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Dois sermões sobre o Carnaval e a Quaresma

O eterno enredo político do Brasil

Imagem gerada por IA

No texto ‘Sermãozinho de Cinzas’, publicado em 1992 no jornal Folha de S. Paulo, Otto Lara Resende, conhecido jornalista brasileiro do século passado, fez duas comparações sobre o início e o fim do carnaval.  Na primeira comparação, recorrendo ao cronista Lúcio Rangel, Resende lançou luz sobre o espírito amador que ainda se via na festa carnavalesca. Ressaltou que, antes de ser profissionalizado com escolas de samba, o Carnaval tinha certa espontaneidade popular que mantinha a graça do festejo. Esse espírito amador, deixa claro o autor, ganhava ainda mais beleza com o contraste entre a alegria coletiva dos dias de festas e a tristeza solitária anunciada pela Quarta-Feira de Cinzas.

Aproveitando-se dessa comparação, Resende aprofunda a reflexão e aponta que o contraste entre a alegria e a tristeza do carnaval popular profissional refletia sobretudo o espírito político do Brasil. Para o autor, além de descrever todo o evento como um espetáculo, o país era uma mistura de: “Pobreza e riqueza, luxo e miséria. Desperdício, ostentação, gastos inúteis, lantejoulas e ouropéis. Asas à fantasia, alienação, busca das raízes. Confraternização de raças, de bicheiros e policiais, de autoridades e bandidos”.

Em oposição a isso, durante o período quaresmal de luto e penitência que se inicia na Quarta-feira de Cinzas, Otto Resende viu também uma tristeza própria da estrutura política, isto é, a nudez das gentes de poder, “nudez explícita de um governo que começou com um abre-alas tão arrogante. Bandalheira de alto nível”, considerando tudo “uma baixaria só”.

Porém, a situação do Brasil apresentada pelo jornalista não era típica somente nos anos 90. Um dos mais influentes sacerdotes da Companhia de Jesus no século 17, Pe. Antônio Vieira, conhecido por ser grande orador e sermonista, já havia, em diversas oportunidades, utilizado as reflexões sobre a Quaresma e a Quarta-feira de Cinzas como forma de observar os costumes brasileiros e narrar alguns aspectos políticos da colônia.

No “Sermão da Primeira Dominga da Quaresma”, pregado na cidade de S. Luís do Maranhão, em 1653, o padre confessou que por muitas vezes cogitara não voltar a pregar na cidade por conta do tamanho dos pecados em que vivia a nação. Contudo, pelo dever de pregador e por força de promessa, decidira voltar ao púlpito para dizer a verdade aos habitantes da cidade.

No decorrer da pregação, o jesuíta indicou que muitos viviam no Brasil de forma desajustada, cometendo injustiças e longe da graça. De maneira especial, ao defender a liberdade dos índios da região, comparou o governo daquelas terras ao governo dos Faraós do Livro de Êxodo. Voltando-se à reflexão sobre a Quaresma e afirmando a importância da penitência para a remissão dos pecados, Pe. Antônio Vieira indicou a promoção da liberdade como jejum àquelas pessoas: “Maranhão![1] Qual é o jejum que quer Deus de vós esta quaresma? Que solteis as ataduras da injustiça, e que deixeis ir livres os que tendes cativos e oprimidos.”

Dessa forma, em dois sermões sobre o Carnaval e Quaresma, autores separados por séculos narraram o mesmo enredo para o brasileiro. O Brasil seria uma república em que falta castigo àqueles que cometem delitos e onde se condenam aqueles que mereceriam a misericórdia. Sobre seu povo, este viveria no eterno contraste entre a exposição e a alegria do carnaval com o luto e a penitência da Quaresma.  No primeiro caso fica exposta a condescendência dos brasileiros com os desvios; no segundo, a esperança da nação de algum dia poder, após algum sacrifício, corrigi-los.

[1] Vale destacar que a região do Maranhão do século XVII compreendia grande parte do Norte e Nordeste do atual país.

***A coluna não expressa, necessariamente, a opinião do Grupo Thathi de Comunicação 

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