Operação investiga 399 benefícios do BPC e cumpre mandados em cidades paraibanas

Operação Duplo Espelho cumpriu dois mandados e investiga possível uso de dados falsos, múltiplas identidades e endereços divergentes; prejuízo de R$ 7,76 milhões é estimado e ainda depende da confirmação das suspeitas.

Carlos Rocha
Carlos Rocha
Nascido em 1988, em Guarulhos (SP), Carlos Rocha é filho de paraibanos e vive em João Pessoa desde o início dos anos 2000. Graduado em Administração de Empresas pela Faculdade Paraibana, ingressou posteriormente no curso de Jornalismo na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).Atua no jornalismo digital desde 2013, com passagens por importantes veículos de comunicação da Paraíba. Na TH+ SBT Tambaú, trabalhou nas áreas de Marketing, Reportagem e Produção de Conteúdo Multimídia.Sua atuação é voltada principalmente para política, cidades e temas de interesse público, sempre com foco na apuração rigorosa e na produção de conteúdo de qualidade. Além do jornalismo, é apaixonado por leitura, cinema, séries e cultura pop.

A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU) cumpriram nesta quinta-feira (24) dois mandados de busca e apreensão durante uma investigação sobre possíveis fraudes na concessão e manutenção de benefícios assistenciais no Sertão da Paraíba. Um dos mandados foi executado na Secretaria Municipal de Assistência Social de Marizópolis.

Batizada de Operação Duplo Espelho, a investigação identificou 399 benefícios com características consideradas sugestivas de fraude. Caso as irregularidades sejam confirmadas em todos eles, o prejuízo potencial aos cofres públicos pode chegar a R$ 646,7 mil por mês ou R$ 7,76 milhões por ano, segundo a PF.

Os valores representam uma estimativa e não significam que os 399 benefícios já tenham sido considerados fraudulentos.

O segundo mandado foi cumprido em Triunfo, também no Sertão paraibano, na residência de um servidor da Prefeitura de Marizópolis investigado pela operação.

Investigação mira dados do Cadastro Único

A Polícia Federal apura a possível inserção ou manutenção de informações falsas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) com o objetivo de viabilizar ou manter benefícios que não seriam devidos.

Entre as situações identificadas durante a análise estão, segundo a PF, o uso de CPFs extemporâneos, múltiplas identidades e endereços cadastrais divergentes.

Os investigadores buscam agora documentos, equipamentos e outros elementos que permitam esclarecer como os cadastros teriam sido produzidos ou modificados e quem teria participado das eventuais irregularidades.

A PF não detalhou publicamente quais critérios foram utilizados para classificar os CPFs como extemporâneos.

Servidor investigado atuaria no recadastramento

Segundo informações divulgadas após a operação pelo delegado Augusto Neto, chefe da Polícia Federal em Patos, o segundo alvo é um servidor da Prefeitura de Marizópolis que reside em Triunfo.

De acordo com a investigação, ele exerceria funções relacionadas ao recadastramento de beneficiários do BPC.

O servidor foi abordado quando saía da cidade e, posteriormente, os agentes seguiram para a residência dele para cumprir o mandado judicial.

Um celular, um computador e documentos foram apreendidos durante as diligências, segundo o delegado.

Não houve informação sobre prisão do investigado.

As ordens de busca foram expedidas pela 16ª Vara Federal da Seção Judiciária da Paraíba.

PF diz que suspeitas alcançam 399 benefícios

A investigação teve origem em uma análise de dados que identificou possíveis irregularidades em benefícios previdenciários e assistenciais destinados à população de baixa renda.

A partir do cruzamento das informações, 399 benefícios apresentaram características consideradas suspeitas.

O BPC garante o pagamento mensal de um salário mínimo a pessoas com deficiência e idosos com 65 anos ou mais que preencham os critérios socioeconômicos previstos em lei.

Para ter acesso ao benefício, o requerente e a família precisam estar inscritos e com as informações atualizadas no CadÚnico. A concessão e a manutenção do BPC, porém, são atribuições federais, com participação do INSS na análise do benefício.

Os municípios atuam na operação do Cadastro Único, incluindo atendimento às famílias e coleta e atualização de dados.

Prejuízo de R$ 7,76 milhões ainda é estimativa

A PF calcula que os 399 benefícios sob investigação poderiam representar pagamentos de aproximadamente R$ 646,7 mil a cada mês.

Em 12 meses, o montante chegaria a cerca de R$ 7,76 milhões.

Esse valor, contudo, só representaria prejuízo efetivo caso a investigação confirme que todos os benefícios analisados foram obtidos ou mantidos de forma irregular.

A própria Polícia Federal ressalta que a investigação está em andamento e que deve ser preservada a presunção de inocência dos investigados.

Prefeitura diz que vai colaborar com investigação

Após a operação, a Prefeitura de Marizópolis divulgou nota afirmando que está à disposição da Polícia Federal, da CGU e dos demais órgãos responsáveis pela investigação.

A gestão também ressaltou que os 399 casos apontados pela investigação são benefícios com indícios de irregularidades e não fraudes já comprovadas.

O município afirmou ainda que o Cadastro Único é utilizado por diferentes programas sociais e que cabe às administrações municipais realizar atividades como atendimento às famílias, coleta, inclusão e atualização das informações.

No caso específico do BPC, a Prefeitura destacou que a concessão, manutenção, revisão, suspensão e encerramento do benefício são de competência dos órgãos federais.

A administração municipal afirmou que a realização de buscas em instalações públicas não permite, por si só, concluir que exista responsabilidade do município, da gestão ou de agentes públicos e disse que adotará medidas administrativas caso irregularidades funcionais sejam comprovadas.

A Secretaria Municipal de Assistência Social é comandada por Léia Gomes de Brito Braga, primeira-dama de Marizópolis. Até a última atualização, não havia informação de que ela fosse alvo pessoal da investigação.

O que a Operação Duplo Espelho apura

Benefícios analisados: 399

Possível irregularidade: inserção ou manutenção de dados falsos no CadÚnico

Outros indícios investigados: múltiplas identidades, endereços divergentes e CPFs considerados extemporâneos

Mandados de busca: 2

Cidades: Marizópolis e Triunfo

Um dos locais das buscas: Secretaria Municipal de Assistência Social de Marizópolis

Prejuízo potencial mensal: R$ 646,7 mil

Prejuízo potencial anual: R$ 7,76 milhões

Situação: investigação em andamento; valores e irregularidades ainda dependem de confirmação

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