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Levantamento revela imediatismo e baixa tendência a poupança do brasileiro

O brasileiro é
imediatista e tem baixíssima tendência à poupança, mostram
cálculos inéditos feitos a partir de levantamento do Datafolha.

Eles medem o excesso
de peso dado ao presente -o que os economistas chamam de “present
bias”, ou, em termos simples, imediatismo.

Uma explicação é
que há pouco incentivo para poupar porque aposentadoria e FGTS
repõem ou superam a renda atual na maior parte dos casos, segundo o
professor do Insper Ricardo Brito, especializado em finanças e
decisões de poupança.

O problema é que a
reforma da Previdência deve reduzir benefícios e adiar sua
obtenção, elevando a importância da poupança particular e
voluntária. E o estudo mostra o brasileiro despreparado para isso,
seja por ignorância, seja por imediatismo.

POUCA PACIÊNCIA

A “paciência”
do brasileiro é de 0,26 (veja no infográfico como o índice é
calculado), número que mostra “imediatismo exacerbado”,
segundo Brito –que coordenou o estudo a partir dos dados da
pesquisa do Datafolha.

O índice tem como
base apenas respostas que faziam sentido do ponto de vista lógico e
financeiro —70% dos quase 6.000 entrevistados em duas baterias não
revelaram conhecimento financeiro suficiente para isso.

“É um índice
muito baixo, por qualquer ângulo de análise”, afirma o
economista.

BRASILEIROS POUPAM
POUCO

Em 2011,
pesquisadores da Alemanha e da Suíça compararam o imediatismo em 45
países. O menor resultado encontrado foi o da Rússia: 0,21.

O 0,26 obtido agora
para o Brasil é menos da metade da média latino-americana.

“Poupar para o
futuro é algo que vai contra a natureza do ser humano”, diz o
economista Paulo Costa, doutorando em Economia em Harvard e autor do
livro “Aprendendo a Lidar com Dinheiro”.

Um dos principais
campos de estudo de Costa é como fenômenos psicológicos e
comportamentais afetam as decisões financeiras das pessoas.

CONTRA A NATUREZA

“Os homens das
cavernas passaram muitos anos consumindo imediatamente tudo que
caçavam.” Com o aumento da expectativa de vida, segundo ele, a
necessidade de pensar no amanhã cresceu muito rapidamente.

“Nosso cérebro
não se ajusta na mesma frequência que a tecnologia avança. Comer
um pedaço de pizza agora parece muito mais atraente do que esperar
para comê-lo daqui a 40 anos, quando irei de me aposentar.”

Se a decisão é
difícil para os indivíduos, governos têm chamado para si a tarefa
de decidir por eles -no que é chamado de “paternalismo
libertário” por economistas e cientistas políticos.

Há países nórdicos
em que a previdência privada é obrigatória e, nos EUA, a adesão
ao fundo de pensão da empresa é automática, estratégia conhecida
como “nudges (“cutucões” ou “empurrões”
que estimulam a ação ou dispensam decisão).

Para Ricardo Brito,
do Insper, o forte imediatismo brasileiro e a baixa instrução
financeira revelados pelo Datafolha pode indicar a necessidade dessas
políticas.

Na pesquisa, só 14%
dos empregados registrados ou funcionários públicos disseram ter
previdência privada.

Entre os do setor
informal ou que trabalham por conta própria, a fração cai para 8%.

Paulo Costa enumera
características brasileiras que, em comparação com outros países,
incentivam menos a poupança: “Há universidades públicas
gratuitas. O sistema de aposentadoria é um dos mais generosos do
mundo. E o sistema de saúde, embora falho, existe e atende parcela
da população”.

Poupar é difícil
para todos, diz o professor da Universidade de Zurique Guilherme
Lichand. “Mesmo executivos e professores universitários tem
dificuldade de tomar essas decisões como deveriam, já que o custo
de poupar cai no presente, e os benefícios só aparecem no futuro.”

‘PSICOLOGIA DA
POBREZA’

O estudo feito por
Brito mostrou imediatismo forte em todas as faixas da população,
mas maior entre os menos escolarizados e menos ricos. Uma explicação
pode ser a “psicologia da pobreza”, mostrada em
experimentos internacionais recentes.

“A preocupação
com as contas no fim do mês captura atenção, memória e controle
de impulsividade, fazendo focar o curto prazo e cometer erros que
perpetuam a pobreza”, afirma Lichand.

O economista está
por trás de um dos primeiros projetos-piloto de “nudges”
na esfera federal no Brasil: cerca de mil beneficiários do Bolsa
Família recebem mensagens de celular concebidas para melhorar o uso
do dinheiro e estimular a poupança.

O programa está
sendo implementado pela MGov, empresa da qual Lichand é sócio. A
avaliação de impacto ainda não tem prazo.

Outra preocupação
de governos e organismos como o Banco Central e a Comissão de
Valores Imobiliários tem sido a educação financeira. O Brasil teve
o pior resultado em teste de conhecimentos financeiros aplicado a
alunos do ensino médio em 2015 (leia texto ao lado).

O Estado de Goiás
foi um dos que implantou a matéria no currículo neste ano, como
forma de estimular também o aprendizado de matemática. O livro de
Costa serviu como base para os estudos.

A avaliação de
impacto fica pronta neste mês. No Rio entre 2012 e 2014, estudantes
que fizeram o curso tiveram notas 30% maiores em operações com
frações e juros simples e 100% maiores em juros compostos,
comparados a colegas da mesma escola e com as mesmas características
que não cursaram a matéria.

Embora haja mais
Estados interessados na experiência, a crise fiscal tem sido um
obstáculo. “Estamos buscando parcerias privadas para expandir
os programas no país”, afirma ele.

AFLIÇÃO DOS PAIS

Ao fazer exercícios
sobre orçamento na escola estadual que frequenta, uma das alunas
teve uma revelação: “Entendi o porquê do aperto e do estresse
dos meus pais no final do mês. É porque o dinheiro está acabando e
não dá pra fazer tudo o que eles gostariam por mim e pelo meu
irmão”, disse ela ao economista Paulo Costa, autor do livro
adotado pelo governo de Goiás.

Embora tenha ficado
com “um aperto no coração”, Costa aponta o lado positivo
da experiência: “Essa mesma aluna passou a entender a
importância da faculdade para aumentar a renda dela”.

Estudantes
brasileiros de 15 anos tiveram o pior desempenho em prova de
conhecimentos financeiros aplicada em 15 países em 2015, durante o
Pisa (exame global que mede a capacidade de raciocínio).

Mais da metade dos
alunos ficou no nível 1: nessa faixa estão aqueles que dominam
apenas três operações aritméticas: soma, subtração e
multiplicação.

O conhecimento
financeiro só é considerado básico a partir no nível 2 (que
inclui o domínio da divisão) pela OCDE, organização que coordenou
o estudo.

Apenas 3 em cada 100
estudantes brasileiros atingiram o nível 5, no qual são capazes de
tomar decisões relacionadas às próprias finanças. Na China, país
com melhor média, 33% dos alunos atingiu o nível máximo.

A baixa educação
financeira aliada ao alto imediatismo brasileiro pode revelar também
um risco em relação ao endividamento e à inadimplência, diz
Ricardo Brito, do Insper.

A tendência a
consumir logo no presente só não se reflete hoje em mais dívidas
porque os juros bancários no Brasil são muito altos, afirma ele.

Fonte: Folha de São
Paulo

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