RÁDIO AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO Ícone TV
RÁDIO AO VIVO Ícone Rádio

Alvo da Meta, checagem tem limitações, mas é importante contra fake news, dizem estudos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A checagem de fatos, no centro da controvérsia sobre as novas política da Meta anunciadas por Mark Zuckerberg, tem limitações, mas é importante contra a desinformação, indicam pesquisas realizadas em diferentes países do mundo.

O tema veio à tona após o empresário comunicar o fim do programa de verificação de fatos com agências parceiras nas plataformas da Meta, que detém Facebook, Instagram, Threads e WhatsApp. A big tech irá migrar para um modelo em que os próprios usuários deixam notas no conteúdo desinformativo.

Segundo manifestação enviada pela empresa ao governo brasileiro, a medida começará a ser aplicada nos EUA e depois, eventualmente, será ampliada a outros países.

Ela foi adotada em meio ao alinhamento de Zuckeberg ao presidente eleito dos EUA, Donald Trump, sob o argumento de evitar erros e proteger a liberdade de expressão.

Pesquisas sobre checagem apontam que a eficácia da verificação de fatos (ou seja, a capacidade de convencer o receptor de que uma informação mentirosa é falsa) pode variar de acordo com alguns aspectos. Entre eles, a ideologia do usuário, o grau de radicalização política e o formato do conteúdo.

Um dos artigos acadêmicos com destaque sobre o tema analisou dados de 30 pesquisas.

Feito por pesquisadores das universidades Northwestern e Temple, nos EUA, e de Haifa, em Israel, ele apontou que a checagem de desinformação política pode trazer bons resultados a depender de como e quando acontece.

Segundo o estudo, publicado na revista Political Communication em 2019, o impacto da checagem pode ser influenciado por diversos aspectos. Um deles é a inclusão de elementos gráficos indicando o “grau de verdade” da mensagem. Ao contrário do que se poderia supor, o artigo indica que o recurso parece tornar a correção menos eficaz.

A checagem também pareceu menos eficiente quando os checadores corrigiram partes de um discurso e não a declaração inteira. Já textos com palavras simples tendem a ser mais eficazes.

Um aspecto que também parece ter relevância é a relação entre o que foi dito e o posicionamento político do leitor da notícia. O levantamento apontou que a verificação de fatos compatível com a ideologia do receptor é mais bem recebida do que aquela que desmente o que a pessoa já acredita.

Um estudo publicado em 2023 no Journal of Experimental Psychology também considerou o posicionamento político do usuário. Ele identificou que a desinformação circula mais entre indivíduos de extrema direita quando comparados a pessoas de centro. Além disso, esses receptores tinham maior resistência à checagem de fatos.

A análise foi feita com pessoas conservadoras e de extrema direita dos Estados Unidos e Espanha em três experimentos. Elas completaram uma enquete indicando a probabilidade de compartilharem postagens com e sem a checagem, além de passarem por testes cognitivos e um estudo de neuroimagem.

O trabalho contou com seis pesquisadores de instituições dos dois países, como a Universidade Autônoma de Barcelona e a Universidade de Nova Iorque.

Outro estudo de 2024 feito em 16 países da Europa apontou que a checagem de fatos tende a ser bem-sucedida no combate à desinformação. A pesquisa concluiu também que a identidade do verificador —e a credibilidade que ele tem— importa.

Segundo os autores, o experimento levou em consideração países com realidades políticas e midiáticas diferentes. Embora a checagem tenha gerado resultados positivos em todos os casos, alguns locais foram mais receptivos a ela, como Grécia e Itália, se comparados a Bélgica e França, por exemplo.

A análise foi feita em 2022 a partir de um questionário online respondido por mil pessoas por país. A seleção levou em consideração aspectos populacionais como gênero, idade e educação. O estudo contou com sete pesquisadores de instituições como a Universidade de Amsterdã e a Universidade da Antuérpia, na Bélgica.

De acordo com especialistas ouvidos pela Folha, os estudos sobre a eficácia da checagem mostram resultados mistos de uma medida que serve como paliativo para conter o cenário de desinformação na internet. Ainda assim, eles consideram que a checagem é importante para tentar conter o alto fluxo de notícias falsas, que seria mais adequadamente tratado com a regulação das plataformas.

Thales Lelo, professor de comunicação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), aponta que a checagem foi um paliativo proposto por essas empresas para tentar evitar a regulação do setor, que impactaria suas receitas.

“A checagem é melhor que nada, mas acordos paliativos não dão conta do problema de maneira massiva”, afirma ele, para quem a decisão recente da Meta tende a piorar o ambiente digital.

Fabio Goveia, professor de comunicação da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) e coordenador do Labic (Laboratório de Internet e Ciência de Dados), afirma que a checagem de fatos tem limitações, mas é importante para lidar com cenários de infodemia já identificados pela OMS (Organização Mundial de Saúde).

Ao contrário de diminuir o trabalho de checadores, ele sugere que haja cada vez mais transparência sobre como essas agências funcionam.

Afonso de Albuquerque, professor do departamento de Estudos Culturais e Mídia da UFF (Universidade Federal Fluminense) e coordenador do Codes (Centro de Referência para o Ensino do Combate à Desinformação), aponta como limitações a falta de padronização e de tempo para fazer as checagens.

Ele compara a desinformação a um tsunami, e a checagem a uma tentativa pouco efetiva para tentar lidar com cada uma das ondas que chegam à praia. A solução, afirma, passa pela regulamentação das plataformas e pelo estudo da desinformação como um campo do conhecimento, a fim de consolidar a compreensão de todas as variáveis que ajudam a formar a enxurrada de notícias falsas experimentadas rotineiramente.

ANA GABRIELA OLIVEIRA LIMA / Folhapress

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS