LYON, FRANÇA (FOLHAPRESS) – Dividir palcos com pioneiros, como Kevin Saunderson e Jeff Mills, e estrelas internacionais, como Peggy Gou e Mall Grab, pode ser intimidador para artistas menos célebres. Não foi o caso para os brasileiros que pisaram no Nuits Sonores, o maior festival de música eletrônica da França e um dos mais importantes da Europa. DJs e produtores do Brasil mostraram a força das pistas nacionais no evento que ocorreu em Lyon, sudeste francês, no último fim de semana.
O ponto alto foi Badsista. Ao lado da DJ alemã Ellen Allien, o DJ e produtor da zona leste de São Paulo disparou um set energético feito sob medida para raves de galpão batidas pesadas e aceleradas com sequências melódicas abrasivas. Outro nome que se destacou foi Mochakk. Com seu tech-house cativante e simpático, o DJ encheu uma das pistas do festival com franceses e brasileiros, que ostentavam as cores nacionais e até camisas da seleção com o nome do artista de Sorocaba nas costas.
O Nuit Sonores também recebeu RHR e Cashu, artistas que vem enfileirando apresentações nos principais clubes do mundo. A apresentação conjunta foi do eletro à bass music, com pitadas do funk de São Paulo. O gênero serviu de base para Mu540, outro nome que vem levando as estridentes frequências da capital paulista às pistas internacionais. O artista se apresentou duas vezes no festival uma delas em companhia do coletivo Batekoo, que comandou um dos palcos do evento durante uma tarde inteira.
A chegada desses nomes é mais uma prova do crescimento global da música eletrônica brasileira uma produção cada vez mais fundada em elementos nacionais, entre funk e reinvenções latino-americanas dos sons de rave. A presença do Brasil do Nuits Sonores também antecipa um movimento no outro sentido: em outubro, o festival terá uma edição em São Paulo. O evento deve ocorrer no centro e vai destacar nomes e coletivos brasileiros com a curadoria que o tornou relevante em seu país de origem.
“Queremos fazer um projeto mais brasileiro que francês e trazer para isso nossa experiência de 20 anos”, diz Pierre-Marie Ouillon, um dos curadores do Nuits Sonores. “A ideia é levar ao Brasil três artistas franceses que entendem a força da cultura brasileira e de organizações que tem essa marca em São Paulo, porque a história da música eletrônica brasileira se escreve com esses coletivos, como Mamba Negra, Selvagem e Batekoo.”
O festival também terá foco em novas artistas por meio do Sónicas, projeto de formação de DJs que ocorreu pela primeira vez no Brasil neste ano, em março. “Queremos empoderar a cena e valorizar coletivos e artistas brasileiros”, diz o curador. “Na América do Sul há um cena viva, profissional, uma cena que será cada vez maior porque vai ocorrer por lá o que ocorreu na Europa: a música eletrônica se popularizou”.
O festival em Lyon também contou com a apresentação do DJ e produtor Pedro Bertho, radicado na França, e o trio Mimosa, formado pelo performer Luiz Felipe e pelos DJs e produtores Leyblack e Mbé. Misto de performance cênica e musical, o grupo revisita práticas da música negra por meio do sampling e do funk carioca. “O Mimosa é uma celebração dessa falha histórica que foi a tentativa de apagamento da cultura afro-brasileira, algo que não teve sucesso”, diz Luiz Felipe.
Segundo o artista, a presença do funk nas pistas de festivais como o Nuits Sonores é ambivalente. “O europeu vem de uma relação histórica com o resto do mundo bem degradada pela colonização, então, quando ele escuta o funk, sabe que aquilo vem de um território forte”, diz ele. “Mas ao mesmo tempo ele não tem essa dimensão do valor artístico e social, então ainda há muito que se trabalhar e estamos aqui para isso porque fazemos música para o mundo.”
No Nuits Sonores, era possível escutar elementos de funk até mesmo quando brasileiros não ocupavam os palcos. O duo Lander & Adriaan emulou as bases rítmicas do gênero no teclado e na bateria e o DJ Myd, nome importante da França na era pós-Daft Punk, tocou uma faixa do DJ brasileiro Adame na última apresentação do evento uma espécie de homenagem à eletrônica francesa que contou também com os DJs Bambounou e Cassius.
Formada pelo programa de capacitação do Nuits Sonores e uma das mais jovens artistas a tocar nesta edição do evento, a DJ Mimi Génial é reflexo desse contato entre Brasil e Europa traduzido por eventos como o Nuits Sonores. Sua apresentação levou funk para uma pista que não parecia questionar a existência desse gênero como parte da música eletrônica. “Eu acho incrível a batida do funk, as percussões me fazem querer dançar”, diz ela. “E como a França é um país multicultural, estamos cada vez mais abertos à música brasileira.”
FELIPE MAIA / Folhapress
