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Air celebra duas décadas do seu primeiro disco ‘Moon Safari’ e volta aos palcos

BARCELONA, ESPANHA (FOLHAPRESS) – Dentro de um cubo branco, em trajes finos e alvos, cercados de teclados e sintetizadores antigos e guitarras e um baixo mais velhos ainda, os franceses Jean-Benoît Dunckel e Nicolas Godin sobem como extraterrestres ao palco. A música do duo, mais conhecido como Air, também soa alienígena. Não porque pareça vir de outro planeta, mas por parecer humana demais agora.

De volta aos palcos em turnê, o Air foi a atração principal do Sónar, um dos mais importantes festivais de música eletrônica do mundo, que ocorreu no último fim de semana em Barcelona. O duo retomou a estrada com o álbum “Moon Safari”, de 1998, disco seminal que os posicionou tanto entre os grandes da música eletrônica quanto da música francesa, no meio de gente como Serge Gainsbourg e Daft Punk.

O álbum é um paleta sonora chique e naïve da música eletrônica, uma história de amor espacial entre instrumentos analógicos e tecnologias digitais que se cruzavam à época mais pela necessidade do que pelo fetichismo de um ou de outro. “Sexy Boy”, sucesso inconteste do disco, é uma faixa essencial no encontro do trip hop e do ambient, galvanizado por profanas vozes angelicais.

“Sempre estivemos no caminho inverso, algo mais relaxado, psicodélico, uma música que não é feita necessariamente para dançar”, diz Jean-Benoît Dunckel, metade do Air, ao receber o repórter antes do show em que tocam, do início ao fim, o disco “Moon Safari”. “Sentimos que o público queria que a gente voltasse aos palcos. Havia uma geração que não pôde nos ver ao vivo antes e sentimos esse chamado.”

Se no fim da década de 1990, o Air surgia como um elegante patinho feio em meio ao sucesso da “French touch”, a onda de house que invadiu as pistas europeias e os Estados Unidos, hoje o duo é um sopro extraterreno em meio à ditadura de melodias insossas ou batidas aceleradas das pistas —aquela, pela via do pastiche comercial, e esta por um radicalismo esvaziado.

“Existe um pouco de Debussy e de Ravel na nossa música, que é romântica com muito espaço interior, um som que plana, com silêncios”, diz Nicolas Godin, a outra metade do duo. “É tudo muito impressionista. É a forma que encontramos para aceitar nossa herança francesa.”

Esse orgulho é mais a musicalização do imaginário formador do duo do que uma exaltação com pinta nacionalista, sentimento que serve à ultradireita na França. “São tempos sombrios. Já vivemos tempos mais alegres”, afirma Godin. “Não há nada pior na evolução da sociedade do que a ideia de segurança, porque ninguém está sempre seguro e precisamos aceitar isso”, diz Dunckel.

Outrora estudantes de arquitetura e astrofísica criados na região de Versalhes, famosa por seu luxuoso palácio real, os dois começaram a fazer canções já nos anos 1980. Ao se depararem com a música eletrônica nos anos 1990, eles entraram no mundo dos sintetizadores, mas sem jamais abandonar a vastidão dos jardins em benefício dos pequenos clubes parisienses.

“Nossa música sempre foi espacial e de paisagens. É como o classicismo francês, em que tudo é dosado e perfeitamente equilibrado”, afirma Godin. “Se eu vejo a arquitetura do palácio de Versalhes e a comparo com a arquitetura de edifícios ingleses ou alemães da mesma época, acho todas essas outras construções desproporcionais.”

De acordo com Godin, há também o “savoir-faire” francês. “É algo que vejo nas marcas de moda, na marcenaria, nas esculturas, existe até o concurso de melhor artesão’ na França, enfim, o artesanato é qualquer coisa de sagrado no país”, afirma ele. Benoît completa, aos risos, dizendo “a comida feita em casa é sempre melhor que a comida comprada no supermercado”.

Na atual turnê, o duo toca canções que pouco ou nunca viram os palcos com precisão de relógio suíço e a ajuda do baterista Louis Delorme, que entra com classe na amálgama sonora no palco.

É a vez de acompanhar, por exemplo, Jean-Benoît em seus sintetizadores enquanto canta em “Remember” e “New Star in the Sky” —um som que se tornaria definidor nos anos seguintes em trabalhos de artistas como Daft Punk.

É também o caso de assistir a Nicolas Godin nas cordas e na gaita em “Ce Matin-là”, como o fio condutor da narrativa de um herói das histórias de Júlio Verne, um dos ídolos do duo, ou “Le Voyage de Pénélope”. Última faixa do álbum, ao vivo a canção se torna um lânguido posfácio de filme B de ficção científica. Não por acaso, ambos assinaram diversas trilhas sonoras após o lançamento de “Moon Safari”.

Optar por uma espécie de relacionamento aberto, ora produzindo individualmente, ora tocando em dupla, é o que mantém o duo a salvo até hoje. “A gente trabalha em ciclos e não sabe bem para onde vai”, afirma Godin, que é casado com Iracema Trevisan, designer brasileira e ex-baixista do Cansei de Ser Sexy.

A conexão com o Brasil já rendeu estadas de Godin em Ubatuba, no litoral paulista, e no Rio de Janeiro. Abertura de “Moon Safari”, a faixa “La Femme d’Argent”, aliás, ganha contornos de bossa nova ao vivo com a bateria de samba jazz e a linha de baixo cadenciada.

“Na bossa nova e no Rio de Janeiro dos anos 1960, a gente encontra alguma coisa francesa”, afirma Godin. “Tom Jobim, por exemplo, tinha aquele cabelo penteado, uma camisa de gola e um suéter. Acho que ele poderia ser francês”, ajustando ele mesmo a gola e o penteado antes do show.

FELIPE MAIA / Folhapress

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