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Ajuda externa dos EUA deve mudar, mas país pobre não preenche vazio da noite para o dia, diz ONG

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “A suspensão foi repentina. No sábado à tarde fomos avisados de que a partir de segunda-feira todos os recursos estariam congelados e que deveríamos parar de trabalhar. Ficamos sem dinheiro para salários, aluguel, impostos. Temos diversas ações de enfrentamento ao tráfico de espécies silvestres. Traficantes não param e nosso trabalho não pode parar.”

O relato de Juliana Ferreira, diretora-executiva da Freeland Brasil, entidade que atua para acabar com a comercialização ilegal de espécies em parceria com Ibama, ICMBio e Polícia Federal, se soma a de outras organizações no país.

A maioria delas está angustiada com o corte no financiamento a programas estrangeiros pelo governo Trump, que representa 1% do orçamento federal dos Estados Unidos.

Os repasses foram suspensos por três meses para reavaliação -com exceção de serviços “de ajuda humanitária para salvar vidas”, o que inclui serviços médicos, alimentos, abrigo e assistência de subsistência, bem como suprimentos e custos administrativos razoáveis para essa assistência.

De acordo com a Casa Branca, a partir de agora serão aceitas apenas iniciativas “alinhadas com a política externa do presidente”.

“Países mais pobres não podem preencher o vazio da noite para o dia”, afirma o americano Steven Galster, 63, presidente do conselho de administração da Freeland.

“A reforma na ajuda externa é necessária, mas não se pode congelar fundos de ONGs eficientes na linha de frente. Estamos economizando dinheiro dos contribuintes dos Estados Unidos ao tornar o mundo mais seguro contra crime e pandemias [ao evitar animais selvagens traficados]”, completa Galster.

Enquanto organizações aguardam comunicados oficiais do Departamento de Estado para entender os desdobramentos da medida tomada nesta semana, outras já se mobilizam para buscar novos financiamentos.

Especialistas e integrantes de organizações ouvidos pela Folha, em condição de anonimato, avaliam que o congelamento na ajuda externa pode causar uma debandada de investidores dispostos a colocar dinheiro em projetos de impacto em um país emergente e não alinhado politicamente ao governo republicano.

As barreiras políticas e econômicas que Donald Trump vem impondo poderiam respingar na filantropia, dizem eles.

Isso porque a maioria dos recursos para iniciativas de impacto vêm do mercado tradicional -ou seja, de empresários, e não de “ongueiros ricos”. Neste sentido, o dinheiro tenderia a concentrar-se em países com os quais os Estados Unidos têm uma relação mais próxima a partir de agora.

brasileiro pode se fortalecer ao buscar alternativas à dependência externa -ainda que esteja muito aquém do financiamento da Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) no país, por exemplo.

Em 2023, último ano para o qual há dados disponíveis, o governo americano desembolsou US$ 71,2 milhões em ajuda externa para o Brasil, segundo levantamento da reportagem.

Entre as iniciativas financiadas pela Usaid está a Parceria pela Conservação da Amazônia, que reúne projetos em defesa do bioma.

Em visita a Manaus (AM) em novembro de 2024, o ex-presidente John Biden anunciou que a Usaid destinaria US$ 40 milhões para fortalecer a proteção da floresta, incluindo medidas para catalisar mais recursos filantrópicos dos EUA e do setor privado.

Uma das alternativas para mitigar os impactos do corte dos repasses é liderada pela Sitawi. A organização planeja colocar de pé um fundo emergencial destinado a ONGs brasileiras afetadas pela suspensão da ajuda externa americana.

“De agora em diante, organizações devem recorrer mais aos seus atuais financiadores, e muitos deles vão ficar sobrecarregados, sem conseguir ajudar todo mundo. Surgem questões como: ‘E se eu der todo o dinheiro agora, e depois me pedirem mais?’. Então há uma necessidade de coordenação disso”, explica Leonardo Letelier, CEO da Sitawi.

A ideia é que empresas, fundações, institutos e pessoas físicas reúnam suas doações no fundo com regras preestabelecidas. “Ter uma governança acordada entre todos facilita a tomada de decisão do financiador”, afirma o especialista.

A Sitawi planeja ainda criar um fundo rotativo de empréstimos a juros zero -medida a médio e longo prazo que permitirá que organizações em crise acessem recursos financeiros sem o peso de uma dívida tradicional, garantindo fôlego até que consigam se recuperar.

Na visão de Letelier, a postura da administração Trump em relação ao terceiro setor deve motivar a consolidação de novas alternativas de financiamento.

“É importante ter mecanismos como esses [os fundos], estruturados e prontos, porque o governo deixou clara a direção que deseja seguir. Ainda que recue na decisão de agora, problemas parecidos devem surgir.”

GABRIELA CASEFF E VICTÓRIA PACHECO / Folhapress

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