Trabalhadores enfrentam uma luta de classes na era do Uber

Distintos
entre si, fordismo e toyotismo tinham algo em
comum: a oferta, aos trabalhadores, de compensações parciais. O
novo arranjo “produtivo” é retrocesso puro.

No
início do século XX, a Ford inovou as relações de
trabalho ao implementar salários melhores e controle ideológico: um
modo de produção que combinava a gerência racional e científica
aliada a um sistema de remuneração mais agressivo, oferecendo
salários acima da média e um conjunto de benefícios até então
desconhecidos do mundo industrial.

Uma
das expectativas do fundador era que os próprios trabalhadores
pudessem comprar os veículos que produziam. Além disso, esses
trabalhadores precisavam seguir o perfil desejado pela empresa, o
modelo subjetivo proposto por ela. Para tanto, os funcionários
da Ford Motor Company deveriam comprovar que seguiam um
estilo de vida condizente com a empresa e aprovado por um
departamento especializado que examinaria a vida privada dos
trabalhadores, impondo valores como fidelidade conjugal, estabilidade
familiar e emocional, repulsa ao álcool e à vida boêmia, apego à
religião e ao patriotismo.

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Décadas
depois, sem desprezar as escolas que lhe antecederam, a Toyota do
pós-guerra inovou e recuperou a capacidade flexível da produção
artesanal, regulada pela demanda (just in time), sem perder a
capacidade da produção em massa, além de promover um novo
projeto de engajamento. O paradigma da administração toyotista ou
flexível valeu-se do sentimento de pertencimento a um grupo que
parecia ser, no Japão dos anos 1970, ainda mais forte do
que a acepção de individualidade. Para perpetuar tal harmonia nas
relações entre empresa e trabalhador, principalmente nos países
ocidentais, essa prática sabiamente recorreu à escola das Relações
Humanas e disseminou as ideias da gestão participativa, da
cooperação, do consenso, da integração e da participação, além
da retórica da valorização dos grupos informais. Quem fiscaliza o
produto e corrobora o seu aperfeiçoamento é o próprio trabalhador,
transformado em colaborador que faz parte de uma equipe e é
responsável e responsabilizado diretamente pelos resultados da
empresa.

Nesse
contexto, foram de suma importância para o desenvolvimento dos
conceitos do toyotismo as escolas da Administração
Estratégica, hegemônica no final dos anos 1970, e o seu conceito de
core business, e também a Administração Empreendedora,
dominante no final da década de 1980, que estimulou e
profissionalizou uma vasta rede de micro e pequenos negócios,
preparando-os para servirem às grandes corporações.

Não
há nenhuma novidade na busca capitalista pelo resultado —
a busca racional pelo lucro, segundo Weber (2004).
O fordismo, sob as condições de racionalização propiciadas
pelo desenvolvimento tecnológico no início do século XX,
principalmente nos EUA, tornou-se o pioneiro na articulação
entre coerção capitalista e consentimento da classe
trabalhadora. De certo modo, o modelo flexível deu continuidade ao
processo de racionalização capitalista com os
novos avanços tecnológicos do início da década de 1970,
principalmente por meio da tecnologia da informação e da
comunicação, que possibilitaram a reestruturação organizacional.
Os entusiastas desses modelos flexíveis de gestão, como John
Naisbitt (1982) e Alvin Toffler (1980), acreditavam
que a superação do fordismo pelos conceitos
do toyotismo nos levaria a uma sociedade mais democrática
para além dos muros e das paredes das grandes fábricas.

Hoje,
no entanto, a realidade daqueles que vivem do trabalho evidencia que
tais previsões estavam equivocadas e que o que temos é uma
sociedade mais desigual do que no período fordista, seja
nos países centrais ou periféricos, com raras exceções. Em outras
palavras, o toyotismo, como uma das frentes fundamentais do avanço
do neoliberalismo, especializou-se em reestruturar e
exteriorizar sem perder o foco no objetivo principal da empresa, a
partir da cooptação dos trabalhadores e do gerenciamento de uma
vasta rede de terceirizados. Logrou-se atribuir ritmos intensos em
condições precárias de trabalho sem a total consciência do
trabalhador e de grande parte da rede de terceiros.

A
gestão uberizada

Depois
da gestão fordista e toyotista, é a vez de a
empresa Uber emprestar o seu nome para denominarmos o novo
paradigma da gestão contemporânea: a empresa uberizada.

Nesse
novo processo de reestruturação organizacional, as empresas inovam
a partir de conceitos da economia de plataforma, também conhecida
como economia compartilhada e economia do bico.

Na
realidade, um processo de radicalização do projeto toyotista de
ajuste à demanda, exteriorização do trabalho e subjetivação. Se
o modelo japonês logrou em transformar o trabalhador em colaborador,
agora, por meio dos conceitos da economia do compartilhamento,
eis que surge o consumidor, colaborador e chefe: uma nova morfologia
do trabalho que borra as fronteiras entre consumo e trabalho, entre o
que é trabalho e o que não é, entre trabalhador e consumidor,
entre o trabalho e o bico (Abílio, 2017), entre
trabalhador-empreendedor.

Um
modelo que se espalha por todo o mundo são as milhares de
iniciativas como a TaskRabbit, a Zazcar, a Parkingaki,
a Holidog e a famosa Airbnb. Essa última, uma empresa
que presta serviço para pernoite e que nunca construiu um hotel nem
mesmo contratou um profissional de turismo, já é a maior rede de
prestação desse tipo de serviço no mundo. Fundada em 2009, a
empresa oferece 1,2 milhão de vagas por noite, 500 mil vagas a mais
do que a maior rede de hotéis do mundo, a InterContinental (Slee,
2017). Já a norte-americana Taskrabbit, conhecida por oferecer
serviços rápidos domésticos e para escritórios, como montagem de
móveis, limpeza, pequenas reformas entre outros, não para de
aumentar o seu número de clientes. No Brasil, a Zazcar tem
feito sucesso: mesmo sem nunca ter comprado um automóvel, oferece
carros de aluguel de pessoas que não estão sendo utilizados –
veículos on demand, segundo a própria empresa.
A Parkingaki faz o mesmo, não possui estacionamento e
também não contrata nenhum manobrista, mas oferece, “em um
click”, vagas em garagens para locação mensal ou de apenas
algumas horas. Outra conhecida empresa brasileira presente na
economia do compartilhamento é a Holidog. A organização é
uma espécie de Airbnb para cachorros, onde você pode
encontrar pessoas dispostas a receber e hospedar o seu “amigão”
enquanto você viaja.

São
empresas que se beneficiam de forma criativa dos avanços
tecnológicos, promovidos e guiados pelo capital, “destroem”
mercados tradicionais através de estratégias que consideram apenas
a ética dos negócios, sem levar em conta as relações,
inclusive legais, que estabelecem com as comunidades onde estão
inseridas, sejam com os seus concorrentes, consumidores, fornecedores
ou trabalhadores.

No
âmbito do consumo, os chamarizes das empresas da economia do
compartilhamento, como apontou a pesquisa, já não tão recente,
da PWC, realizada em 2015 nos EUA, são: o preço, a
eficiência e sua “pegada” ecológica. Segundo a PWC,
44% dos americanos já estavam familiarizados com o termo da economia
do compartilhamento. Destes, 86% confirmaram o menor custo dos
serviços e produtos oferecidos pelas empresas uberizadas. Já
83% respaldaram os benefícios e a eficiência dos serviços
prestados, e 76% concordaram que a economia compartilhada é
uma opção “mais ecológica” ante o mercado tradicional. Afinal,
para que uma furadeira se o que precisamos são apenas furos? Para
que um carro se o que precisamos é apenas nos deslocar?

Por
outro lado, as empresas uberizadas logram a conquista de
corações e mentes amargurados da classe trabalhadora,
os partners – desempregados ou empregados
precarizados em busca de um complemento para a sua renda ou de um
ambiente menos despótico. As empresas da economia do
compartilhamento navegam nas oportunidades que a sociedade do
trabalho, em crise, oferece: consumidores em busca de baixo preço e
trabalhadores em situação de desespero.

Economia
compartilhada

A economia
compartilhada não é apenas um modelo organizacional, é um
conceito e uma ferramenta que pode ser apropriado por qualquer
empresa em qualquer setor – indústria ou serviço, tradicionais ou
digitais. É uma plataforma digital que ultrapassa a esfera da
comunicação (sites, blogs, e-mail, mensagens de texto e redes
sociais) e da venda (e-commerce) e se insere na contribuição e na
cooperação da fabricação do produto ou da prestação do serviço.

Mesmo
empresas tradicionais da era digital como
a Microsoft oferecem aos seus consumidores ajuda de outros
clientes experts que trabalham gratuitamente para a empresa. Rádios,
jornais e TVs solicitam informações e notícias dos seus próprios
ouvintes, leitores e telespectadores, como, por exemplo, a revista
norte-americana Time. A revista cede espaços em seu site para
que os clientes colaboradores gratuitamente contribuam com conteúdo.
Em 2007, a gigante farmacêutica Novartis utilizou o
conceito de open innovation, promovido por Henry
Chesbrough, da Universidade de Berkeley, para avançar em suas
pesquisas sobre a diabetes tipo 2. O laboratório disponibilizou
grande parte da sua pesquisa de três anos para domínio público e
solicitou em contrapartida e gratuitamente o trabalho de cientistas e
empresas do mundo todo (Tapscott, Willians, 2010).

Para
que contratar profissionais se temos milhares de pessoas disponíveis
para trabalhar gratuitamente ou quase? Essa é uma prática conhecida
e já amplamente explorada há décadas pelos bancos e pelas fábricas
de móveis, em que tais empresas transferem parte do trabalho para o
cliente, seja por meio do sistema internet banking ou do
‘monte você mesmo’ o seu mobiliário, criado pela empresa de
móveis sueca Ikea. As tradicionais e conhecidas Natura e Avon,
entre tantas outras empresas, nunca contrataram um profissional de
vendas, utilizam-se das suas próprias clientes como “consultoras”
(na prática, simplesmente vendedoras) (Abílio, 2017).

Outra
antiga do mundo digital, a Amazon, cada vez mais se insere
na economia do compartilhamento por meio de empresas como
a Flex, um serviço de entregas que usa pessoas comuns, e não
funcionários treinados, para entregar caixas e pacotes nos EUA.
Ela também lançou o Home Services, que localiza encanadores,
pintores, montadores de móveis, entre outros serviços. Outro
serviço na linha da economia do compartilhamento é a loja
online Handmade at Amazon, em que produtos artesanais e caseiros
são ofertados e distribuídos (Scholz, 2017). A indústria não fica
atrás no processo de reestruturação, exteriorização e
comprometimento dos consumidores. A impressora 3D promete transformar
o setor industrial. Assim, além de montarmos os móveis em casa, a
impressora 3D permitirá a finalização de inúmeros produtos em
nossas próprias residências. Steve Vincent (2011)
denominou esse tipo de trabalho de voluntary emotional
labour (trabalho voluntário emocional).

Cooperativismo
de plataforma

A
terceirização e a produção em rede foram para o toyotismo o
que novo consumidor, agora, como parceiro empreendedor, está sendo
para as empresas uberizadas: a possibilidade de se reduzir ainda
mais o custo da mão de obra. As constantes reestruturações
organizacionais transformam a morfologia do trabalho, e dos seus
resultados derivam as principais implicações para a degradação
das condições de vida, dada a precarização crescente das
condições de trabalho. São reestruturações que se inserem na
própria dinâmica do capitalismo do século XXI. Portanto, as novas
formas de organizar e de remunerar a força de trabalho fazem com que
a regularidade do assalariamento formal e a garantia dos direitos
sociais e trabalhistas sejam reduzidas drasticamente (Abílio,
2017; Fleming, 2017; Pochmann, 2017) e nos obriguem a
indagar: que tempos são esses em que ser explorado e ter um trabalho
formal tornou-se um privilégio?

Rafael
Zanata (2017), Trebor Scholz (2017), Tom
Slee (2017), entre outros, entendem que as plataformas de
compartilhamento não são novidades, são apenas grandes
classificados digitais, em que pessoas que precisam de um bem ou
serviço encontram os que possam oferecê-los por intermédio de
grandes empresas. Portanto, o intermediário que possibilita esse
encontro de troca deveria ser o menos importante nesse elo. Para
contrapor essa lógica, os autores propõem que os/as próprios/as
trabalhadores e trabalhadoras desenvolvam as suas plataformas, com a
ajuda de prefeituras, sindicatos e iniciativas autônomas. Já são
centenas de trabalhadores e trabalhadoras que desenvolvem o que
chamam de cooperativismo de plataforma, valendo-se da autogestão
e do cooperativismo.

O cooperativismo
de plataforma pretende ressignificar os conceitos de inovação,
tecnologia e eficiência tendo em vista o benefício de todos, e não
de poucos proprietários e acionistas. Tal proposta assemelha-se
à Economia Solidária, desenvolvida no Brasil pelo
economista Paul Singer. São plataformas como a de serviço de
transporte realizado pela Transunion Car Service de Newark,
a Bliive, em São Paulo, e a Coopify, de Nova
York, na conexão entre pessoas da mesma comunidade com o objetivo de
trocar competências e conhecimentos, a Cooperative Cleaning,
de Nova York, onde as trabalhadoras da limpeza residencial e
comercial criaram a sua própria plataforma, ou mesmo, a La’Zooz,
de Tel Aviv, que atua na oferta de caronas dentro da cidade. São
diversos exemplos de iniciativas similares pelo mundo como contrapeso
aos modelos de negócios da Uber, Airbnb e tantas
outras.

Um
contrapeso importante, mas não nos iludamos. As cooperativas e as
empresas autogestionárias, no sistema capitalista, sofrem
inúmeras desvantagens que não caberia levantá- las neste momento.
Não é difícil perceber que também na economia
compartilhada a alternativa pelo cooperativismo será,
assim como no mercado tradicional, importante, mas de pequena
expressão. São alternativas à heterogestão que podem também se
beneficiar das plataformas de compartilhamento. São importantes
à resistência ao capital, mas não são suficientes para que sejam
consideradas constitutivas de mudanças na estrutura de reprodução
sociometabólicas do capital (Mészáros, 2002).

Destarte,
o modelo que se alastra mundo afora é o da Uber, pois dá
sequência à lógica da reestruturação contínua do sistema
capitalista que permite a momentânea superação das suas
crises, propiciando novamente o excedente de capital. No entanto, as
relações de trabalho nas organizações fordistas, e mesmo nas
toyotistas, valorizam, no limite, o trabalhador e a garantia de uma
dose de direitos, com destaque para a previdência social.
O uberismo marca o retorno das condições de trabalho
semelhantes àquelas praticadas antes das conquistas da classe
trabalhadora. Ou seja, estamos diante da recapitulação da economia
de bico – um “negócio da China” para os “neopatrões”.

Com informações de Brasil de Fato.

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