João Pessoa: a cidade que nasceu no rio e cresceu em direção ao mar

Conheça o Rio Paraíba, que ajudou a moldar a história da cidade, e o roteiro que leva visitantes a vivenciar a natureza e as tradições às margens do rio

Yasmim Pessoa
Yasmim Pessoa
Jornalista formada há quase 10 anos pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), com trajetória em jornalismo político, hard news e mídias digitais, integra atualmente a equipe do portal TH+ João Pessoa. Curiosa e atenta aos movimentos do cotidiano, encontra no universo latino uma de suas principais inspirações. Acredita na rebeldia da comunicação como força para contar histórias, informar com responsabilidade e dar visibilidade a diferentes vozes.
Foto: Arquivo Pessoal/Maryellen Bãdãrãu

Fundada em 5 de agosto de 1585, há 441 anos, a cidade de João Pessoa não nasceu voltada para o mar, com as demais capitais brasileiras banhadas pelo Oceano Atlântico. A então Cidade Real de Nossa Senhora das Neves nasceu às margens do Rio Sanhauá, afluente do Rio Paraíba, em uma área que hoje corresponde ao Porto do Capim, na região que atualmente conhecemos como o bairro do Varadouro, onde os primeiros sinais de ocupação e urbanização deram início à história da capital paraibana.

Seu primeiro nome foi uma homenagem à santa celebrada na data de sua fundação: Nossa Senhora das Neves, que se tornou a padroeira da capital paraibana. Atualmente chamada João Pessoa, a capital paraibana é considerada a terceira cidade mais antiga do Brasil.

Por que a cidade nasceu longe do mar?

Outra particularidade de João Pessoa é que ela já nasceu como uma cidade estratégica e defensiva. E isso tem relação com o Rio Paraíba, que também dá nome ao estado, e ocupa papel fundamental na história da capital.

Rio Paraíba | Foto: Divulgação/Criativa Turismo

Segundo a historiadora Cinthia Rodrigues, a escolha do Rio Paraíba pelos colonizadores portugueses para dar início à ocupação da cidade fazia parte de uma estratégia de defesa militar contra invasores estrangeiros. O rio funcionava como uma barreira natural, protegida por fortes e construções como a Casa da Pólvora, instalada no Varadouro.

“Estar no mar, estar com a frente voltada ao mar, a cidade surgir por ali deixava muito mais fácil aos ataques dos povos estrangeiros que os portugueses consideravam invasores. E no Rio não. Essas navegações teriam que adentrar ao rio e se deparar com as construções”, disse a historiadora.

O Rio Paraíba como motor da economia

Com cerca de 380 quilômetros de extensão, o Rio Paraíba nasce em Monteiro, na Serra da Jabitacá, e deságua no Oceano Atlântico entre Cabedelo e Lucena. Ao longo do percurso, atravessa diversos municípios paraibanos e teve papel fundamental no transporte, no comércio e no desenvolvimento econômico da região.

Ainda conforme a historiadora, diferentemente da navegação em mar aberto, navegar por um rio exige conhecimento específico do percurso. Dessa forma, a então cidade de Nossa Senhora das Neves foi estruturada para dificultar o avanço de invasores atraídos pela importância econômica da região. Desde a fundação, a localidade já apresentava potencial para gerar riqueza, e a disputa pelo controle desse território entre portugueses, franceses e holandeses contribuiu para moldar sua história. 

E toda essa riqueza circulava pelo Rio Paraíba. Segundo Cinthia Rodrigues, o rio foi, durante séculos, a principal via de transporte da produção local. 

“A economia tem essa relação com o Rio Paraíba porque, por muitos anos, ele é o meio de transporte por onde se escoa, principalmente, a cana-de-açúcar, depois o algodão e até mesmo a madeira. Então, ele foi o grande meio para que a nossa economia flua”, acrescentou.

Da ocupação à expansão urbana

Com a economia movimentada pelo rio, surgiu a necessidade da criação de portos. Em torno dessas estruturas, novas comunidades, com comércio e espaços de convivência, começaram a se formar, impulsionando a expansão urbana. Foi assim que João Pessoa cresceu, deixando as margens do Rio Paraíba para, ao longo dos séculos, avançar em direção ao mar. 

Vista do Rio Paraíba para a cidade de João Pessoa | Foto: Arquivo Pessoal/Maryellen Bãdãrãu

Apesar do crescimento urbano e da expansão da cidade impulsionada pelas rodovias, a historiadora destaca que o Rio Paraíba continua exercendo um papel importante na vida da população. Atualmente, além de ainda ser utilizado para a pesca, por exemplo, o rio permanece como um espaço de resistência para as comunidades ribeirinhas que vivem às suas margens. Além disso, seu estuário abriga o Porto de Cabedelo, o único porto da Paraíba, cuja localização e funcionamento estão diretamente ligados às características naturais do Rio Paraíba.

Para Cinthia Rodrigues, a relevância histórica do Rio Paraíba não deve ser esquecida, já que foi ele o eixo em torno do qual se desenvolveu a identidade do estado e de sua capital.

 “O Rio Paraíba, na verdade, pode ser confundido com a própria história. É o nome do estado, é o nome que já foi a capital, não é só o meio de locomoção, é o caminho por onde se escreveu as páginas do que a gente hoje chama de história”, concluiu.

Conheça o Rio Paraíba

Quem deseja conhecer de perto a história e a importância do Rio Paraíba pode percorrer o roteiro turístico Encantos do Rio Paraíba. Com embarque na Praia do Jacaré, em Cabedelo, o passeio percorre trechos do Rio Paraíba até a Ribeira, em Santa Rita, passando por manguezais, ilhas e comunidades ribeirinhas. Durante o trajeto, os visitantes conhecem o trabalho das marisqueiras, visitam a Ilha da Restinga, experimentam a gastronomia local em Forte Velho e participam de atividades ligadas à cultura popular.

Roteiro “Encantos do Rio Paraíba” | Foto: Arquivo Pessoal/Maryellen Bãdãrãu

Mário Murta, fundador da Criativa Turismo, agência responsável pela operação do roteiro, frisa que o principal diferencial da experiência está na valorização da cultura e das comunidades locais. Ele conta que o passeio é realizado em canoas típicas da região, proporcionando uma vivência mais próxima da realidade dos moradores ribeirinhos e diferente dos roteiros turísticos convencionais.

“Essa troca torna o roteiro diferente. Deixa de ser um passeio apenas para tirar fotos para o Instagram e passa a ser uma experiência de vivência”, afirmou.

Além das paisagens naturais, o passeio inclui experiências como banho de rio, apresentações de grupos de coco de roda e contato com a culinária típica da região. De acordo com Murta, a diversidade do roteiro também surpreende moradores da própria Região Metropolitana de João Pessoa.

Visitantes interagindo com o coco de roda | Foto: Arquivo Pessoal/Maryellen Bãdãrãu

“Muita gente que mora em João Pessoa e já fez esse passeio nos diz que ficou encantada e não fazia ideia de que existia uma experiência dessa natureza tão perto de onde vive”, relatou.

O roteiro foi desenvolvido em parceria entre o Sebrae-PB, a Empresa Paraibana de Turismo (PBTur), a Secretaria de Turismo de Cabedelo (Setur Cabedelo), o Fórum Rota Sanhauá, a Criativa Turismo e a Secretaria de Estado do Turismo e do Desenvolvimento Econômico (SETDE). A experiência já foi reconhecida pelo Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), ao integrar a plataforma Feel Brasil, voltado à promoção de experiências turísticas no mercado internacional.

Mario atribui o reconhecimento ao trabalho colaborativo com todos os atores locais envolvidos, como barqueiros, marisqueiras e produtores gastronômicos, que, em suas palavras, são os verdadeiros responsáveis pela conquista. Para ele, a premiação ampliou a visibilidade do projeto, mas o principal objetivo continua sendo fortalecer o turismo de experiência sem perder de vista a preservação da cultura local.

Marisqueiros do Rio Paraíba | Foto: Arquivo Pessoal/Maryellen Bãdãrãu

“Nós acreditamos que o potencial é bem maior do que aquilo que se verifica neste momento. Então, é um trabalho que tem sido feito e continua a ser feito. E é claro que tudo isso ajuda a valorizar, a reconhecer as tradições das comunidades ribeirinhas, o seu modo de vida, às suas características, às suas tradições e tudo isso tem que ser mantido e, onde vai desaparecendo, tem que ser resgatado. Esse realmente é um dos pilares do nosso trabalho. Em conjunto, tanto com os atores locais, é exatamente o resgate das tradições e da cultura”, ponderou.

O roteiro é realizado periodicamente, conforme as condições da maré. Uma oportunidade de resgate da cultura, da tradição e de reconexão com o Rio Paraíba, o rio que ajudou a moldar a história de João Pessoa e de toda a Paraíba.

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