“THE MOMENT”: CHARLI XCX TRANSFORMA O COLAPSO POP EM CINEMA

Existe algo profundamente cansado dentro de The Moment. E isso é um elogio.

Fabrício Correia
Fabrício Correia
Fabrício Correia é jornalista, escritor, professor universitário, especialista em Acessibilidade, Diversidade e Inclusão. É crítico de cinema, membro da Academia Brasileira de Cinema e apresenta o programa “Vale Night” na TV Thathi SBT.
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O novo filme de Charli XCX não tenta romantizar a fama, nem construir aquela velha narrativa da estrela vulnerável que aprende lições bonitas no fim da jornada. O longa dirigido por Aidan Zamiri prefere outro caminho: mostrar o pop como uma engrenagem de ansiedade, vaidade, branding e desgaste emocional. 

Em The Moment, Charli interpreta uma versão distorcida dela mesma durante o auge da era Brat, pressionada pela gravadora, por campanhas publicitárias absurdas e pela obrigação de transformar autenticidade em produto infinito. O filme imagina uma realidade paralela em que o fenômeno “Brat Summer” se torna uma prisão estética. 

O mais interessante é que Charli não atua como cantora tentando virar atriz. Ela parece alguém expondo a própria exaustão diante da câmera. Há um desconforto real em sua presença. Os silêncios funcionam mais do que os diálogos. O olhar perdido nos bastidores, a irritação seca diante de executivos, a sensação de sufocamento em ambientes lotados: tudo transmite a impressão de que ela compreende intimamente o vazio daquela indústria. E talvez compreenda mesmo.

A direção de Zamiri acerta ao evitar glamour excessivo. A fotografia granulada, os corredores frios, os enquadramentos claustrofóbicos e a trilha de A. G. Cook criam um filme que parece um ataque de pânico iluminado por luzes de LED. 

Alexander Skarsgård surge muito bem como um diretor egocêntrico e invasivo que transforma a protagonista em objeto artístico enquanto diz admirá-la. O personagem funciona como símbolo perfeito de uma indústria que vende “liberdade criativa” enquanto tenta controlar cada gesto de uma artista. 

Mas The Moment também carrega defeitos claros. Em alguns trechos, o filme parece apaixonado demais pela própria estética. Certas cenas se alongam sem necessidade, e a sátira da cultura pop poderia ser mais cruel, mais afiada, mais perigosa. Parte da crítica internacional apontou justamente essa hesitação do roteiro em ir até o fim da própria provocação. 

Ainda assim, há algo fascinante na obra. O filme entende uma verdade contemporânea: artistas pop já não vivem apenas a fama. Vivem a obrigação permanente de performar uma versão consumível de si mesmas. The Moment transforma isso em linguagem cinematográfica.

No fundo, não é um filme sobre música. É sobre desgaste emocional transformado em conteúdo. Sobre continuar sorrindo enquanto tudo dentro de você pede silêncio.

E Charli XCX, talvez pela primeira vez, parece menos interessada em ser ícone e mais interessada em mostrar o preço de virar um.

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