Pesquisadores do Serviço de Retina e Vítreo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP receberam o Prêmio Roberto Abdalla Moura – Melhor Tema Livre Experimental, durante a 50ª edição do Congresso Retina 2026, no final do mês de abril.
O estudo premiado foi: Quimioterapia intra-arterial com melfalano como terapia neoadjuvante para melanoma de coroide: resultados preliminares de um estudo clínico fase 1. Nesse estudo, o melfalano (agente quimioterápico) foi administrado por um cateter diretamente na artéria oftálmica (vaso que leva sangue até o olho) antes da radioterapia com placa radioativa de Rutênio. Segundo os pesquisadores, ainda em resultados preliminares, o estudo demonstrou que o melfalano pode ser uma possível alternativa futura para redução do câncer em pacientes com tumores maiores, viabilizando a realização da braquiterapia e uma tentativa de preservação do globo ocular. “A técnica se mostrou segura para o corpo, sem efeitos colaterais graves. Estudos maiores ainda são necessários para uma análise mais aprofundada”, relatam os pesquisadores.
O trabalho integra a linha de pesquisa desenvolvida pelo Serviço de Tumores Oculares do HCFMRP, que comemora 11 anos de atividades, vinculado ao Setor de Retina e Vítreo, referência nacional em Oncologia Ocular e tratamento conservador de tumores intraoculares. O grupo atua principalmente em casos de melanoma de coroide, retinoblastoma e outras doenças raras da retina, com foco em terapias capazes de preservar o olho e, sempre que possível, a visão dos pacientes. Nesse contexto, o grupo utiliza há mais de cinco anos a braquiterapia [técnica que emprega placas radioativas posicionadas junto ao tumor para destruir as células cancerígenas], sendo um dos poucos serviços do País a oferecer esse tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o coordenador do Setor de Retina e Vítreo, professor Rodrigo Jorge, o HCFMRP é, atualmente, a instituição que mais realiza braquiterapia para o Sistema Público de Saúde no Brasil.
Além da assistência pelo SUS, o serviço também se destaca pela formação de especialistas e pela produção científica em terapias inovadoras na área.
Segundo informações divulgadas pelo grupo nas redes sociais, o estudo premiado representa mais um passo no desenvolvimento de abordagens minimamente invasivas para tumores oculares avançados, especialmente em pacientes que antes tinham indicação predominante de retirada do globo ocular. A estratégia busca ampliar as possibilidades terapêuticas e reduzir impactos funcionais e estéticos do tratamento.
Congresso Retina
Promovido anualmente pela Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo, o evento reúne especialistas nacionais e internacionais da área da retina, com o objetivo de promover atualização científica de excelência, troca de experiências e integração entre os profissionais. O Congresso Retina é considerado o principal encontro científico da especialidade na América Latina.
Participaram do estudo premiado Gabriela Mousse De Carvalho, responsável pela pesquisa, Henrique Bartholomeu Trad Souza, Victor Bellanda, André Vieira Messias, Kelvin Ferrari Corniani, Carlos Matheus Messias Remigio e Zelia Maria Correa, sob orientação do professor Rodrigo Jorge, do Departamento de Oftalmologia, Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço da FMRP. O grupo contou ainda com a colaboração de Joacy David, Daniel Abud e Diego Fonseca.
Histórico de premiações
O reconhecimento recebido em 2026 consolida uma sequência de premiações obtidas pelo Serviço de Oncologia Ocular do HCFMRP no Congresso Retina ao longo dos últimos anos. Em 2023, a médica Letícia Audi recebeu o Prêmio Suel Abujamra pelo trabalho sobre descolamento seroso de retina secundário à quimioterapia intra-arterial para retinoblastoma. Em 2024, João Victor Notini Arcanjo foi premiado por estudo envolvendo hemangioma de coroide tratado com metoprolol intravítreo.
Já em 2025, o serviço conquistou dois reconhecimentos: um com o Arthur Sampaio Zupelli, em relato de caso sobre braquiterapia em criança com síndrome de Sturge-Weber, e outro novamente com João Victor Notini Arcanjo, em pesquisa sobre braquiterapia com Rutênio associada à termoterapia transpupilar para melanoma de coroide.
De acordo com documento institucional do grupo, a sequência de premiações evidencia a consolidação do HCFMRP como um dos principais centros de pesquisa e inovação em Oncologia Ocular da América Latina. Atualmente, o hospital é o serviço que mais realiza tratamentos com placas radioativas pelo SUS no Brasil e na América Latina.
**Por Jornal da USP


