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Alice Caymmi celebra os dez anos de ‘Rainha dos Raios’ com show no Teatro Oficina

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Alice Caymmi é obcecada por mulheres assassinas. Consome horas de séries de “true crime” sobre o tema. Assistindo a uma delas, conheceu uma que botou fogo no marido. No momento em que a personagem decidiu incendiá-lo, começou a tocar “El Amor”, hit espanhol da década de 1980 na voz da cantora Massiel. Capturada pela canção, Caymmi começou a traduzi-la —nascia ali “O Amor”, versão que integra a recém-lançada edição deluxe do álbum “Rainha dos Raios”, em celebração aos dez anos do disco.

A canção está no repertório do show que a artista estreia nesta quarta-feira, no Teatro Oficina, com direção de Paulo Borges. “Fui entendendo ao longo da cena que essa letra era muito esquisita”, diz ela. “Vem te seduzindo para dentro da espiral do amor e depois te joga no inferno. Te mostrando as últimas consequências do amor apaixonado, até onde ele pode chegar, a espiral psicológica e física. Até hoje, quando termino de cantá-la, estou tremendo.”

Um momento específico da canção afeta Caymmi de forma mais aguda. “Ela parte de uma descrição simbólica do amor”, diz a cantora. “É uma bruma, um som, uma luz… Mas a certa altura, num verso, dá uma virada, quando ela diz que ele te empurra e te puxa e te leva pra trás. Começa a ficar físico. Normalmente a violência doméstica começa assim, eu já vi e já sofri, isso. A partir daí, a coisa vai degringolando na letra de um jeito horroroso. É o lugar feio da paixão, aonde ela pode chegar.”

A gravação, produzida por Diogo Strausz —o responsável por criar a sonoridade de “Rainha dos Raios” há dez anos— é o ponto de partida do projeto que engloba o show e o álbum deluxe, que além de “O Amor” tem três remixes assinados pelo produtor Maffalda. Tudo conceitualmente amarrado por uma única ideia, a fúria, que aparece como complemento ao título original.

Caymmi foi à mitologia grega para desenhar “Rainha dos Raios: a Fúria”, como foi batizado o show e a nova versão do álbum. “O ódio leva à exclusão, é o sentimento da extrema direita”, explica a cantora. “A fúria vai em outra direção, é um direcionamento da raiva para um fim justo. Na Grécia Antiga, as Fúrias são as filhas de Hades e Perséfone que saem do submundo de Hades para vir à Terra para trazer justiça. E a justiça que eu busco é uma justiça para os nossos corpos, que estão sobrecarregados.”

A reflexão da cantora parte de seu próprio corpo, desde sempre entendido como fora do padrão. Um padrão que é em si uma das injustiças contra a qual a fúria de Caymmi se lança —injustiça que é capaz de ver saúde na doença. “Quando emagreci por conta de uma crise de anorexia, me chamaram pra falar sobre a perda de peso de uma forma positiva. Eu falei: ‘não, porque eu tô triste! Eu tô doente, caralho’.”

Caymmi não se limita a uma revolta pessoal, no entanto. “Hoje há um fluxo de informação e de trabalho que provoca um surto coletivo de exaustão e de distorção de imagem”, avalia a artista. “As pessoas não conseguem dormir, as pessoas não conseguem comer, estão fazendo o trabalho de cinco pessoas pra ganhar um salário de meia. Todo mundo é feio, ninguém se sente bem. Ninguém se enxerga, ninguém entra em contato com o próprio corpo. Então, o teatro é um lugar muito importante para a corporificação dessa justiça. Justiça aos nossos corpos exaustos e sobrecarregados.”

O espetáculo, adianta Caymmi, tem como um de seus focos centrais exatamente a ideia de distorção de imagem. “O Paulo [Borges, diretor do espetáculo e criador da São Paulo Fashion Week] trouxe a perspectiva da moda”, afirma. “Ele está com uma inquietação muito grande sobre a deformação dos amigos e amigas com as plásticas, com as injeções, com toda essa coisa que se dá por conta dessa angústia coletiva.”

A estreia dela no Oficina marca um reencontro. Foi lá que ela viu, aos 19 anos, “Bacantes”, sob direção de Zé Celso. “Aquilo mudou minha vida para sempre”, afirma a cantora. “Me debrucei muito na faculdade de Teatro sobre os trabalhos de Zé Celso, todo o fundamento grego, toda a narrativa de Dionísio, toda a questão das bacantes… Ou seja, o Oficina não é só uma coisa que eu gosto, é parte de todo o meu estudo, de tudo que eu fiz pra que pudesse ter o meu trabalho no lugar em que ele está.”

Estar naquele palco é de alguma forma também um acerto de contas. Naquela época, ela chegou a ter a oportunidade de fazer um teste para o Oficina, mas teria que morar em São Paulo. Sentia-se muito nova para a mudança e acabou deixando a chance passar. Anos depois, mudou-se para a cidade. “São Paulo acolhe o meu trabalho. Me dei conta que eu morava no Rio só para ir à praia.”

“Rainha dos Raios: A Fúria” é a segunda parte de uma trilogia. “São três as luas, as Fúrias, as Iyamis no candomblé… É um número representativo do ciclo feminino”, diz. “A terceira parte será eu mais para frente, numa outra fase do meu corpo, da minha feminilidade.”

Entre as justiças pelas quais a artista clama, há o plano de lançar um olhar seu sobre seu avô, Dorival. A cantora conta ter ficado muito abalada nos últimos anos com o alinhamento de Stella Caymmi, sua prima e biógrafa de Dorival, com Bolsonaro e, sobretudo, com Olavo de Carvalho. “Isso me atravessou de um jeito muito violento”, conta a artista.

“Eu fiquei muito puta”, prossegue Caymmi. “E essa raiva ainda tá comigo. Eu tenho todo um projeto de administração da imagem e da obra do meu avô. Porque se você for parar para pensar que a biografia do meu avô mais confiável é feita por uma olavista, você começa a entender que faltam muitas coisas. Quero trazer à tona a verdade, e não o que acham que ele deveria ser. Agora eu tô cuidando de mim, mas em dada hora eu vou surgir como a neta que eu sou, comprometida com ele e com a imagem dele. Não vou deixar o meu nome ser arrastado na lama dessa maneira.”

LEONARDO LICHOTE / Folhapress

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