Antes de a cidade se chamar João Pessoa, antes do cinema e muito antes de televisão, streaming ou redes sociais, moradores da antiga Parahyba já se reuniam diante de um palco.
Um registro de 1831 aponta para a existência do Coliseu Paraibano, uma iniciativa particular instalada na Rua da Areia e considerada uma das primeiras casas de espetáculo conhecidas da Capital. Quase dois séculos depois, a cidade tem desde um teatro de 100 lugares ligado à Universidade Federal da Paraíba até uma sala com quase 3 mil poltronas capaz de receber grandes produções.
Entre um extremo e outro estão teatros que atravessaram mudanças políticas, reformas urbanas, períodos de abandono e transformações nos hábitos do público. Alguns sobreviveram. Outros existem hoje apenas em fotografias, documentos e na memória de quem chegou a ocupar suas cadeiras.
Neste sábado, 19 de setembro, quando o país celebra oficialmente o Dia Nacional do Teatro Acessível: Arte, Prazer e Direitos, a trajetória desses espaços ajuda a contar também uma parte da própria história de João Pessoa. A data foi instituída pela Lei nº 13.442, de 2017, com atenção especial à inclusão e à acessibilidade nas atividades cênicas.
Muito antes do Santa Roza
O levantamento histórico mostra que o teatro pessoense não começou no prédio que hoje domina parte da paisagem da Praça Pedro Américo.
Pesquisa acadêmica sobre a arquitetura da antiga Parahyba registra que, em 1831, funcionava na Rua da Areia o chamado Coliseu Paraibano, de iniciativa privada. Trinta anos depois, em 1861, surgiria o Ginásio Paraibano, associado ao ator e empresário teatral José de Lima Penante.
O nome de Lima Penante atravessaria mais de um século. Uma dissertação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) confirma que, antes mesmo da construção do Santa Roza, o artista já mantinha o Ginásio Paraibano e desempenhava papel central na movimentação teatral da cidade.
O desejo por uma casa de espetáculos de maior porte levaria, em 1873, à construção de outro teatro pela Sociedade Dramática Santa Cruz. Problemas financeiros interromperam as obras. O empreendimento acabaria incorporado pelo poder público e daria origem ao edifício que se tornaria o principal símbolo teatral da Capital.
Santa Roza atravessou três séculos
O Theatro Santa Roza foi inaugurado em 3 de novembro de 1889, apenas 12 dias antes da Proclamação da República. Na primeira noite, o palco recebeu o drama O Jesuíta ou O Ladrão de Honra, de Henrique Peixoto.
Hoje com 412 assentos, o prédio de características neoclássicas conserva camarotes e revestimentos internos de madeira e está entre os equipamentos culturais mais antigos de João Pessoa ainda destinados à função para a qual foram construídos.
Sua história extrapolou as artes cênicas. Nas primeiras décadas do século XX, o Santa Roza também funcionou como cineteatro. O edifício recebeu ainda acontecimentos políticos que entraram para a história paraibana, entre eles a sessão de 4 de setembro de 1930 na qual foi aprovada a mudança do nome da Capital de Parahyba para João Pessoa.
Há uma curiosidade importante em torno da antiguidade da casa. Documentos institucionais da Funesc ainda apresentam o Santa Roza como o teatro mais antigo da Paraíba. Registros históricos mais recentes, porém, apontam o Teatro Minerva, em Areia, inaugurado em 1859, como mais antigo. Por isso, a definição mais segura para o Santa Roza é a de teatro mais antigo de João Pessoa e um dos mais antigos do país ainda em atividade.
Em agosto de 2025, o prédio foi reaberto depois de uma intervenção de restauro e manutenção que durou cerca de 18 meses. A Funesc voltou a disponibilizar a casa para apresentações e mantém agenda de reserva de pauta para 2026, confirmando a continuidade de sua atividade cultural.
Lima Penante transformou uma pequena sala em laboratório teatral
Se o Santa Roza representa a tradição dos grandes teatros do século XIX, o Teatro Lima Penante, no Centro, está ligado a outra etapa da cena pessoense: a aproximação entre teatro, universidade, pesquisa e formação de artistas.
A casa foi inaugurada em 8 de fevereiro de 1980, na Avenida João Machado, nº 67, resultado de um convênio entre a UFPB e o então Serviço Nacional de Teatro. Dois anos depois seria formalizado o Núcleo de Teatro Universitário (NTU).
A sala tem perfil intimista. Pesquisa de Sanzia Marcia Pessoa, apresentada ao mestrado profissional do Iphan, registra capacidade em torno de 100 espectadores, dois camarins e palco com pouco mais de 74 metros quadrados. A peça que inaugurou o espaço foi A Noite de Matias Flores, escrita por Marcos Tavares e dirigida por Fernando Teixeira.
Ao longo das décadas, o Lima Penante se consolidou não apenas como local de apresentação, mas como espaço de ensaio, formação, documentação e encontro da comunidade artística. O estudo do Iphan caracteriza o NTU como equipamento de atuação relevante na formação teatral de João Pessoa e na preservação da memória das artes cênicas locais.
Espaço Cultural criou dois novos palcos nos anos 1980
Outro ponto de transformação ocorreu em 1982, com a inauguração do Espaço Cultural José Lins do Rego, em Tambauzinho.
Dentro do complexo funcionam dois palcos com propostas diferentes: o Teatro Paulo Pontes e o Teatro de Arena Leonardo Nóbrega.
O Paulo Pontes tem 660 lugares e palco do tipo italiano. Depois de uma grande reforma iniciada em 2013, recebeu novas poltronas, equipamentos de som e iluminação e adaptações de acessibilidade. A estrutura atual dispõe de 14 espaços destinados a cadeirantes e seis poltronas para pessoas com necessidades específicas. Em 2026, segue recebendo teatro, dança, música, festivais e outros eventos.
Já o Teatro de Arena Leonardo Nóbrega rompe com o modelo de palco fechado. Com área de 689 metros quadrados e capacidade declarada para 1.000 pessoas, o espaço utiliza placas acústicas móveis e aproxima público e artistas. Também foi inaugurado em 1982.
Os nomes dos dois equipamentos homenageiam dramaturgos paraibanos: Paulo Pontes, autor e diretor ligado à renovação do teatro brasileiro, e Leonardo Nóbrega, que atuou como ator, diretor e dramaturgo.
Um teatro construído por um homem de teatro
Em Manaíra, outra história foge do modelo dos grandes equipamentos públicos.
O Teatro Ednaldo do Egypto nasceu do projeto pessoal do ator, autor e teatrólogo que lhe dá nome. Com a ajuda de amigos, Ednaldo construiu a própria casa de espetáculos na Avenida Maria Rosa. O espaço foi inaugurado em 27 de março de 1995, data em que se celebra o Dia Mundial do Teatro.
Pesquisa acadêmica da UFPB registrou uma plateia com capacidade para cerca de 170 pessoas, característica que ajudou a manter uma relação mais próxima entre palco e público.
A sobrevivência da casa chegou a ser motivo de mobilização do setor cultural. Em 2023, o imóvel foi reconhecido oficialmente como Patrimônio Cultural de João Pessoa. Em janeiro deste ano, a Prefeitura anunciou a conclusão da compra do teatro, incorporando definitivamente o imóvel ao patrimônio municipal.
O espaço continua sendo utilizado. Em junho de 2026, por exemplo, recebeu uma cerimônia promovida pela rede municipal de ensino.
Pedra do Reino mudou a escala dos espetáculos
A mudança mais radical em termos de tamanho veio em 5 de agosto de 2015.
Naquela data, foi inaugurado o Teatro Pedra do Reino, última grande estrutura entregue dentro do Centro de Convenções de João Pessoa. O nome é uma referência à obra de Ariano Suassuna, escritor e dramaturgo nascido na Capital.
A estrutura atual possui 2.924 lugares, distribuídos entre plateia e balcão. São mais de 11 mil metros quadrados de área construída e cerca de 840 metros quadrados destinados ao palco e às coxias. A dimensão permite receber montagens, concertos e eventos que dificilmente caberiam nas salas tradicionais da cidade.
O contraste ajuda a mostrar a diversidade da estrutura teatral pessoense: dentro da mesma cidade, o espectador pode assistir a uma montagem para uma centena de pessoas no Lima Penante ou integrar uma plateia quase 30 vezes maior no Pedra do Reino.
A cena não cabe apenas nos grandes teatros
A rede de espaços cênicos de João Pessoa não se limita às seis casas mais conhecidas.
O Teatro Sesc, no Centro de Cultura, Arte e Esporte, segue recebendo programação em 2026. Nesta semana, por exemplo, foi utilizado pelo Ministério da Cultura para atividades da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura.
No bairro do Roger, o Centro Cultural Piollin ocupa outro lugar fundamental nessa história. Sua origem remonta a 1977, quando artistas ligados a Luiz Carlos Vasconcelos, Everaldo Pontes e Buda Lira criaram uma experiência que associava produção teatral, experimentação artística e formação de crianças e adolescentes. Uma dissertação da UFPB dedicada à instituição registra sua importância como experiência de educação não formal e produção cultural durante os últimos anos da ditadura militar e o início da redemocratização.
O Centro Cultural Piollin continua aparecendo em registros oficiais de atividades culturais de João Pessoa em 2026, embora sua trajetória tenha alternado períodos de maior e menor utilização de sua sala teatral.
Há ainda espaços multifuncionais capazes de receber artes cênicas. O Centro Cultural Ariano Suassuna, mantido pelo Tribunal de Contas do Estado em Jaguaribe, possui auditório com mais de 400 lugares e infraestrutura para encenações. E, em abril deste ano, o Cemapi, equipamento da rede municipal de ensino, ganhou um teatro com capacidade para 200 pessoas.
Cine-Teatro Plaza: quando cinema e palco dividiam o mesmo endereço
Entre os teatros que desapareceram da paisagem urbana está um dos espaços de entretenimento mais importantes da João Pessoa do século XX.
O Cine-Teatro Plaza foi inaugurado em 11 de setembro de 1937, no antigo Ponto de Cem Réis. Documentos do próprio jornal A União publicados naquela época registram uma casa com 1.125 lugares, além de palco preparado para receber espetáculos — uma escala considerável para a cidade da década de 1930. (A União – Jornal, Editora e Gráfica)
O local recebeu não apenas filmes. Em 29 de maio de 1946, por exemplo, foi palco do concerto inaugural da formação que daria origem à Orquestra Sinfônica da Paraíba, reunindo 50 instrumentistas.
O Plaza desapareceu, mas permaneceu na memória de gerações que frequentaram o Centro quando cinema, música e teatro dividiam as mesmas grandes salas.
Juteca levou o palco para o bairro
Se Santa Roza e Plaza estavam associados ao Centro, a Juventude Teatral de Cruz das Armas, a Juteca, mostrou que a produção teatral também podia nascer distante dos equipamentos tradicionais.
Criada nos anos 1960, a Juteca é apontada em registros históricos como o primeiro teatro de bairro de João Pessoa. O espaço foi construído com participação de moradores e esteve associado a nomes como Geraldo Jorge, Ednaldo do Egypto e Zezita Matos. (A União – Jornal, Editora e Gráfica)
A história teve um desfecho diferente da do Santa Roza. Depois de décadas de abandono e sucessivas tentativas de recuperar o prédio, uma reportagem de A União publicada em 2024 constatou que a antiga sede havia sido reformada e transformada em residência. O palco deixou de existir fisicamente, mas sua experiência permanece como referência de descentralização cultural na cidade.
Cilaio Ribeiro também saiu de cena
Outro nome que marcou a segunda metade do século XX foi o Teatro Cilaio Ribeiro, instalado no antigo Grupo Escolar Thomas Mindello, na Avenida General Osório, no Centro.
O antigo auditório do prédio foi adaptado para receber o teatro, inaugurado em dezembro de 1987 por iniciativa ligada à Federação Paraibana de Teatro Amador. O espaço recebeu festivais, espetáculos e apresentações musicais.
Com cerca de 60 lugares em uma das configurações registradas, a sala deixou de funcionar como teatro em 2005 e passou a integrar a estrutura do Centro Cultural Thomas Mindello.
Sua história mostra uma característica recorrente dos palcos pessoenses: nem sempre o desaparecimento de um teatro ocorre com a demolição do prédio. Às vezes, o edifício permanece, mas a função que deu identidade ao lugar deixa de existir.
Uma história feita também de resistência
O conjunto desses espaços revela que a história teatral de João Pessoa nunca foi uma linha contínua de inaugurações.
Houve prédios abertos e fechados, teatros transformados, campanhas para impedir demolições, longos períodos de reforma e grupos que passaram a encenar em escolas, igrejas, galpões e até na rua quando ficaram sem uma sala disponível.
A própria trajetória do Teatro Lima Penante registra diferentes reformas e momentos de ameaça à continuidade do equipamento. A pesquisa desenvolvida no Iphan identifica o espaço não apenas como um prédio destinado a espetáculos, mas como um lugar de memória, associado à formação de artistas e à construção da identidade da comunidade teatral pessoense.
É uma definição que também ajuda a compreender os outros palcos da cidade.
Do desaparecido Coliseu Paraibano da Rua da Areia ao quase tricentenário Centro Histórico — onde o Santa Roza permanece de portas abertas —, da experiência comunitária da Juteca aos 2.924 lugares do Pedra do Reino, os teatros de João Pessoa guardam mais do que cenários, cortinas e poltronas.
Guardam diferentes momentos da cidade e das pessoas que decidiram subir a um palco para contar uma história — e das que se sentaram diante dele para assistir.
Neste 19 de setembro, a própria denominação oficial da data acrescenta um desafio a essa memória: fazer com que esses palcos não apenas sobrevivam, mas sejam espaços aos quais diferentes públicos possam efetivamente ter acesso.

