Apesar dos preconceitos históricos e das polêmicas que cercam o uso recreativo da maconha, a última quarta-feira marcou um passo histórico para a saúde pública no país. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou uma resolução que define novas regras para o cultivo da cannabis medicinal no Brasil, ampliando o acesso e as possibilidades de seu uso terapêutico. A medida é uma vitória da racionalidade sobre o estigma e representa um avanço significativo no tratamento de doenças graves, oferecendo esperança concreta e qualidade de vida a milhares de famílias brasileiras.
A cannabis, planta originária da Ásia, carrega em sua composição substâncias como o CBD e o THC que, quando utilizadas de forma ética e responsável, tornam-se aliadas fundamentais no manejo de quadros complexos. Estudos ao redor do mundo comprovam sua eficácia não apenas no controle da ansiedade e depressão, mas como ferramenta vital no tratamento de epilepsia, esclerose múltipla, fibromialgia, Alzheimer e Parkinson, especialmente naqueles casos em que a medicina convencional já não oferece respostas satisfatórias.
Com o novo pacote de resoluções, o cultivo passa a ser permitido para pessoas jurídicas, como empresas, universidades e associações legais, exclusivamente para fins farmacológicos. O texto também amplia o perfil de pacientes beneficiados: se antes o uso era restrito a cuidados paliativos, agora ele se estende a quem convive com doenças crônicas e graves. Ao normatizar toda a cadeia — do plantio ao frasco —, a Anvisa cria um ambiente seguro para o florescimento da ciência nacional.
Com a mudança, a produção passa a ser restrita ao teor de até 0,3% de THC, um aumento de 0,1% no que era anteriormente permitido, e o local deverá passar por inspeção prévia e apresentar vigilância 24 horas por dia. Além disso, passam a ser incluídas as administrações por vias dermatológicas, sublingual e bucal que segundo evidências científicas podem aumentar a biodisponibilidade das substâncias, além de evitar sua passagem pelo fígado.
É inevitável que o debate sobre a cannabis acabe esbarrando em juízos de valor e questões morais. No entanto, enquanto nação que busca o progresso, não podemos fechar os olhos para o alívio que esse medicamento proporciona. Desvincular a cannabis da ideia exclusiva de droga psicoativa e olhá-la à luz da ciência é um ato de maturidade social. É garantir que o acesso à saúde não seja impedido por tabus, mas guiado pela responsabilidade e pelo cuidado com a vida.
Ao detalhar regras para o cultivo e incentivar modelos associativos, a Anvisa busca responder de maneira soberana ao aumento da demanda e à crescente necessidade de produção de conhecimento científico dentro das nossas próprias fronteiras. No fim das contas, ao assumir o controle e a segurança sobre essa cadeia produtiva, o Estado reforça que a ciência, quando despojada de tabus e orientada pela responsabilidade social, permanece sendo a nossa ferramenta mais potente para transformar o sofrimento humano em uma jornada de cuidado e dignidade.

