O empresário brasileiro Victor Henrique de Oliveira Shimada, alvo de sanções do governo dos Estados Unidos nesta quarta-feira (1º) por suspeita de integrar um esquema de lavagem de dinheiro do PCC (Primeiro Comando da Capital), é um dos réus no processo que analisa supostas irregularidades no contrato de patrocínio do Corinthians com a casa de apostas Vai de Bet.
Ele também já foi condenado a cinco anos de prisão, em regime inicial semiaberto, por furto mediante fraude eletrônica e lavagem de dinheiro após ser processado pelo Banco Votorantim. O banco o acusou de desviar mais de R$ 35 milhões de suas contas, por meio de 2.799 transferências via Pix, a uma conta em nome da sua empresa.
Segundo um promotor do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo, Shimada é considerado um prestador de serviço de lavagem de dinheiro do tráfico internacional de drogas do PCC, mas não um integrante da hierarquia da facção.
Ele destacou o alto volume de dinheiro que passou pelas contas bancárias dele, sob suspeita de que não tenham comprovação de origem.
O setor de inteligência do governo de São Paulo não o identifica como faccionado. Ele ficou preso por 15 dias no Centro de Detenção Provisória de Pinheiros, em janeiro de 2025, e foi alvo de boletins de ocorrência por violência doméstica e estelionato.
Um escritório de advocacia que representa Shimada em processos no Brasil afirmou, ao ser procurado pela Folha, que renunciou nesta quarta de todos os processos em que atuava em favor dele.
Ele recorria da condenação pelos desvios no Banco Votorantim, afirmando que não desviou dinheiro e foi lesado nas operações alvo da denúncia. A reportagem não encontrou outros advogados que o representem.
A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo apontam que uma empresa agenciadora de jogadores de futebol, acusada de ter ligação com o PCC, recebeu mais de R$ 1 milhão a partir de pagamentos feitos pelo Corinthians.
O elo entre a empresa agenciadora, a UJ Football Talent Intermediação, e a facção foi apontado pelo delator Antonio Vinícius Lopes Gritzbach, alvo do atentado no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.
Segundo a delação, a UJ Football fazia lavagem de dinheiro do tráfico na aquisição dos atletas da elite do futebol brasileiro.
Shimada é proprietário da empresa Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobrança e Tecnologia, que recebeu um total de R$ 13 milhões no esquema investigado e repassou R$ 200 mil à UJ Football.
A polícia e o Ministério Público também apontam indícios de que ele seja o verdadeiro controlador da Wave Intermediações e Tecnologia, que repassou outros R$ 867 mil entre 2024 e 2025.
A investigação policial também encontrou transferências da Victory Trading ao influenciador Bruno Alexssander Souza Silva, conhecido como Buzeira, denunciado após a Operação Narco Bet, que apura um esquema internacional de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico de drogas. Os valores chegam a R$ 1 milhão num só dia.
O Gaeco denunciou seis pessoas por associação criminosa, furto qualificado e lavagem de dinheiro no escândalo VaideBet.
Além de Shimada, também foram denunciados Augusto Melo, presidente afastado do Corinthians, dois ex-dirigentes do clube de futebol, o empresário Alex Fernando André (conhecido como Alex Cassundé) e um homem apontado como intermediário da UJ Football.
Augusto nega as acusações, afirmando que “não possui qualquer envolvimento com eventuais irregularidades ligadas ao caso”.
Segundo o Tesouro americano, Shimada atuava como principal elo entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais, tendo lavado mais de US$ 30 milhões (R$ 156 milhões) oriundos de atividades criminosas em diversas cidades americanas por meio de transferências em criptomoedas.
O comunicado diz que Shimada recorria a uma rede de empresas para ocultar a origem dos recursos ilícitos e escapar da fiscalização enquanto recebia dinheiro gerado nos Estados Unidos e o lavava para o PCC no Brasil.
Essa estrutura empresarial incluiria a Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda., a Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda. e a Wave Construções Inteligentes Ltda., todas sediadas em São Paulo.
Segundo o Tesouro, as empresas eram utilizadas para dar aparência de legalidade às movimentações financeiras e dificultar a identificação da origem dos recursos.
Shimada foi denunciado em um tribunal na Flórida, com outros dez acusados, por lavagem de dinheiro. Outra denunciada nesse processo é Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, que também foi alvo das sanções do governo americano nesta quarta. A denúncia menciona receitas obtidas com a venda de drogas.
Stella é sócia da empresa Gp8 Pay Soluções de Pagamento, que aparece como uma das empresas relacionadas a Shimada no caso dos desvios no Banco Votorantim. O processo no tribunal americano prosseguiu contra outros denunciados, mas não em relação a Shimada e Stella.
Um documento do processo judicial, de março deste ano, mostra que isso ocorreu para que um setor do Departamento do Tesouro “pudesse finalizar sua investigação e impôr sanções“. O documento mostra que àquela altura a medida contra os dois já era esperada devido às acusações.
TULIO KRUSE E ISABELLA MENON / Folhapress


