PARIS, FRANÇA (FOLHAPRESS) – Os primeiros visitantes a tocar os tambores da grande instalação imersiva de Ernesto Neto no Grand Palais parisiense foram ninguém menos que os presidentes do Brasil e da França. Lula e Emmanuel Macron inauguraram no dia 6 de junho “Nosso Barco Tambor Terra”, um dos pontos altos da programação cultural do Ano do Brasil na França.
“As obras [de Ernesto] estenderam raízes até o coração do Grand Palais, tecendo uma passarela sensível entre nossos imaginários”, postou Macron no dia da inauguração, logo depois da visita. Naquela noite, o despojado Ernesto recebeu ainda a deferência de uma mesa bem em frente à dos dois presidentes, no jantar de gala no Palácio do Eliseu, sede do governo francês.
É mais um reconhecimento à obra de Ernesto Neto, 60, um dos artistas brasileiros de maior projeção internacional na atualidade, com trabalhos em coleções como a do Centro Georges Pompidou, de Paris, do MoMA, de Nova York, e do Reina Sofía, de Madri. No início deste ano, ele já tinha exposto uma serpente gigante em outro prestigioso espaço parisiense, o vão central da centenária loja de departamentos Le Bon Marché.
Expor no Grand Palais é uma consagração para qualquer artista. O pavilhão famoso por sua monumental cúpula de vidro, construído para a Exposição Universal de 1900, é a joia da coroa dos museus nacionais franceses. Reinaugurado em 2024 para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos, após quatro anos de reforma, é reservado a grandes eventos e exposições.
“Nosso Barco Tambor Terra” é uma versão da instalação exposta no ano passado no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (Maat) de Lisboa, com adaptações para as dimensões do Grand Palais. A Folha visitou-a às vésperas da inauguração, quando Ernesto ainda dava os últimos retoques na obra minuciosamente concebida.
Não é por acaso que “Nosso Barco” vem de Portugal. Imensa e multicolorida “caravela” de crochê, feita com tiras de chita, a instalação nasceu de uma visão que Ernesto teve às margens do Tejo, anos antes.
“No que eu vi o fim do rio, vi o começo do Atlântico”, relembra. “Vi fantasgoricamente várias caravelas saindo das entranhas da Europa. Me deu aquela consciência do outro lado. Toda a nossa história, aquela confusão toda. Tudo que a gente sabe muito bem que aconteceu. Nem tão bem assim, que a gente deveria saber melhor, né?”
Dentro da caravela, que também é floresta, há 60 instrumentos de percussão vindos de vários países, que o visitante pode tocar, e sacos de contrapeso, abarrotados de diferentes grãos e especiarias. Os sons, as cores e os cheiros criam o ambiente multissensorial característico das obras de Ernesto.
A intenção do artista é despertar no visitante uma reflexão – por exemplo, sobre o legado do colonialismo, que fez do Brasil um produtor de matérias-primas que não agrega valor a elas. “O conhecimento não é valorizado, porque o pobre não deve receber conhecimento. Mas o rico também não recebe. E o conhecimento é a cultura, e o que transforma é a cultura.”
A percussão coletiva, que Ernesto pratica há quase duas décadas na tradicional bateria do Balança Mas Não Cai, do carnaval de rua carioca, é uma materialização do conceito africano de “ubuntu”, termo zulu que traduz uma filosofia de comunhão humanista.
“A sociedade em que a gente vive é competitiva. Quem chegar na frente ganha. Na batucada, quem chegar na frente está fora”, explica Ernesto. “Qualquer que seja o instrumento que você está tocando, tem que estar junto, dentro do balanço.” O entusiasmo do público com os tambores foi tanto que chegou a danificar a obra logo após a abertura, o que exigiu uma breve suspensão da visitação.
Ernesto reivindica com orgulho o legado das gerações anteriores. “Por que a Lygia Clark, o Hélio Oiticica, a Lygia Pape trouxeram essa arte interativa com tanta facilidade para o Brasil?” Ele mesmo responde: por causa da tradição inclusiva afro-brasileira e indígena. “O samba é todo mundo cantando. Não tem a separação palco-plateia”, exemplifica.
Ernesto Neto não é o único brasileiro a expor no Grand Palais neste momento. No balcão do pavilhão está em cartaz, no mesmo período, a exposição Horizontes. Ela apresenta pinturas de quatro artistas de origens e trajetórias variadas: Agrade Camíz, Antonio Obá, Marina Perez Simão e Vinícius Gerheim.
Camíz começou grafitando na zona norte do Rio de Janeiro. Ela levou a Paris dois trabalhos inéditos, “Safira” e “Grains de beauté perpétuels” (em português, “pintas perpétuas”), pinturas abstratas, porém cheias de referências a elementos do cotidiano carioca, como as cortinas de contas. “O meu trabalho fala sobre subúrbio. Eu trabalho com camadas entre a arquitetura e a intimidade social desse lugar”, afirma.
O candango Obá, que tem obra na prestigiosa Coleção Pinault de Paris, apresenta a inquietante “Banhistas nº3 – Espreita”, de 2020, em que um jacaré compartilha uma piscina com os humanos, observados por uma pessoa atrás de uma palmeira.
As ondas coloridas dos quadros da capixaba Perez Simão são fruto de um planejamento exaustivo, que pode levar meses. Ex-aluna da Escola de Belas-Artes de Paris, é possível enxergar nela influência distante de outra brasileira que um século atrás embarcou para a França em busca da própria voz, Tarsila do Amaral (1886-1973). “Meu trabalho é destilar a forma”, explica. “Não quero descrever demais, para conferir liberdade ao espectador.”
Natural de Juiz de Fora (MG), Gerheim produziu dois murais para a exposição. São complexas paisagens imaginárias cujos títulos, “Pirapora” e “Arapuca”, termos do tupi-guarani incorporados ao português, evocam a relação do brasileiro com a natureza e a fauna. “O meu trabalho tem uma operação muito compositiva, muito musical”, define. “Eu começo criando uma atmosfera e através da repetição desses padrões, vou criando um ritmo, para achar pássaros, folhas, chamas, asas.”
ANDRÉ FONTENELLE / Folhapress
