Nove anos sem Eliza Clívia: memorial na Paraíba mantém vivo o legado da ‘Rainha do Forró’

Carlos Rocha
Carlos Rocha
Nascido em 1988, em Guarulhos (SP), Carlos Rocha é filho de paraibanos e vive em João Pessoa desde o início dos anos 2000. Graduado em Administração de Empresas pela Faculdade Paraibana, ingressou posteriormente no curso de Jornalismo na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).Atua no jornalismo digital desde 2013, com passagens por importantes veículos de comunicação da Paraíba. Na TH+ SBT Tambaú, trabalhou nas áreas de Marketing, Reportagem e Produção de Conteúdo Multimídia.Sua atuação é voltada principalmente para política, cidades e temas de interesse público, sempre com foco na apuração rigorosa e na produção de conteúdo de qualidade. Além do jornalismo, é apaixonado por leitura, cinema, séries e cultura pop.

O silêncio que se instalou no forró eletrônico há exatos nove anos ainda é preenchido, diariamente, pelas lembranças deixadas por Eliza Clívia. No dia 16 de junho de 2017, o país se despedia precocemente da cantora paraibana, que aos 37 anos foi vítima de um violento acidente automobilístico em Aracaju (SE). Quase uma década após a tragédia, a voz que eternizou sucessos na banda Cavaleiros do Forró continua reverberando — agora, resguardada no interior de seu estado natal.

O Memorial: História viva no Cariri paraibano

Para os fãs e familiares, o ponto de partida para reviver a história da artista fica no município de Livramento, no Cariri da Paraíba, a cerca de 220 km da capital. É lá que funciona o Memorial Eliza Clívia, um espaço totalmente dedicado a preservar a identidade e o acervo físico construído ao longo de duas décadas de estrada.

O local transformou-se em um ponto de peregrinação cultural na região. Nas paredes e araras, o visitante encontra um mergulho na intimidade dos palcos: estão expostos ali os figurinos mais icônicos usados pela cantora em gravações de DVDs históricos, além de calçados, joias, prêmios, discos de ouro e fotografias raras da infância em Livramento até o auge da fama nacional.

Manter o acervo público foi a forma encontrada pela família para acolher o carinho do público, que anualmente visita a cidade na semana que marca as memórias de sua partida.

Da Paraíba para o topo do Brasil

Nascida em 14 de novembro de 1979, Eliza Clívia Angelino herdou a paixão pela música de seu pai, que era sanfoneiro na Paraíba. Seus primeiros passos profissionais aconteceram na vizinha cidade de Monteiro, na Big Banda.

O estrelato nacional veio em 2003, quando a cantora ingressou na banda potiguar Cavaleiros do Forró. Ao lado de Jailson Santos, Ramon Costa e Neto Araújo, Eliza liderou o período de maior projeção do grupo. Foram 10 anos como voz principal, registrando a gravação de 7 CDs e 4 DVDs. A interpretação dramática e potente na faixa “Minha Rainha” foi o que lhe rendeu, de forma definitiva, o apelido de “Rainha do Forró” entre os fãs do gênero eletrônico.

Após deixar o grupo em 2013, Eliza teve uma passagem marcante pelo Forró Cavalo de Aço. No início de 2017, decidiu seguir o plano de sua primeira turnê solo, intitulada “Eliza Clívia 20 Anos”. O projeto, contudo, foi brutalmente interrompido três meses após o lançamento.

Interior do memorial da artista, que fica na cidade de Livramento (PB)

O acidente e o desfecho das investigações

A tragédia que tirou a vida de Eliza Clívia ocorreu na tarde de uma sexta-feira, 16 de junho de 2017. A artista estava em Aracaju para cumprir agendas de divulgação em rádios e televisões locais.

O veículo em que a cantora estava, um Chevrolet Pálio, foi atingido lateralmente por um ônibus do transporte público no cruzamento entre as ruas Maruim e Arauá, na região central da capital sergipana. Eliza e seu marido, o baterista Sérgio Ramos, morreram na hora devido ao forte impacto. Outros três ocupantes do carro sobreviveram.

O inquérito instaurado pela Delegacia de Delitos de Trânsito de Aracaju e concluído em setembro daquele mesmo ano apontou culpa negligente ao condutor do veículo da artista, indiciado por homicídio culposo na direção de veículo automotor.

De acordo com as perícias técnicas do Instituto de Criminalística aplicadas à época, o motorista do carro invadiu a via preferencial ao desobedecer a sinalização obrigatória de “PARE”. Em depoimento, ele alegou que não conhecia a cidade e se guiava por um aplicativo de GPS no momento da colisão. O laudo também registrou que, embora o ônibus estivesse acima do limite de velocidade da via (trafegando entre 48 km/h e 62 km/h em um trecho de 30 km/h), o acidente teria sido inevitável devido ao tempo de reação restrito do motorista do coletivo após a invasão da pista.

Nove anos depois, a fragilidade do trânsito que calou uma das vozes mais potentes do Nordeste contrasta com a solidez de sua herança musical, protegida nos corações dos fãs e eternizada nas salas de seu memorial na Paraíba.

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