1976.
Propato era líder sindical. “De lá
fomos levados à delegacia. Ficamos lá 40 dias com tortura quase
diária, fome, sujeira. Perdi um olho e fraturaram uma vértebra”,
relembra.
No total, passou dois anos na prisão e quer
justiça. “A fábrica da Ford em Pacheco foi um centro de
detenção e tortura. Da Ford nunca recebemos nada, nem uma palavra,
uma carta. Nada de nada”, afirma.
Os militares
envolvidos foram acusados de sequestro, coerção ilegal e ameaça.
Müller, de 86 anos, e Sibilla, de 91 anos, são acusados de
cumplicidade por terem facilitado os meios necessários para cometer
os crimes.
“Os 24 foram presos por ordem da empresa.
Quarenta anos depois é importante que haja justiça”, disse
Propato.
Enquanto estavam sequestrados, suas famílias
receberam da Ford telegramas intimidando-os a se apresentar aos seus
postos de trabalho, e mais adiante telegramas de demissão.
A
ação sustenta que os responsáveis da Ford desempenharam um
papel-chave na identificação dos funcionários que tinham atividade
sindical, colocaram à disposição a fábrica da empresa e
permitiram que ali montassem uma sala de tortura, além de facilitar
os veículos para transferir as vítimas à prisão.
“Qual
era o meu crime? Apenas reclamar os direitos dos trabalhadores”,
afirma Carlos Propato.
Uma fonte judicial próxima ao caso
considera que se os 24 trabalhadores “não foram eliminados, foi
porque não representavam um perigo para os critérios militares.
Apenas os castigaram por sua ação sindical”,
considerou.
Desde 2005, quando caíram as leis de
impunidade, centenas de torturadores e repressores foram julgados,
entre eles o ex-hierarca Jorge Rafael Videla, condenado e falecido na
prisão em 2013.
Com informações de AFP.

