Em um país de dimensões continentais como o Brasil, nem sempre é simples para gestores municipais encontrar políticas públicas bem-sucedidas implementadas em cidades distantes para, quem sabe, adaptá-las à sua própria realidade. Essa identificação agora pode ficar mais fácil, graças ao Sonar Municipal. Criada por Thiago Ambiel, aluno do Bacharelado em Ciência de Dados e bolsista de Iniciação Científica do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), da USP, em São Carlos, a plataforma web oferece uma ferramenta prática para apoiar a gestão e a elaboração de políticas públicas baseadas em evidências. Para acessar, clique aqui.
Para usar a ferramenta, o usuário só precisa digitar alguma pergunta no campo destinado ou clicar nas sugestões, por exemplo: “Como diminuir evasão escolar no ensino médio?” ou “Como reduzir a violência urbana em bairros centrais?” A partir disso, o Sonar Municipal busca em sua base de dados por textos semanticamente parecidos, agrupa e faz recomendações de ação. De acordo com Thiago, a ferramenta funciona como se fosse um Google para leis municipais, com o benefício de que o “politiquês” comum em textos de lei chega ao usuário traduzido para frases objetivas, como por exemplo: “Criar programa de combate à pichação” ou “Implantar iluminação em áreas de risco”. “Isso facilita a compreensão para quem está buscando por soluções para determinado problema ou questão de sua cidade”, destaca o aluno do ICMC.
A ferramenta permite filtrar ações por estado, município e também escolher diferentes janelas de tempo (seis ou até 36 meses), para observar em quanto tempo após a implementação da medida houve resultados mais consistentes.
Além disso, o sistema foi integrado com dois indicadores reais:
- Taxa de homicídios por 100 mil habitantes, com base em dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) do Ministério da Justiça;
- Taxa de matrículas no ensino regular por 100 mil habitantes, calculada a partir dos microdados do Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).
Segundo o aluno, essa comparação com dados reais serve para medir a eficácia e o impacto concreto de uma política pública após sua implementação. “A plataforma utiliza esses indicadores para definir o que é um efeito positivo. Se o indicador de homicídios caiu ou o de matrículas subiu, o algoritmo entende que a política foi eficaz e aumenta a nota daquela sugestão”, esclarece.
Por outro lado, Thiago ressalta que não é possível afirmar com certeza a causalidade entre o projeto adotado e a diminuição da criminalidade, por exemplo. “O sistema consegue identificar tendências. Se vários municípios aplicaram uma política semelhante e tiveram melhora no indicador, isso vira um sinal relevante para quem está buscando soluções”, explica.

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Para ele, a plataforma supre uma lacuna importante na gestão municipal brasileira. “Hoje não existe um ambiente unificado onde você possa pesquisar o que outros municípios já fizeram para resolver determinado problema. Muitas vezes a solução já foi testada em outro lugar, mas não é facilmente encontrada”, observa.
Como o projeto foi desenvolvido
O Sonar Municipal nasceu dentro da rede Inteligência Artificial Recriando Ambientes (Iara), coordenada pelo professor André Ponce Leon Ferreira Carvalho, diretor do ICMC e orientador de iniciação científica de Thiago. A iniciativa integra o projeto internacional Artificial Intelligence for Pandemic and Epidemic Preparedness and Response (AI4PEP), que financia pesquisas voltadas ao uso de inteligência artificial (IA) para enfrentar desafios sociais relevantes na área da saúde.
De acordo com Thiago, a criação da ferramenta partiu de um pedido do professor André, com quem ele desenvolve pesquisas desde o início da graduação. “Ele me pediu para desenvolver um sistema de recomendação de políticas públicas para resolver problemas gerais, que fosse algo prático e acessível. Foi então que eu desenvolvi o algorítimo”, destaca.
O graduando desenvolveu o projeto em aproximadamente quatro meses, realizando uma técnica chamada raspagem de dados, em que foi possível copiar as informações de mais de 220 mil projetos de lei disponíveis nos sites das prefeituras. Após essa etapa, ele usou um modelo de IA para transformá-las em uma recomendação de ação, linkando-as com indicadores do mundo real.

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“Por exemplo, no dia 10 de março de 2024, foi proposto um projeto de lei para instalar iluminação na rodoviária de um município. Eu cruzo essa informação com o indicador de criminalidade local e observo quantos crimes eram registrados por mês antes da implementação. Se, após seis meses, a taxa de crimes cair 20%, o sistema registra essa associação”, explica o graduando.
De acordo com Thiago, não foi possível incluir dados de todas as prefeituras do País, porque algumas utilizam sistemas próprios, ou seja, versões adaptadas de softwares como o Sistema de Apoio ao Processo Legislativo (SAPL), onde os projetos de lei são publicados. Nesse caso, as variações técnicas dificultam a extração automatizada dos dados. Ainda assim, o Sonar Municipal reúne atualmente informações padronizadas de mais de 300 municípios brasileiros.
“Quanto mais dados a gente consegue incluir, melhor o sistema fica. Mas mesmo com esse conjunto já é possível identificar padrões interessantes”, afirma Thiago.
Para ele, a experiência foi também uma formação prática completa, em que ele pode desenvolver desde o algoritmo à construção da interface, passando pela identidade visual e pela estruturação do banco de dados. “Foi como desenvolver um produto do zero. A gente aprende muita coisa técnica na graduação, mas transformar isso em algo acessível e útil para a sociedade é outra etapa. E é muito gratificante”, afirma.
A expectativa agora é que, com a divulgação do projeto, gestores públicos possam testar a plataforma em contextos reais.
Acesse a plataforma Sonar Municipal clicando aqui.
**Por Jornal da USP



