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A nostálgica Semana Santa de Machado de Assis

O imaginário religioso e a identidade do brasileiro

Machado de Assis | Foto: https://www.machadodeassis.net/cronologia - Reprodução

Paira sobre a Semana Santa sempre um certo ar de nostalgia. Juntamente com os ritos sacramentais, que são cumpridos por grande parte da população brasileira, os devotos acabam recordando de hábitos cotidianos que acompanhavam as cerimônias. Do Domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa, acompanhados dos atos devocionais, é comum, portanto, lembrarmo-nos de almoços na casa dos avós ou tios; da sensação de ir, na quinta-feira, quando criança, à missa noturna de Lava-pés; do jantar em família no Sábado de Aleluia, geralmente mais alegre do que o almoço; e de outros momentos que fizeram com que essa semana ganhasse um ar de brasilidade.

O imaginário religioso brasileiro nos serve aqui, portanto, como fator de identidade. As práticas, quando contadas, soam como se fossem típicas de um passado compartilhado, ainda que estejam nas narrativas presentes essa ou aquela particularidade. Observar essas convenções e rotinas passadas nos ajuda a entender um pouco sobre como chegamos até aqui e do que somos formados como nação. Acerca da Semana Santa propriamente, poucos conseguiram narrar esse sentimento brasílico como Machado de Assis.

Em sua coluna semanal à Gazeta de Notícias, publicada todo domingo entre 1892 e 1897, intitula “A Semana”, o célebre romancista passou a refletir, em formato de crônica jornalística, sobre o cotidiano do país recém republicanizado. Ao narrar o contexto da Semana Santa de 25 de março de 1894, o cronista lançou mão de um tom cético e irônico, porém nostálgico – entendido por alguns como crítica à república – para descrever os novos hábitos do país. Com a segunda e a terça-feira tediosas, a semana, quando entrava na quarta-feira, tornava-se novamente cerimoniosa, composta de ofícios, procissões, sermões elaborados que levavam os devotos ao silêncio lutuoso. Em contraste e oferecendo uma conclusão narrativa, o Sábado de Aleluia entregava novamente o clima alegre, e a vivacidade retornava por completo no Domingo de Páscoa.

Porém, Machado de Assis não dedicou essa coluna sobre a Semana Santa para seu leitor contemporâneo. Escreve como uma provocação a uma geração que ainda iria começar no século 20 e não conheceria as cores e o movimento do país que o cronista experimentara durante a monarquia. Comparou, assim, os dois períodos do Brasil: “A semana foi santa, mas não foi a semana santa que conheci, quanto tinha a idade dos mocinhos nascidos depois da guerra do Paraguai”. Ilustrou essa ideia, ainda, descrevendo as semanas santas como já tendo sido muito mais marcantes, com ramos mais verdes e maiores do que aqueles vistos pelo autor no Domingo de Ramos durante os poucos anos de república: “Verdadeiramente já não há verde. O verde de hoje é um amarelo escuro”.

Lembra o autor, ademais, que as procissões eram mais cheias, de forma que não se via o final das filas. As missas eram assistidas por muitos jovens, enquanto a velhice ainda era pouca. Os devotos se reuniam em grande quantidade para acompanhar, fosse pelas ruas ou fosse pelas janelas das casas, os andores, as tochas, as Marias-Beús[1] e outros elementos que marcavam a cerimônia. Essa última, descreve Assis, era uma mistura de fé e curiosidade, um convite à contemplação das luzes, dos cantos e dos adornos. Em comparação, no tempo da república, as celebrações encontravam-se esvaziadas e envelhecidas. de forma que ritos particulares – como desfiar rosários ou rezar por livros – tomaram o lugar da contemplação coletiva.

Por fim, juntamente com o saudosismo e a nostalgia ligada à Semana Santa, Machado de Assis vê na resignação religiosa o hábito mais comum do brasileiro. Durante a missa da Sexta-feira da Paixão, em que se lia como prática devocional popular o Sermão da Montanha, o autor destacou uma epifania. Seriam aqueles que se afligiam pelo sofrimento dos inocentes e sofriam com as injustiças do mundo, bem-aventurados se fossem mansos e humildes. A característica do brasileiro diante de um futuro republicano seria, pois, ser resignado e conformado, tendo como virtude a esperança na providência.

[1] Personagem no teatro religioso que representa Verônica na procissão da Sexta-feira da paixão.

**A coluna não expressa, necessariamente, a opinião do Grupo Thathi de Comunicação

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