RÁDIO AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO Ícone TV
RÁDIO AO VIVO Ícone Rádio

Alvo de investigação da Procuradoria, jornalista peruano denuncia perseguição do fujimorismo

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – Conhecido por suas pioneiras reportagens sobre o grupo guerrilheiro Sendero Luminoso e sobre a corrupção no Peru, que levaram alguns dos ex-presidentes do país à prisão, o jornalista Gustavo Gorriti, 76, tornou-se alvo de uma investigação da Procuradoria nacional, em um movimento visto como orquestrado por políticos ligados ao ex-ditador Alberto Fujimori, 85, que governou de 1990 a 2000.

A acusação é de que Gorriti teria interferido e direcionado as investigações da Equipe Especial Lava Jato no Peru em troca de informações privilegiadas para publicar em seu site, o IDL-Reporteros. A apuração se estende também a dois promotores que fizeram parte da força-tarefa, Rafael Vela e José Domingo Pérez.

Para o jornalista, a nova ameaça a seu trabalho provém também do fujimorismo, agora liderado pela filha de Alberto, Keiko, e de grupos políticos vinculados a ele, como o Renovação Popular, comandado pelo atual prefeito de Lima e ex-candidato a presidente Rafael López Aliaga, de ultradireita; ele também aponta para Vladimir Cerrón, padrinho político do ex-presidente esquerdista Pedro Castillo e líder do Peru Livre, que rachou e agora vota junto com a direita no Parlamento.

“Começou com uma campanha violenta de difamação contra mim e contra a equipe que trabalha comigo, por parte desses políticos e seus partidos, que foram denunciados por nosso trabalho”, afirma Gorriti à reportagem. Essa campanha, segundo ele, ocorre principalmente por meio de tabloides sensacionalistas, pois muitos deles são de propriedade de políticos, alguns do atual Congresso, e também nas redes sociais.

A pressão foi tanta que a Procuradoria decidiu abrir uma investigação contra Gorriti. Na última década, ele dedicou-se a investigar os vínculos entre os acusados na Operação Lava Jato no Brasil com políticos peruanos.

Na lista dos que foram alvo de denúncias por parte do IDL-Reporteros estão a própria Keiko, ex-candidata a presidente, e os ex-líderes Alejandro Toledo, Pedro Pablo Kuczynski e Alan García —este acabou se suicidando antes de ser preso, em 2019. Eles teriam recebido propina da Odebrecht em campanhas eleitorais em troca de permitir que a empreiteira brasileira ganhasse as licitações de obras públicas.

A Procuradoria agora pede o fim do segredo das comunicações de Gorriti nos últimos dez anos. A defesa dele afirma que isso significa um atentado à liberdade de expressão e ao resguardo das fontes, ambos garantidos pela Constituição. Devido a ataques e ameaças anteriores, o jornalista recebeu da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos), no ano passado, amparo de medida cautelar, na qual o órgão requisitou ao Estado peruano proteção a seu trabalho e a sua integridade física.

Gorriti compara as atuais ofensivas com o que ocorreu na Guatemala. O país centro-americano havia permitido a formação da Cicig (Comissão Internacional Contra a Impunidade na Guatemala), integrada por promotores locais e conselheiros internacionais, indicados pelas Nações Unidas. Em 2015, uma das investigações da Cicig levou à prisão o então presidente Otto Pérez Molina, que acabou renunciando antes de ter seu impeachment aprovado pelo Congresso. Hoje, Pérez Molina está preso.

Os governos que o sucederam, de Jimmy Morales e Alejandro Giammattei, diluíram a entidade, pois também carregam denúncias de corrupção. Na gestão deste último, que terminou em janeiro, foi preso e condenado o jornalista José Rubén Zamora, diretor do El Periódico, que também se dedicava a investigações de corrupção.

“É exatamente o que querem fazer comigo”, diz Gorriti. “Dizem que vão exigir que eu dê a senha do meu celular e querem ver todas as minhas mensagens. Obviamente vou dizer que não, pois a lei está do meu lado”. Ele descreve o atual Congresso peruano como corrupto e tomado pela direita e ultradireita. “Eles têm a presidente encurralada, morta de medo”.

Dina Boluarte, que substituiu Pedro Castillo em 2022, também está sob investigação da Procuradoria, acusada de enriquecimento ilícito. A polícia realizou uma busca em sua casa e afirma ter encontrado evidências de crime, como a existência de três relógios Rolex —o ‘Rolexgate’ já levou à renúncia de seis ministros de seu gabinete.

“Aqueles que a sustentam hoje são essa aliança de direita e ultradireita no Congresso, e eles o fazem porque não querem eleições novas [o próximo pleito presidencial está previsto para 2026]. Mas é preciso lembrar que se trata de um Parlamento que tem mais de 90% de rejeição popular”, afirma Gorriti.

Autor de “Sendero: Historia de la Guerra Milenaria en el Perú”, o jornalista foi sequestrado em 1992, quando trabalhava para a revista “Caretas”, uma das mais importantes do país. O motivo: havia publicado uma denúncia de que Vladimiro Montesinos, então chefe do serviço de inteligência e homem-forte de Fujimori, estaria vinculado ao narcotráfico.

Em 2021, Montesinos foi condenado a 17 anos por esse crime, mas a sentença foi considerada cumprida porque o fujimorista já estava preso desde 2001, sentenciado em outros processos. Já Fujimori, que em 2009 recebeu pena de 25 anos por corrupção e por ordenar massacres que deixaram 25 mortos, foi libertado em dezembro do ano passado, por razões humanitárias.

SYLVIO COLOMBO / Folhapress

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS