Adnet (foto) desagradou a emissora de Edir Macedo. Imagem: Reprodução / Internet
De
acordo com o jornalista Ricardo Feltrin, colunista de UOL, uma sátira
do programa “Tá no Ar” causou repúdio à cúpula da Record TV.
“O quadro que
causou revolta foi exibido na terça-feira na Globo, e se chamava
“Shark Temple”. Tratou-se de uma paródia do famoso reality de
negócios “Shark Tank”, que estreou em 2009 nos EUA e que hoje
pode ser visto na TV paga, no canal Sony (foi exibido pela Band em
2017). No reality tradicional, um grupo de empresários milionários
assiste a apresentações de inventores e empreendedores, de gente
comum que tenta vender uma parte de seus negócios a empresários
ricaços (tubarões), para poder crescer. Na paródia de Adnet, porém
–que pode ser vista no serviço de streaming Globo Play–, o
“empreendedor” era um religioso dono de uma igreja (daí o
“temple” do título)”, relatou o jornalista que também
detalhou a produção:
“Entre
outros argumentos de seu discurso, o religioso mostrava aos
milionários (todos também caricatos, inclusive um príncipe árabe)
como estava fazendo sucesso e cada vez mais milionário “vendendo
ilusões, ou o impalpável” (a fé)”, reportou.
“No
final do quadro, os tubarões se interessam muito pelo “negócio”,
mas descobrem horrorizados que o demonstrador não está lá para
vender uma parte da sociedade, e sim comprar as empresas de todos
eles”, disse.
O
repúdio da emissora foi publicizado através de um texto
disponibilizado no site oficial da casa.
Veja na íntegra:
O
mundo do futebol e o da música têm características convergentes. O
talento nato, que faz surgir fenômenos, é um deles. Outro ponto em
comum é o profissional fugaz. Aquele de uma só melodia de sucesso,
de uma única partida brilhante. Depois, evaporam no anonimato. O
declínio vem na mesma velocidade da frustração.
Marcelo
Adnet, que surgiu como craque do humor e maestro do improviso,
conhece bem a sensação do declive. E não soube lidar com ela.
O
comediante despontou na MTV como um fenômeno, um showman, com a
pretensa capacidade de reinventar a televisão. Era 2008. Ganhou
alguns elogios da crítica e do público. Chamou a atenção da TV
Globo, onde já havia feito pontas em programas de humor e novelas.
Sabe aquele jogador que é formado na base de clube grande, é
emprestado para um time menor, faz uns dois gols bonitos e volta com
pinta de craque? A Globo caiu no canto.
Desde
2013, Adnet passeia pelo Jardim Botânico. O máximo de capacidade
que conseguiu demonstrar foram algumas frases em servo-croata, língua
que estudou por ter se encantado com a história da Bósnia, país do
leste europeu que passou por uma sangrenta guerra no início dos anos
90. Em 2014, durante a Copa do Brasil, Adnet aproveitou a inesperada
participação da Bósnia-Herzegovina no Mundial e desfilou suas
gracinhas em diversos programas da Globo.
De
lá para cá, o resultado no ar foi um constante 7 a 1. Contra o
telespectador. O comediante virou uma caricatura, uma cópia pálida
quase apagada do que poderia ter sido. Perdeu a graça, a verve,
tentou formatos, piadas, mas nada, nada absolutamente deu certo.
O
seu programa, o Tá
No Ar,
é constrangedor. Uma cópia pirata de TV
Pirata(ok,
desculpem-me pela piada nível Tá
No Ar).
Com o exibido ontem, foram 53 programas e zero repercussão. Poucas
esquetes ganharam espaço na mídia especializada e nas redes
sociais, exatamente aquelas que foram moldadas a partir do surrado
expediente de artista em decadência: a apelação. Parece não ter
aprendido com a condenação judicial por humilhar, em 2011, quem tem
autismo. Em nome do humor e do que trata como liberdade de expressão,
Adnet resolveu promover o ódio e a segregação, especialmente a de
caráter religioso.
É
uma estratégia arriscada e nada inteligente de quem não tem dom
para reverter a relação com o público. Não sabe como agir, não
tem maturidade para lidar com a adversidade. Adnet perdeu a
capacidade de dialogar com o telespectador, de reavivar aquela paixão
antiga. Buscou a apelação, uma fuga, e traiu o seu público em
praça pública. É um elo que se quebra, difícil de perdoar. O
telespectador não merece ficar com Adnet.

