Mulheres rurais iniciam na Paraíba mobilização para Marcha das Margaridas de 2027 e cobram regras para eólicas

A mobilização saiu da casa onde viveu Margarida Maria Alves e seguiu até o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Alagoa Grande, no Brejo paraibano.

Carlos Rocha
Carlos Rocha
Nascido em 1988, em Guarulhos (SP), Carlos Rocha é filho de paraibanos e vive em João Pessoa desde o início dos anos 2000. Graduado em Administração de Empresas pela Faculdade Paraibana, ingressou posteriormente no curso de Jornalismo na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).Atua no jornalismo digital desde 2013, com passagens por importantes veículos de comunicação da Paraíba. Na TH+ SBT Tambaú, trabalhou nas áreas de Marketing, Reportagem e Produção de Conteúdo Multimídia.Sua atuação é voltada principalmente para política, cidades e temas de interesse público, sempre com foco na apuração rigorosa e na produção de conteúdo de qualidade. Além do jornalismo, é apaixonado por leitura, cinema, séries e cultura pop.

A preparação para a Marcha das Margaridas de 2027 já começou na Paraíba, estado onde nasceu a líder sindical que deu nome a uma das principais mobilizações nacionais de mulheres do campo. Centenas de trabalhadoras rurais de diferentes municípios participaram, em Alagoa Grande, de uma caminhada que marcou o início da organização para a próxima edição e colocou novamente no centro do debate os impactos da expansão dos parques eólicos sobre comunidades rurais.

A mobilização saiu da casa onde viveu Margarida Maria Alves e seguiu até o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Alagoa Grande, no Brejo paraibano.

Além de reivindicações históricas relacionadas ao acesso à terra, água, educação, previdência e direitos das mulheres do campo, a implantação de empreendimentos de energia renovável em territórios rurais aparece atualmente entre as principais discussões do movimento na Paraíba.

O tema ganhou peso também no Legislativo estadual. Um projeto aprovado pela Assembleia Legislativa estabelece distância mínima de 1,5 quilômetro entre novos aerogeradores e edificações como residências, escolas, unidades de saúde e igrejas. Até a última atualização pública localizada, porém, a proposta ainda aguardava sanção do Governo da Paraíba.

Mobilização começa onde nasceu Margarida

A escolha de Alagoa Grande para iniciar a preparação tem caráter histórico.

Margarida Maria Alves foi presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município e atuou na defesa de direitos trabalhistas e sociais de trabalhadores do campo. Ela foi assassinada em 12 de agosto de 1983, aos 50 anos, e sua trajetória se tornou referência nacional para movimentos de mulheres rurais.

A primeira Marcha das Margaridas foi realizada em Brasília em 2000, reunindo cerca de 20 mil mulheres. Desde então, a mobilização passou a ser organizada periodicamente com participação de trabalhadoras do campo, das florestas e das águas de diferentes regiões do país.

O nome da marcha é uma homenagem à sindicalista paraibana.

A edição de 2027 será a próxima mobilização nacional e já começa a ter sua pauta construída nos estados.

Parques eólicos entram na agenda das mulheres rurais

Na Paraíba, a expansão da energia eólica passou a ocupar espaço crescente nas mobilizações de organizações ligadas à agricultura familiar.

Segundo agricultoras ouvidas pela reportagem da Marco Zero/Giro19, integrantes de comunidades do Brejo e da Borborema passaram a acompanhar com maior atenção a chegada de empreendimentos eólicos a partir da instalação de equipamentos para medição dos ventos em áreas rurais.

Representantes desses movimentos relatam problemas como ruído, alterações na rotina das famílias, impactos sobre atividades produtivas e conflitos relacionados à ocupação dos territórios.

Essas declarações representam a avaliação das comunidades e organizações envolvidas na mobilização. A intensidade e a relação entre a proximidade de aerogeradores e diferentes efeitos sobre a saúde e o ambiente são objeto de estudos, licenciamentos e debate técnico.

O Ministério Público Federal na Paraíba também entrou na discussão. Em julho, o órgão encaminhou uma nota técnica ao Governo do Estado defendendo a sanção integral de uma proposta que cria distância mínima entre aerogeradores e áreas ocupadas. O MPF afirmou ter considerado evidências científicas sobre exposição a ruídos, vibrações e outros impactos associados à proximidade dos equipamentos.

Projeto prevê distância mínima de 1,5 km

O Projeto de Lei nº 2.061/2024, de autoria da deputada estadual Cida Ramos, foi aprovado pela Assembleia Legislativa em 18 de junho.

A versão encaminhada ao Governo por meio do Autógrafo nº 2.388/2026 estabelece que novos aerogeradores devem manter distância mínima de 1.500 metros de edificações de uso público, coletivo ou privado.

Isso inclui, por exemplo:

  • residências;
  • escolas;
  • unidades de saúde;
  • igrejas;
  • estabelecimentos comerciais;
  • outras edificações abrangidas pelo texto.

Há uma diferença em relação à proposta discutida inicialmente na Assembleia. O projeto original previa 2 quilômetros de afastamento, distância ainda mencionada pela própria ALPB durante audiência pública realizada em 2025 e em publicação sobre a aprovação em junho. O texto final encaminhado ao Executivo, entretanto, estabelece 1,5 quilômetro, conforme confirmado posteriormente pelo MPF e pelas organizações que acompanham a tramitação.

Até a reportagem publicada pela Marco Zero no sábado (26), a proposta ainda não havia sido sancionada.

MPF também defendeu aprovação da regra

A discussão deixou de ficar restrita aos movimentos sociais.

Em nota técnica enviada ao Governo da Paraíba, o MPF defendeu a distância mínima de 1,5 km e argumentou que a expansão da energia eólica precisa considerar, além da geração de energia, os efeitos sobre as populações instaladas próximas aos empreendimentos.

Movimentos ligados à agricultura familiar também realizaram, em agosto, um ato em João Pessoa cobrando a sanção integral do projeto.

As entidades afirmam que não são contrárias à produção de energia renovável, mas defendem mudanças na forma de instalação dos empreendimentos eólicos e maior proteção às comunidades rurais.

Paraíba tem 42 parques eólicos em operação

O debate ocorre enquanto a geração eólica avança no estado.

Dados divulgados pelo próprio Governo da Paraíba, com base no Atlas Eólico estadual e em informações da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), apontam 42 parques eólicos em operação, somando aproximadamente 1,1 gigawatt de capacidade instalada.

O mesmo levantamento indicava 22 parques em construção, com 615,9 MW, além de outros 40 empreendimentos cuja construção ainda seria iniciada.

A geração renovável também representa investimentos e ampliação da capacidade energética. Um dos principais exemplos é o complexo instalado nos municípios de Santa Luzia, Areia de Baraúnas, São José do Sabugi e São Mamede, que integra geração eólica e solar e recebeu investimento estimado em R$ 3 bilhões.

É nesse cenário que se estabelece a disputa em torno das regras: de um lado, a expansão de uma fonte renovável de geração elétrica; de outro, reivindicações de moradores e movimentos sociais por critérios de distância, participação das comunidades e redução de impactos locais.

Marcha deve levar pautas estaduais para discussão nacional

A organização da Marcha das Margaridas ocorre de forma descentralizada. Demandas levantadas nos estados ajudam a formar a plataforma política levada posteriormente à mobilização nacional.

Historicamente, a marcha reúne reivindicações relacionadas a agricultura familiar, reforma agrária, combate à violência contra as mulheres, igualdade, autonomia econômica, saúde, educação e proteção dos territórios.

Na Paraíba, o debate sobre energia renovável passou a integrar essa agenda.

A relação é especialmente simbólica porque a mobilização nacional carrega o nome de uma paraibana e agora inicia parte de sua preparação justamente em Alagoa Grande, onde Margarida Maria Alves construiu sua atuação sindical e foi assassinada há mais de quatro décadas.

Para as organizações rurais envolvidas, a discussão que deverá chegar a 2027 não é sobre abandonar fontes renováveis de energia, mas sobre quais regras devem orientar a instalação dos empreendimentos e como as comunidades que vivem nos territórios participarão das decisões.

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