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Uma história em quadrinhos para entender a conflito no Irã

“Persépolis”, o contexto da revolução de 1979

Foto: Divulgação

“Persépolis” é uma autobiografia de Marjane Satrapi, romancista e ilustradora franco-iraniana, focada em contar a história da revolução de 1979 no Irã por meio da visão de uma menina de 10 anos. A história em quadrinhos, publicada entre 2000 e 2004, oferece uma perspectiva sobre os acontecimentos políticos e sociais ocorridos no país desde a queda do Reza Pahlevi até a instalação do governo dos aiatolás. Marji, a protagonista, é uma criança que busca dar sentido aos acontecimentos que presencia ou ouve dos pais, Ebi e Taji, liberais adeptos ao comunismo e inicialmente favoráveis à revolução contra o imperialismo anglo-iraniano.

Na história, as interpretações políticas e culturais da menina se unem, formando diferentes enredos. Primeiramente, Marji narra que a antiga tradição persa ainda fazia parte do cotidiano da população e de sua família através de rituais folclóricos – como a festa do fogo e a celebração da primavera – ou de figuras do imaginário religioso do Zoroastrismo – religião monoteísta tradicional da Pérsia antiga. Ao defender esses traços culturais, a protagonista indica, de modo sutil, a existência de certo ressentimento dos iranianos contra os árabes, alimentada pela memória histórica da queda do Império Sassânida diante da expansão do islã no século 7.

Essa ofensa histórica, que não é um sentimento exclusivo da criança, mas parece ser compartilhado socialmente, encontra vazão nas visões políticas dos pais. Adeptos ao comunismo, Ebi e Taji educam sua filha a partir do materialismo dialético. Para Marji, isso significava liberdade contra o regime do Xá e início do processo de democracia no país. Porém, conforme a protagonista ia se aprofundando nas ideias políticas, afastava-se de suas tradições religiosas e culturais a pronto de, no fim, não saber bem em nome de quais valores defendera a revolução quando criança.

Tais percepções e aprendizados de Marji são acompanhados por eventos históricos marcantes para a formação do Irã contemporâneo. Em primeiro lugar, a descrição da história da monarquia moderna iraniana. Seguindo a tendência de outras nações no início do século 20, o primeiro Reza Xá Pahlevi chega ao poder em 1926 com a intenção de fundar uma democracia, mas teria sido influenciado, conta o pai de Marji, pelos ingleses a manter o império e a garantir a extração de petróleo. Deposto em 1941, no contexto da Segunda Guerra Mundial, seu filho Mohammad Reza Pahlevi assume o governo com a proposta de modernizar o Irã por meio de reformas profundas. A falta de êxito nas reformas levou esse último a confrontar-se tanto com aqueles que desejavam a ocidentalização, quanto com a população islâmica xiita.

Os conflitos gerados pelos embates políticos ficam mais claros à medida que a protagonista relata as notícias sobre as manifestações contrárias ao rei. Chega ao ponto marcante de Marji descrever a “sexta-feira negra” de 1978. Seguindo o exemplo de seus pais, a menina foge escondida para se manifestar contra a desigualdade de classe a favor da queda do rei. Ocorreu que o protesto foi fortemente reprimido pelo exército do Xá, matando diversos manifestantes na Praça Jaleh, em Teerã. Seguido de meses de conflito, em 1979, Reza Pahlevi renunciou e se exila, dando início ao governo xiita.

O desfecho da revolução, que começou de forma comemorativa pela família de Marji, foi logo seguido por um governo de perseguição e violência. A imposição das leis religiosas contrapunha-se às antigas tradições persas. A liberdade em que acreditavam os pais, Ebi e Taji, desencadeou novos conflitos bélicos entre Irã e Iraque.

Parte da guerra que acompanhamos em 2026 naquele território, ainda se liga ao desfecho da revolução de 1979 narrada em “Persépolis”. A ruptura diplomática dos aiatolás, somada ao confronto interno entre a tradição persa, a modernidade ocidental e o islamismo xiita, aumenta a complexidade do conflito atual entre Estados Unidos e Irã. Ali, para além do interesse econômico em torno do petróleo, a oposição histórica entre duas culturas – a persa e islâmica –, bem como o contraste entre modernidade ocidental e estrutura política oriental, também marcarão as próximas fases desses conflitos.

**A coluna não expressa, necessariamente, a opinião do Grupo Thathi de Comunicação  

 

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