RÁDIO AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO
Botão TV AO VIVO TV AO VIVO Ícone TV
RÁDIO AO VIVO Ícone Rádio

Bolsonarismo tenta usar voto de Fux no caso Débora a favor de anistia e contra acordo do 8/1

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Integrantes da bancada bolsonarista na Câmara dos Deputados resistem ao acordo entre Congresso e STF (Supremo Tribunal Federal) para reduzir as penas da multidão que invadiu as sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Uma das estratégias é usar o voto do ministro do STF Luiz Fux no julgamento de Débora Rodrigues dos Santos, cabeleireira que pichou a estátua do Supremo, para justificar uma anistia.

“A anistia não perdeu força e não há esvaziamento do tema. O PL está em obstrução na Câmara”, diz a deputada federal Rosana Valle (PL-SP), citando o movimento para tentar bloquear ou postergar votações.

“O voto do ministro Fux é uma sinalização de que uma anistia pacificaria o país”, afirma. Ela admite, porém, a possibilidade de redigir um novo texto para tornar viável a matéria.

A proposta do perdão, tal como redigida hoje, poderia beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que, segundo a PGR (Procuradoria-Geral da República), liderou uma tentativa de golpe de Estado.

Na sexta-feira (25), Débora, que pichou a estátua do STF com o dizer “perdeu, mané”, foi condenada pela Primeira Turma a uma pena de 14 anos pelos crimes de tentativa de abolição do Estado democrático Direito, golpe de Estado, dano qualificado contra o patrimônio público, associação criminosa armada e deterioração do patrimônio tombado. Seguiram a decisão do relator, Alexandre de Moraes, os ministros Flávio Dino e Cármen Lúcia.

Já Cristiano Zanin votou por uma pena de 11 anos, considerando atenuantes da acusada e penas menores para os crimes cometidos. Fux ficou isolado ao votar por uma pena de um ano e seis meses. Ele defendeu que Débora fosse condenada apenas pelo crime de deterioração de patrimônio tombado, sob o argumento de que não existem provas para sustentar as demais acusações.

Ressaltou ainda que Débora não invadiu nenhum prédio e não teve ajuda de nenhuma associação criminosa para viajar até Brasília —a denúncia da PGR afirma que ela pagou R$ 50 para ir de Paulínia (SP), onde mora, até a capital federal.

Um dia depois da condenação de Débora, a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro elogiou e agradeceu a atuação de Fux, considerando-a uma “uma fagulha de bom senso”. “Não era o que desejávamos, mas a postura do ministro Fux —único juiz de carreira— foi mais sensata do que a de todos os outros, incluindo a de uma ministra”, disse Michelle, nas redes sociais.

O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), insiste na anistia, citando a decisão do ministro. “O voto do Fux foi perfeito, ele mesmo afirma que não há nenhuma prova contra Débora”, diz. “É a farsa do pseudogolpe caindo por terra.”

O julgamento de Débora, transformada em símbolo bolsonarista, suscita uma discussão jurídica com muitas nuances. Especialistas ouvidos pela Folha avaliam que houve exagero na pena de 14 anos, mas que o voto de Fux não pode ser usado para justificar uma anistia.

Professora de direito penal da USP (Universidade de São Paulo), Mariângela Gomes considera excessiva a pena, embora seja impossível desconsiderar, à maneira de Fux, sua ação no contexto do 8 de janeiro. “A conduta dela ocorre durante um movimento para depor o governo eleito”, diz.

Vice-presidente do Iasp (Instituto dos Advogados de São Paulo), Marina Coelho Araújo diz que Fux analisou o caso de Débora em particular, enquanto os outros ministros partiram de uma premissa coletiva. Por isso, acha razoável a decisão de um ano e meio de prisão.

Ela diz, porém, que nenhum ministro colocou em dúvida a existência dos atos antidemocráticos, não sendo possível usar o voto de Fux para a anistia. “Uma coisa é o julgamento de uma pessoa, outra coisa é transformar isso em política de Estado.”

Em paralelo, o acordo sobre 8 de janeiro, cerzido entre Congresso e STF, já tem uma minuta, prevendo a alteração da lei. O objetivo é reduzir as penas dos condenados que integraram o ataque golpista, mas sem participação no planejamento. Em contraste, os mentores da tentativa de golpe seriam punidos com rigor.

Mesmo sem anistia, o acordo beneficiaria Débora. Caso a lei seja alterada, sua pena poderia ser reduzida em mais de cinco anos, tendo direito à progressão em regime semiaberto. De todo modo, os especialistas com quem a reportagem conversou concordam em um terceiro ponto sobre o julgamento da cabeleireira: todos criticam o concurso de crimes, isto é, a somatória de penas advindas de infrações semelhantes no Código Penal.

Professor de direito da FGV, Rogério Taffarello diz ser a favor da absorção em um único artigo no caso de crimes semelhantes, como tentativa de abolição do Estado democrático de Direito e golpe de Estado. “Seria mais adequado trabalhar com penas mínimas, como fez o ministro Zanin, considerando os atenuantes da ré”, afirma.

Especialista em direito processual penal pela USP, Maurício Zanoide também critica a reiteração de crimes semelhantes e reforça ser indevido o uso do voto do ministro do Supremo para avalizar uma anistia irrestrita. “Isso seria desinformação ou má-fé”, afirma.

GUSTAVO ZEITEL / Folhapress

COMPARTILHAR:

Participe do grupo e receba as principais notícias de Campinas e região na palma da sua mão.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do WhatsApp.

NOTÍCIAS RELACIONADAS