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Pesquisa mostra que pílula do dia seguinte é o segundo método mais utilizado por adolescentes

Segundo especialistas, a contracepção de emergência é um método que deve ser usado apenas eventualmente para a prevenção da gravidez indesejada

A pílula do dia seguinte dificulta qualquer processo que possa resultar numa fecundação | Foto: Unsplash

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024 (Pense), divulgada pelo Ministério da Saúde, revelou que a contracepção de emergência (CE), conhecida como pílula do dia seguinte, é o segundo método contraceptivo mais utilizado para prevenir a gravidez na adolescência, mesmo se tratando de um método contraceptivo indicado para situações específicas, emergenciais. Cristiane Cabral, professora do Departamento de Saúde e Sociedade da Faculdade de Saúde Pública da USP, explica como o método funciona.

“A gente chama [a pílula do dia seguinte] de contracepção de emergência, ela é para ser usada de modo eventual em casos de falha de outro método, como, por exemplo, uma camisinha que não foi usada ou estourou, ou em casos de violência sexual. A pessoa pode não estar em uso de outro tipo de método contínuo. Tecnicamente, funciona basicamente de dois modos: mudando a consistência do muco cervical para dificultar a motilidade do espermatozoide e do próprio óvulo e impedindo a fecundação. Ela também impede o processo de ovulação ou o posterga em vários dias se utilizada em tempo oportuno. Em resumo, a CE dificulta qualquer processo que pudesse resultar numa fecundação.”

Por que a pílula do dia seguinte é tão utilizada?

Alexandre Faisal, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, explica as possíveis razões para a pílula ser tão utilizada entre adolescentes.

“Nós podemos pensar em algumas possibilidades, a primeira explicação antecede o uso da pílula, que é a alta taxa de falha regular de método contraceptivo. Temos que pensar que, principalmente em população adolescente, mas não exclusivamente, eventualmente a relação sexual não é planejada e tem a questão do momento e são muitos os que, eventualmente, não estão preparados para essa relação inesperada. Podemos imaginar que, dentro de um grupo de adolescentes que namoram, também há uso irregular do método. Caso um dia não possa contar, por exemplo, com uma camisinha, ou, eventualmente, esquecer de usar o método oral. A segunda explicação é como esse acesso à contracepção de emergência é fabricado, mesmo sem uma prescrição médica, e, frequentemente, os adolescentes sabem do método por si próprios, por indicação dos amigos ou até mesmo dos profissionais de saúde ou familiares. Eu entendo que essa facilidade do acesso pode estar contribuindo para que esse método seja muito frequente.”

Cristiane explica os prós e contras da pílula estar sendo utilizada com frequência entre adolescentes. “De certa forma é bom, porque significa que os(as) adolescentes estão preocupados(as) com a prevenção de uma gravidez. Geralmente, a gente faz confusões alarmistas de que os(as) adolescentes não estão preocupados com essas consequências da vida sexual, mas eles e elas estão. A contracepção de emergência está sendo utilizada porque ela previne uma gravidez indesejável e, portanto, previne que a gente jogue as adolescentes seja no itinerário de um aborto clandestino, seja no destino de uma maternidade em um momento que não estava prevista.”

O que não se deve fazer após o uso da pílula?

A professora explica que, após a utilização da pílula do dia seguinte, alguns hábitos devem ser evitados. “Há um exagero quando se fala dos efeitos colaterais. Os estudos mostram para a gente que não tem tanto efeito colateral assim. Todos os métodos hormonais têm efeito colateral, absolutamente todos, e a contracepção de emergência não ficaria de fora, mas as proporções de efeitos colaterais não são coisas absurdas ou muito graves. Aproximadamente 10% a 15% das pessoas podem ter algum desconforto, mas ele é autolimitado. Falando de cuidados para se ter, a única coisa que eu penso seria evitar o álcool, porque a pessoa pode passar mal por conta do uso elevado (alcoolemia) e vomitar o comprimido que ingeriu.”

“Voltando para a dimensão de pensar na prevenção de gravidez, é importante procurar ajuda de especialista para introduzir comportamentos ou práticas de contracepção de modo habitual na vida. No outro cenário de uso possível, que é o do contexto de violência sexual, tem todos os protocolos do que se deve fazer em caso de violência sexual, que não é só apenas o uso da contracepção de emergência. Em casos de violência sexual, há um protocolo de serviço de apoio à vítima, que não vai ser apenas a contracepção de emergência, também vai incluir a PEP e outras ações específicas”, comenta Cristiane.

O cenário atual da gravidez na adolescência

Faisal reforça que os números indicam que uma grande parcela das gestações não é planejada. “É importante pensar que a gente vive quase uma epidemia de gestação não planejada entre mulheres, incluindo adultas. Alguns estudos apontam 50% das gestações como não planejadas e esse número é ainda maior em adolescentes, tem estudos falando em 80% a 85%. É nesse contexto que se encaixa a contracepção de emergência. Eventualmente nós vamos ter um cenário de gestantes adolescentes que planejaram e que queriam aquilo como meio de vida, seja por uma identificação precoce com a maternidade, histórico familiar ou uma motivação para uma aceitação social em um determinado contexto social. Temos esse cenário de gestação planejada entre jovens e adolescentes, mas a grande maioria não é isso.”

Fonte: IBGE

De acordo com Cristiane, há um decréscimo nas taxas de fecundidade no Brasil, sobretudo no seguimento de 15 a 19 anos. “Precisamos dos resultados da próxima Pesquisa de Demografia e Saúde (PNDS) para compreender em que medida este decréscimo deve ser atribuído ao uso da contracepção de emergência. De todo modo, acho que devemos valorizar o aspecto positivo que os dados da Pense nos mostram, que é a busca de maior controle sobre a capacidade reprodutiva, mesmo que seja com a CE”, finaliza a professora.

**Por Jornal da USP 

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