A pesquisa de mestrado A paisagem sonora de cães em residências urbanas brasileiras, da jornalista Ana Alice Vercesi Gallo, recruta tutores de cães para investigar como os ruídos urbanos afetam o comportamento, o sono e o bem-estar dos animais. O estudo é desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, e tem a orientação da professora Patricia Monticelli.
A participação ocorre por meio de um questionário on-line, que pode ser respondido neste link. Podem participar tutores com 18 anos ou mais e que tenham cães residentes em Ribeirão Preto ou região. A preferência é por animais com acesso ao interior da casa, mas cães que circulam entre áreas internas e externas também podem integrar o estudo. A participação é voluntária, leva cerca de 10 minutos e não há respostas certas ou erradas, apenas a experiência cotidiana de quem divide a vida, e o barulho da cidade, com seus cães.
O instrumento é dividido em quatro etapas. Na primeira, são coletadas informações gerais e socioeconômicas dos tutores, fundamentais para contextualizar os dados. Em seguida, há uma etapa dedicada à percepção do tutor sobre os barulhos no entorno da residência. A terceira parte trata especificamente do cão, abordando suas reações aos ruídos. Por fim, o questionário investiga aspectos relacionados ao sono do animal, um dos pontos centrais da pesquisa, já que o barulho interfere diretamente na capacidade de descanso, tanto dos humanos quanto dos cães.
Objetivos
O foco da pesquisa é a chamada “paisagem sonora”, conceito que reúne todos os sons presentes em um ambiente. No contexto das residências urbanas, isso inclui principalmente os barulhos produzidos pela própria cidade: trânsito, máquinas, equipamentos urbanos e demais ruídos gerados pela atividade humana. Se esses sons já comprometem o bem-estar das pessoas, como perda auditiva, que é uma das grandes preocupações da Organização Mundial da Saúde (OMS), o impacto sobre os cães tende a ser ainda maior, já que eles possuem sensibilidade auditiva muito superior à humana, tanto em frequência quanto em intensidade.
Os cães são os animais que mais convivem com ruídos urbanos além dos humanos. Ao longo de milhares de anos de domesticação, aprenderam a se adaptar à rotina humana, mas isso não significa que o barulho cotidiano seja inofensivo. Segundo a pesquisadora, estudos anteriores já apontaram efeitos negativos do ruído sobre animais silvestres, animais mantidos em cativeiro e também sobre cães em ambientes urbanos. “O que esta pesquisa pretende é aprofundar essa análise, reunindo dados comportamentais, informações sobre sono e indicadores fisiológicos de estresse.”
Segundo a pesquisadora, compreender a percepção dos tutores é essencial. São eles os responsáveis pelo manejo, pelo ambiente e pelo bem-estar dos animais. “Muitas vezes, o tutor se acostuma ao barulho da cidade, enquanto o cão segue reagindo com estresse, dificuldade de descanso ou alterações comportamentais. Sem essa percepção, dificilmente há mudanças no ambiente doméstico.”
Para a pesquisadora, os resultados podem ter impactos que vão além do ambiente familiar. “Problemas relacionados a latidos e ruídos estão entre as principais causas de conflitos entre vizinhos, devolução de animais e abandono, o que coloca o tema também no campo da saúde pública. A pesquisa dialoga com o conceito de Uma Só Saúde, que entende como interligadas a saúde do ambiente, dos animais e das pessoas.”
O objetivo final é que os dados obtidos sirvam de base para orientar tutores a repensar rotina, manejo e ambiente, além de embasar, em uma segunda fase do estudo, intervenções voltadas à melhoria do bem-estar de cães que vivem em ambientes ruidosos. “A expectativa é que os resultados também contribuam para reflexões mais amplas, como políticas públicas, planejamento urbano e arquitetura, beneficiando não apenas animais domésticos, mas outros animais não humanos que convivem com o ruído nas cidades. Em um país com uma das maiores populações de animais de estimação do mundo, o tema tende a ganhar cada vez mais relevância.”
**Por Jornal da USP



