RÁDIO AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO Ícone TV
RÁDIO AO VIVO Ícone Rádio

Aos 100, Liceu Pasteur de SP se separa dos franceses e se une ao Anglo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Embora houvesse muito a se comemorar, algo pouco festivo se passava nos bastidores da celebração dos 100 anos do Liceu Pasteur, um dos mais tradicionais colégios de São Paulo, muito conhecido pela lista de ex-alunos ilustres, como a cantora Rita Lee, o maestro João Carlos Martins e o médico Drauzio Varella.

O Liceu Pasteur foi fundado em 1923 por empresários e intelectuais brasileiros e franceses, com a cooperação do governo da França. E, em pleno ano do centenário dessa parceria cultural e educacional franco-brasileira, selou-se justamente a separação entre a parte “brasileira” e a “francesa” da instituição.

No lugar dos franceses, entrou o Anglo, famoso pelos cursinhos pré-vestibulares e pelo sistema de ensino. Ambos, Liceu e Anglo, preparam para 2025 uma nova escola. Já neste ano, a antiga unidade da rua Sergipe do Anglo, de Higienópolis, que tem cursinho e ensino médio, foi transferida para o prédio do Liceu.

Por ora, Anglo e Liceu, embora dividam o mesmo prédio, funcionam separadamente. Banners com o leão logotipo do Anglo marcam nos corredores as áreas dos novos ocupantes -são cerca de 250 alunos. Essa guinada tem deixado as famílias de alunos inseguras.

A sede do Liceu Pasteur é um casarão histórico com pátio central, janelões de madeira e pé direito alto, projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo na rua Mairinque, na Vila Mariana. A escola, hoje cercada de prédios, ocupa um terreno de cerca de 19 mil m2, com quadras, piscina e um campo de futebol.

A partir da Segunda Guerra (1939-1945), muitas empresas da França se instalaram no Brasil, o que fez aumentar o número de famílias francesas que procuravam o Liceu. Com isso, uma nova unidade foi construída na rua Vergueiro, também na Vila Mariana, em um terreno de cerca de 15 mil m2.

Na unidade antiga, ficou o ensino brasileiro com forte carga de francês. Na nova, inaugurada em 1964, o ensino francês, com matérias em português e diploma válido nos dois países. A relação entre as duas se complicou quando o número de estudantes da parte “brasileira” começou a cair, e os “franceses”, ao final, é que pagavam as contas, inclusive com subsídio do governo da França.

A derrocada começou no início dos anos 2000. De mais de 1.500, chegou a aproximadamente 600 por volta de 2005. Hoje são 128. Já no caso dos franceses, a escola está atualmente com 1.250, perto de sua capacidade máxima.

Com uma unidade ociosa e a outra precisando de mais espaço, foi feita uma reunificação, com um currículo trilíngue (português, francês e inglês) para todos. Na Vergueiro ficariam os alunos do infantil ao 7º ano, e na Mairinque, os do 8º até o 3º do ensino médio.

O projeto, chamado Grand Lycée Pasteur, teve início em 2019. Na prática, contudo, no prédio da Mairinque funcionavam duas escolas, com as turmas “francesas” de um lado, e as poucas “brasileiras”, de outro. Houve tensão entre professores, alunos e famílias. Além disso, foram encerradas matrículas do currículo brasileiro, e as turmas iam sendo fechadas.

Veio a pandemia, tudo piorou e, em 2023, selou-se a separação. Neste ano, os franceses voltaram para a Vergueiro e, a fundação que geria ambas, foi cindida.

A Fundação Liceu Pasteur -que antes geria as duas escolas e agora ficou com a parte “brasileira”- é presidida pelo ex-prefeito e atual secretário de governo do estado, Gilberto Kassab. Ex-aluno do colégio, ele assumiu o cargo em 2009, ano da morte de seu pai, o médico e escritor Pedro Kassab, diretor da fundação e do colégio por mais de 50 anos. Cláudio Kassab, irmão de Gilberto, é o diretor da escola.

Ele recebeu a reportagem no prédio da Mairinque e minimizou as mudanças. “Separamos as escolas para que cada uma tenha sua identidade”, afirmou. Questionado sobre a situação financeira da fundação, fugiu dos números: “Está razoavelmente equilibrada. A fundação é auditada.”

Sobre o Anglo, afirmou que o contrato não foi de venda, mas de parceria. “Há 15 anos usamos o sistema de ensino Anglo. Resolvemos convidá-los para fazermos juntos a nova escola trilíngue.”

Um comitê, com representantes do Liceu e do Anglo, decidirá os rumos pedagógicos e de marca, por exemplo, se a nova escola se chamará Liceu Pasteur Anglo ou Anglo Liceu Pasteur.

Nenhum dos envolvidos dá detalhes sobre o acordo financeiro, mas é certo de que não será uma divisão meio a meio. “Eles terão uma participação nos resultados”, afirmou à Folha de S.Paulo Guilherme Mélega, CEO da Somos Educação, da qual o Anglo faz parte.

Ele disse que a proposta do Liceu veio justamente quando o Anglo teve que entregar os imóveis, que eram alugados, de duas unidades. Além da Sergipe, que foi para o Liceu, também o da rua Tamandaré, na Liberdade (região central) -essa unidade foi para um prédio na rua Bela Cintra.

Segundo ele, a ideia é “revitalizar o currículo” do Liceu, “manter o francês, mas dar mais peso para o inglês”. Será uma “flagship”, disse, termo do mercado empresarial que significa produtos que são referência da marca, algo como um Anglo-conceito.

Enquanto isso, a parte “francesa”, agora separada com sede na Vergueiro, foi rebatizada como Liceu Internacional Francês de São Paulo. “Foi um divórcio”, afirmou à Folha, em tom bem-humorado, Bruno Martin, diretor da escola e representante da Aefe (Agência para o Ensino Francês no Exterior), entidade ligada ao governo da França.

“Divórcio amigável. Estamos dividindo os bens, que são os terrenos e imóveis, e as dívidas. Os valores estão sendo negociados.”

Segundo ele, a separação foi mediada por um representante do governo francês, que subsidiava o Liceu Pasteur e agora está com a escola francesa -uma sinalização importante foi o fato de o presidente da França, Emannuel Macron, em viagem ao Brasil em março, ter visitado o Liceu Francês.

Segundo Martin, o lado francês investiu R$ 20 milhões em reformas no prédio da Mairinque, à época da unificação das escolas. “Não deu certo, estamos nos divorciando e deixando a casa reformada para eles”, afirmou, seguindo, em tom de brincadeira, com a metáfora.

“Agora cada um precisa recomeçar. Por aqui, acredito que em dois anos a gente consiga pagar a dívida e equilibrar as contas”, afirmou. A mensalidade gira em torno de R$ 4.000 para o período semi-integral, valor semelhante ao integral do Liceu Pasteur.

LAURA MATTOS / Folhapress

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS